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BRUNO HELMUTH
O que o fez escolher a profissão de médico.
BRUNO HELMUTH
Eu acho que isso pode ter tido influência da minha mãe. Sou o quinto filho da família de cinco. Temporão. Quatro homens e uma mulher. A minha irmã é a quarta e seis anos mais velha do que eu. Cada um seguiu um caminho diferente. Meu irmão mais velho é engenheiro, o segundo que morreu era químico, o terceiro fez direito e minha irmã não fez faculdade, mas ela falava várias línguas e tinha muitas habilidades. Ela foi até casar secretária executiva de grandes empresas.
Meus pais teriam hoje mais de 110 anos. Eles eram alemães que vieram ao Brasil em 1935. Meu pai era engenheiro e foi mandado para cá pela empresa em que trabalhava e com a guerra ficaram aqui. A família da minha mãe, vários homens da família da minha mãe eram médicos. Meu avô materno era médico, um tio materno era médico.
Tinha pastores luteranos na família. Então, eu acho que conscientemente ou não, minha mãe exerceu alguma influência em mim nesse sentido. Mas também no científico eu gostava muito de biologia. Então, por ali eu já tomei o gosto de alguma carreira na área de biologia. E no colégio Cruzeiro, aqui no Rio, onde os filhos de alemães estudam, até hoje, convidavam profissionais de várias direções para fazer palestras, para ajudar cada um ali a escolher uma profissão. E eu me lembro que eu adorei o cara que veio falar sobre agronomia.
O cara era da Universidade Rural. Eu até, no primeiro momento, falei, acho que vou estudar agronomia, engenharia florestal, alguma coisa assim, nessa área. Só que cheguei à conclusão, com esse negócio de ficar no Brasil, que o padrão da família caiu muito. Imagina um engenheiro mandado da Alemanha com um salário altíssimo. quando decidiu ficar aqui, não conseguiu engrenar em uma carreira e nós fomos criados com muita dificuldade. Então, eu imaginei, quer dizer, isso é minha imaginação na época.
Para fazer alguma coisa na agronomia, eu tinha que ter uma fazenda.
Nunca me passou pela cabeça emprego público. Os agrônomos, eles não são empregados por isso. Isso, na época, não passava na minha cabeça.
Aí, talvez pela influência da minha mãe, acabei fazendo o vestibular para medicina. Na primeira tentativa que eu fiz sem fazer curso de vestibular, não deu, mas foi uma experiência sem problema nenhum, porque eu era adiantado na turma. E, até na nossa turma, acho que eu sou um dos mais novos
Então, eu escolhi Medicina e… Talvez por essa influência familiar, não é? Entrei…e não me arrependi.
Eu morava no Cosme Velho e era colega Luiz Maurício e do Carneirinho que moravam no mesmo prédio em Laranjeiras. Então, nós fazíamos o Miguel Corpo em Copacabana e voltávamos no mesmo ônibus.
Tinha a Yolanda e tinha o Paulo Afonso.. Nós éramos da mesma turma do Miguel Couto.
A primeira prova foi da UERJ. Eu passei.
Eu não conhecia nada das faculdades. Quando fui me inscrever em Vila Isabel ,fiquei encantado com o campus Aqui é que eu vou ficar. Nem fui fazer o concurso da UFRJ.
Na nossa turma, do Miguel Couto, quem sempre tirava o primeiro lugar todo mês era o Gutmann.
Entre os da nossa turma que passaram para a UERJ, eu fui o melhor colocado. Porque eu era bom de Física. E nesse vestibular, Física fez a diferença.
Comparado com as outras faculdades, a nossa turma era pequena, cento e trinta.
Eu passei para Medicina e no primeiro ano de faculdade, meu pai morreu. logo no início de novembro. Chegou do trabalho e caiu morto dentro de casa, morte súbita, sem recuperação.
Então, mais um problema para mim. Como é que eu ia sobreviver? Aí, a minha mãe junto com uma tia na Alemanha, conseguiu reabilitar contribuições do meu pai, para a previdência deles lá, antes da guerra. E aquilo gerou uma pensão para mim. Que eu receberia até me formar.
Isso ajudou, sem dúvida. E um irmão meu, advogado, também me ajudava, mas eu ficava naquela que eu tinha que me sustentar.
Minha mãe era uma pessoa introvertida, tinha um jeito de humildade no caráter dela, e por isso ela era muito querida também.
Uma amiga dela, ligada à Casa de Saúde São José, era cliente do diretor, Dr. Leandro Cortes, sabia que o doutor Cortes contratava estudantes como assistentes, Me recomendou e a partir do quarto ano eu fui morar na Casa de Saúde.
A exigência era alta e eu tinha pouquíssimo tempo para ir à faculdade, assistir aula, . Eu muitas vezes, só conseguia assinar a presença..
Isso, de certa forma, deixou algumas lacunas na formação, mas posteriormente preenchidas, né? Quem pegou muito no meu pé foi o Dr.Aguinaga.
Porque a família Aguinaga era muito amiga do Dr. Cortes. E ele percebeu que eu era interno na Casa de Saúde e que faltava muito às aulas da urologia. Mas acabou que ele deixou passar.
E como o Dr. Cortes era urologista, eu dominava a matéria também. Eu faltava, mas me dava bem nas provas da urologia.
Nessa parte de formação, para mim, serviço público não era assim uma ideia, não é? Eu via a medicina como uma profissão autônoma. . Indo para a Casa de Saúde a partir do quarto ano, isso se consolidou mais ainda, porque era um lugar de médicos que tinham clientela privada. Um dos meus exemplos. Inclusive, até foi o professor Piquet Carneiro.
E todos os outros professores nossos, o Benchimol, da cardiologia, esse pessoal todo tinha clientela privada.
O Cláudio foi outro que foi para a iniciativa privada, ele e o Roberto
LUIZ LIMA
Você chegou a fazer a SUSEME?
BRUNO HELMUTH
Não. E isso aí foi uma bobeada minha. Porque por um esquecimento, quando eu fui me inscrever, tinha acabado as inscrições.
Era um local de muito aprendizado.
No ano do internato, eu escolhi fazer estágio.
Passei por algumas cadeiras no sexto ano. Até para poder conciliar a minha vida com a casa de saúde São José. Nessa época, eu já tinha escolhido fazer cardiologia, que achava interessantíssimo, e durante a faculdade, eu fiz vários cursos paralelos de eletrocardiografia.
Na casa de saúde São José, que era um hospital mais cirúrgico e obstétrico, tinha um cardiologista que todo mundo chamava. Ele fazia os elétros. Quer dizer, os internos faziam os elétros e, uma vez por dia, ele dava os laudos. E já tinha uma certa idade. Eu estava gostando da coisa, e pensava: “Vou fazer cardiologia porque esse cara mais pra frente vai parar e eu vou pegar o lugar dele..” E assim foi.
Aí nos formamos.
No sexto ano eu fiz três meses de pneumologia, três meses de cárdio, por aí vai. Nessa época, no sexto ano, o Denilson Albuquerque era recém-formado. E ele iniciou a unidade coronariana do Pedro Ernesto. Eu frequentei esse iniciozinho ali. Também aprendi um bocado de coisas.
Tem algumas coisas de formação pessoal. Eu estudei 12 anos no Colégio Cruzeiro. e fui criado no Cosme Velho. Tinha poucos amigos ali de rua, mãe luterana não sei o quê. Eu fui criado num meio conservador.
Os primeiros relacionamentos meus mais… diferentes foram no curso de vestibular e depois na faculdade.
Ali passei a ver de tudo. Você se lembra que tinha uma parte da nossa turma que, diante daqueles conflitos, preferia ficar por fora e não se engajou, vamos dizer assim, na política estudantil.
Esse era o meu perfil.
O Plotkowski de família judaica não era religioso e gostava muito da cultura brasileira. Por ele eu passei a tomar gosto pela música brasileira e tudo. Eu fui muito influenciado por ele.
E isso continuou depois na faculdade.
E outra coisa… Eu, o Rui e o Rolf que éramos descendentes de alemães e falávamos alemão e tinha um bom número de judeus na turma.
E na infância eu ouvia muito, Ah alemão, não sei o quê, nazista
No IBEU tinha muitos alunos judeus aprendendo inglês, né? Fiquei amigo de alguns, mas algumas vezes ouvia, assim, “Nós não esquecemos o que vocês fizeram”.
Na faculdade eu notei isso também. Por incrível que pareça, os que eram mais simpáticos comigo eram o Akstein e o Samuel., mas outros me tratavam com desconfiança. Foi também um aprendizado na vida.
Quem me falou algumas coisas sobre isso foi a Dalva. Ela recentemente, me falou que também é de descendência judaica.
O Mourad tem o nome árabe, mas é judeu, isso eu demorei a saber
Quando nós passamos para o terceiro ano, lembro que tinha que escolher a enfermaria.
Tinha duas enfermarias para escolher. a do Landman e a do Feijó.
Eu penei: “Pô, eu não vou na do Landman que eu vou ser perseguido”.
Aconteceu, como eu falei, que eu tinha essa pensão da Alemanha, e precisava da assinatura do diretor da faculdade. Tive que procurar quem? O Landman.
Eu fui morrendo de medo, com o formulário em alemão.. O cara foi super gentil comigo. Conversou em alemão . Assinou e tal. Mais tarde eu fui saber que muitos alemães aqui no Rio eram clientes dele.
Me formei e tinha esse trabalho na São José. Então, residência, para mim, era uma coisa meio complicada fazer em outro lugar. Fiz o curso de cardiologia do professor Nelson Botelho Reis, na Santa Casa.
Fiz esse curso. Ganhei o título de especialista. E, em 1976, casei com uma sobrinha do Dr. Leônidas Cortes, que eu a conheci na Casa de Saúde de São José. Ela era instrumentadora, namoramos, casamos.
Minha mãe deu a ideia para eu fazer residência na Alemanha.
E era uma coisa, não só pela medicina, mas pela vida, conhecer um outro país. Era a pátria dos meus pais.
Nós fomos, e foi uma fase muito feliz na nossa vida. Minha filha mais velha nasceu lá.
Trabalhei seis meses num serviço de clínica médica, até absorver tudo, aprender os termos médicos em alemão, saber os nomes de medicamentos e tudo isso. Foi um curso intensivo naqueles seis meses. Como eu queria fazer cardiologia, consegui ir para um outro hospital, que era um hospital cardiológico em outra cidade.
E lá que nasceu a Cristiane, minha filha.
Até os anos 30, a medicina alemã teve uma fase à frente do mundo. Vários prêmios Nobel eram alemães. O Röntgen descobriu os Raios X, um alemão, e assim por diante.
Grandes médicos. Só que com o Holocausto, foi um desastre. Porque muitos grandes médicos alemães eram judeus.
E após a guerra, a Alemanha deixou de ter essa supremacia na medicina, passou para os Estados Unidos.
Vários judeus emigraram para os Estados Unidos. Então, eu não vou dizer que eu fiz uma grande residência, como o pessoal diz para os Estados Unidos, uma residência diferenciada e tal.
Eu não conheço mais nenhum médico que tenha feito residência na Alemanha. Mas foi um aprendizado de vida.
Eu peguei a Alemanha após a recuperação da guerra. A Alemanha se recuperou rapidamente, o Japão também. Embora eu trabalhasse no serviço de cardiologia, a gama de patologias era bem restrita. O que eu via lá era doença coronariana e uma ou outra doença. Aparecia lá uma cardiopatia congênita, mas nada grave.
Então, foi bem restrito. Mas, enfim… Quando eu voltei para o Brasil, em 1978, passei a dar plantão no Procardiaco, e, por conhecimento do Procardiaco, acabei entrando no mestrado no Fundão, Mestrado de Cardiologia.
E lá é que eu tive contato com toda a gama de patologias cardíacas, cardiopediatria,. E essa foi a minha formação.
Fiquei… Basicamente na São José… Quando eu voltei para o Brasil, nasceu minha segunda filha. Eu tinha que ganhar dinheiro. Eu dava plantão no Procardiaco, fiquei sendo o cardiologista da São José, mas isso era uma coisa autônoma. Eu não tinha emprego.
Um outro médico conseguiu para eu ser médico na Itaú Seguros. Parecerista na questão de saúde e tal. E ali o salário era bom.
Então, durante um tempo eu tive esse… Ah! No mestrado, no fundão, eu também tinha bolsa, que também ajudou.
Quando acabou essa bolsa do mestrado, eu emendei esse emprego no Itaú. Trabalhei dez anos lá. Consegui devagarinho fazer uma clientela. Sempre mais voltado à medicina privada. Só que às tantas… A nossa geração, todo mundo tinha essa ideia de ter um emprego público com aquele certinho do mês e uma aposentadoria garantida. Então, eu entrei tardiamente no emprego público. Fiz o concurso do Estado, que apareceu naquele ano, e entrei e aposentei no IECAC, recentemente. Passei por fases muito positivas lá. Nos últimos cinco anos, principalmente no IECAC, eu gostava de fazer o ambulatório, de ter contato com a clientela mais simples. Tinha bons resultados, porque nesse período da nossa geração, a medicina avançou muito.
Muitos critérios mudaram, apareceram drogas novas que realmente faziam efeito que não existiam quando nos formamos Na cardiologia, existia o digital, o Lasix., os nitratos, não ia muito além disso. Dilacoron, verapamil, eram os medicamentos usados aqui no Brasil, e não existia nos Estados Unidos. Sabia?
O verapamil era do laboratório Knoll, um laboratório alemão, e por isso nos Estados Unidos não deixaram entrar esse medicamento.
No fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos roubaram várias indústrias. A Merck continuou na Alemanha como Merck Darmstadt, mas nos Estados Unidos virou Merck Sharp & Dohme. A Pfizer era alemã, na Alemanha, “Fizzer”.
E tinha uma outra, que fazia hormônios. A Boeringer, tinha duas Boeringer. Tinha Heinz e Mannheinz.
Tinha uma outra a Schering, que nos Estados Unidos virou Schering Plough. A Schering era alemã também. E fazia hormônios.
Outra característica minha, também já vinha desde a escola, eu sempre gostei de história, e, ao longo do tempo, me interessei por história, em geral, porque eu tenho uma biblioteca de história enorme. E depois eu me dediquei para a história do Brasil mesmo.
Nos últimos 20 anos, a bibliografia do Brasil se expandiu muito nessa área. E eu também, além da história geral, história do Brasil, passei, como médico, a me interessar muito por história da medicina.
Isso acabou gerando num determinado momento que eu li um livro de origem americana que conta os avanços da medicina ao longo do tempo. E me deparei com um grande pulo no século XIX. No século XIX não teve só a Revolução Industrial, teve a Revolução Científica simultaneamente.
Uma coisa leva à outra. E, de repente, em meados do século XIX, toda aquela medicina de galeno que vigiu durante mais de 1.500 anos caiu tudo por terra. Então teve as novidades da anatomia, da fisiologia, patologia, microbiologia, com o Pasteur e tal.
Aí me deu na cabeça, como é que essas coisas chegavam no Brasil? Fui estudar e nesse estudo resultou um livro. É o meu livro que pode ser encontrado na internet: A Medicina do Brasil Império.
É bom deixar ressaltado aqui que uma das referências muito importantes nesse livro é a tese da Jane. A Jane, na Medicina Social, apresentou uma tese sobre a fase do ceticismo na medicina.
Com esse ceticismo é que surgiu a homeopatia, tratamento pelas águas, as pessoas irem pra região de águas e coisa assim.
Justamente nessa fase do século XIX que surgiram essas descobertas todas e os médicos deram-se conta que tudo o que faziam não valia nada. O negócio da sangria, que isso tudo era um absurdo.
Elas foram substituídas pela medicina. E esse tipo de medicamento também.
E a tese da Jane é sobre isso e é excelente. Ela fez um levantamento bibliográfico na Academia Nacional de Medicina que foi a antiga Academia Imperial de Medicina. Então, a tese dela me ajudou muito nisso.
Tenho que deixar isso registrado aqui. Onde as coisas da nossa turma se encontram.
LUIZ LIMA
A homeopatia inspirou a criação do Instituto Hanemanniano, do Rio de Janeiro, que virou a Faculdade de Medicina e Cirurgia, que hoje é a Unirio.
BRUNO HELMUTH
A homeopatia dominou no final do século XIX, porque não tinha outra coisa. O próprio Dom Pedro II, que era diabético, era tratado com… Ih, agora eu esqueci o remédio.
Só que era um veneno… Na homeopatia, tem aquelas diluições milesimais e tal. Achavam que aquele veneno tratava a doença.
O principal médico dele é o Conde Mota Maia. Super dedicado. Ele viajou com o Dom Pedro II para a Europa e os médicos lá, os professores europeus, disseram que o Mota Maia estava fazendo tudo certo. O tratamento era aquele mesmo.
Essa história está toda no meu livro.