CLÉBER REZENDE
LUIZ LIMA
Como foi que você escolheu a tua profissão, como descobriu que queria ser médico?
CLÉBER REZENDE
Eu sou nascido em Araxá, uma pequena cidade então com 30 mil habitantes no interior de Minas Gerais.
Minha família era muito modesta, mas meus pais davam um valor enorme à educação. Eles queriam um filho formado.
Naquele momento, lá no interior de Minas, para ser bem-sucedido, você poderia ser: médico, advogado ou engenheiro. Eram as opções. Duas outras profissões também seriam possíveis: ser padre ou funcionário do Banco do Brasil, que tinha um certo status.
Eu sabia que teria que escolher um desses caminhos e resolvi ser engenheiro. Nesse meio tempo, quando eu tinha 10 anos, minha irmã se casou e veio para o Rio de Janeiro. E aos 14 anos, na época de entrar no segundo grau, o papai falou: “sua irmã que está morando no Rio. Eu conversei com ela, disse que era para você morar lá para ter um ensino melhor”.
E assim foi. Eu vim para o Rio de Janeiro com 14 anos de idade, ainda com aquela ideia de ser engenheiro. Mas logo, logo percebi que matemática, as ciências exatas, não eram do meu gosto. Eu tinha dificuldade cognitiva para entender tudo, enquanto desempenhava melhor nas matérias relacionadas a carreiras ligadas à biologia. E foi dessa forma que eu vim parar na Medicina. Me preparei para isso e me inscrevi para as provas das três maiores escolas de medicina da época. Na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), eu passei muito bem classificado, em décimo terceiro lugar. Eu queria ficar na FCM, que era muito bem falada e ficava perto da minha casa, mas como eu já estava inscrito para a Nacional, resolvi fazer as provas. Também passei muito bem. Acabei não fazendo as provas para a Medicina e Cirurgia.
Felizmente fiquei na FCM. Eu digo felizmente por que acho que pegamos numa fase de ouro. Nossa formação médica foi extraordinária. E tínhamos o hospital, onde você fazia de tudo. Ou seja, você se sentia em casa. Era uma coisa muito prazerosa estar ali.
Nos dois primeiros anos do curso, eu achei as cadeiras básicas muito ruins, muito chatas. Fazia porque tinha que fazer, tinha que passar etc. Até que no terceiro ano, na Clínica Médica, eu fiquei absolutamente empolgado. Era o contato com o doente, que era o que eu estava querendo, fazer anamnese, exame físico. Os fundamentos da Clínica Médica eram fantásticos. O ensino foi muito, mas muito, muito bom. E assim, eu fui tomando cada vez mais gosto pela Medicina.
Ainda na faculdade, alguns fatos marcantes. Logo no primeiro ano, aconteceram duas coisas importantes. Uma foi a morte do Eduardo Akzel. Eu era muito amigo do Eduardo. E um belo dia, numa segunda-feira de manhã, alguém me falou que ele morrera num acidente. Aquilo teve um impacto enorme, porque era a primeira pessoa do meu convívio próximo a morrer. E era uma pessoa jovem, que estava no mesmo caminho que eu. Na sexta-feira eu o tinha visto, na segunda-feira ele não existia mais. Eu fiquei muito traumatizado com a morte do Eduardo. Mas aí, a vida continua e você termina por conviver com isso.
A segunda coisa que ocorreu no primeiro ano e que merece destaque, foi a ida da turma a São Lourenço. As pessoas ainda não se conheciam direito e toda aquela farra que a gente fez em São Lourenço. Lá tinha uma boate e a turma festejou a madrugada inteira. Nessa noite, eu conversava com algumas pessoas quando apareceu uma colega que eu mal conhecia, chamada Neide. Passamos a noite inteira conversando, até o raiar do dia. Isso teria consequências no futuro.
Com o passar do tempo, ali na clínica médica, fui me familiarizando mais com a Medicina. Num determinado momento, passamos a nos engajar nos plantões do Hospital Pedro Ernesto (HUPE). Ainda no terceiro e quarto ano. Os plantões eram para os internos e Residentes, mas eles nos deixavam participar.
Quando eu digo que o ensino na FCM era extraordinário é porque um plantão num hospital daquele, de 400 leitos, com muita complexidade, não tinha um médico de plantão. Só residentes e internos. O chefe da equipe era um R2. E esses residentes levavam aquilo ali muito bem, de forma fantástica, com os pés nas costas.
Em todos os anos em que eu dei plantão, numa única vez, foi preciso chamar o médico de sobreaviso para orientar, para cirurgia. Isso foi me deixando com mais vontade de fazer Medicina. Eu me sentia em casa. Era uma coisa muito legal, muito bacana mesmo.
A nossa turma, tinha algumas divisões bem claras. Tinha o pessoal engajado, politizado, de esquerda. Tinha o pessoal que hoje se chamaria de conservadores do centro-direita, tinha a turma do desmonte, que quase só queria fazer zona e tinha a maioria silenciosa, como sempre acontece. Eu, como bom mineiro, era um radical de centro, mas acabava que eu me dava bem com todo mundo, apesar de nunca ter sido um expoente na turma, que me sobressaísse. Foi uma coisa interessante.
Duas outras coisas que aconteceram comigo, na faculdade, paralelamente ao aprendizado médico, que foram um despertar cultural e um processo de politização.
Eu vinha do interior de Minas. Não tinha esse despertar cultural que já ocorrera com vários colegas: um sabia de cinema, outro de literatura, outro de música… E bate papo daqui, nas noitadas, e meu despertar cultural começou a acontecer como uma coisa muito legal. Assim como o processo de politização, em que você pelo menos começa a tomar ciência de como é que as coisas eram. Apesar de eu nunca ter me politizado muito. A gente estava em plena ditadura e eu não entendia direito como é que as coisas aconteciam. E ali, na faculdade, a gente podia ter um pouco mais de discernimento e clareamento dessas coisas para a sociedade como um todo.
Mais para a frente, ali pelo quinto ano, a maioria fez o concurso para a SUSEME.
Eu fiz e fui classificado para trabalhar no Souza Aguiar. Foi uma experiência muito marcante. Ali podíamos botar a mão na massa. Durante os dois anos que eu passei no Souza Aguiar, eu me lembro que estava lá com outros colegas de turma, posso contar nos dedos da mão as vezes em que um médico entrou na sala de atendimento. O staff ficava lá na sala dos médicos, e pouco entrava na sala de atendimento. Era tudo por conta dos quinta e sextanistas. O que era muito bom para a gente. Foi um aprendizado absurdo, mas não sei se era tão bom assim para os pacientes.
A gente ficava absolutamente à vontade abrindo o plantão, fazendo coisas certas, coisas erradas. E tinha a saída de ambulância. Você recebia um papelzinho escrito P-MAL. e o alto-falante anunciava. Eventualmente, se fosse atropelamento, tiro, ou facada, lá ia você, do quinto ano de medicina, com um enfermeiro plantonista. E aí, amigo, você entrava no olho do furacão. Você saía sem saber o que ia acontecer. O pau quebrava e você estava sozinho, no meio da rua e tinha que se virar. Evidentemente que estar no olho do furacão te torna muito safo, não é? Às vezes tinha uma multidão de gente para ver. Aí chegava lá um garoto do quinto ano de medicina e tinha que tomar uma decisão, mesmo que fosse remover o cadáver. Era uma possibilidade.
Eu me lembro de uma passagem muito interessante. Nos plantões, os acadêmicos faziam um rodízio de atendimento nas salas de homens, de mulheres e de pediatria. Um dia eu estava na pediatria. A fila de crianças para serem atendidas era enorme. As mães ficavam de pé, com as crianças de colo sendo sacudidas. Perguntei para uma mãe: “O que que houve?”
” Ah, doutor, ele está com diarreia”. Dei-lhe uns comprimidos e uma receita de dieta e ela foi embora, mas passados uns 15 ou 20 minutos, voltou.
“Doutor, será que o senhor podia me dar um atestado?”
Eu perguntei: “Atestado de quê, senhora?”
“Queria um atestado de óbito da criança”.
“Ela morreu, perguntei?”
“Não, doutor, não é que ele tenha morrido, não. Ele até que está bonzinho agora. É que de uma outra vez que eu estive aqui, com um outro filho, o menino morreu quando chegou em casa. E para eu conseguir o atestado, o senhor não imagina que dificuldade que foi. Então, eu queria ver se o senhor já podia me dar um atestado. Se acontecer alguma coisa, eu já tenho um atestado na mão.”
Isso foi uma das coisas mais estonteantes, absolutamente surreal que aconteceram na minha vida. A mãe, assim como outras pessoas que procuravam o Souza Aguiar, eram tão sofridas, tinham tão pouca noção dos seus direitos, que se tornavam embrutecidas a ponto de não se importarem de pedir um atestado de óbito do filho vivo.
No sexto ano, eu fui para a Unidade Coronariana do Souza Aguiar. Nos plantões, era somente eu de acadêmico e dois auxiliares de enfermagem, para atender dez leitos de Unidade Coronariana. O cardiologista ficava lá embaixo. Você pode imaginar a experiência que eu posso ter adquirido durante um ano, na Unidade Coronariana, tendo que tomar todas as decisões sozinho. Essa experiência me deu um embasamento definitivo, para o resto da vida.
Então, a passagem pelo Souza Aguiar foi uma experiência muito rica, que ficou para sempre.
LUIZ LIMA
A unidade coronariana, assim como a UTI, foram invenções daquela época. Antes não existiam.
CLÉBER REZENDE
Isso, você lembrou muito bem. No Rio de Janeiro, naquele momento, tinha o Pronto Cor, as Urgências Médicas, lá do Salek. Eram só quatro ou cinco Unidades Coronarianas. Uma Unidade Coronariana, meu amigo, é barra pesada. Você está ali conversando com o paciente que chegou infartado. Ele está muito bem obrigado. De repente, ele fibrila na sua cara, no meio de uma frase. E você, estudante de medicina, com 23 anos de idade, tem que tomar uma providência, tem que encarar. Por isso que eu digo, essa vivência me deu, para o resto da vida, um saber muito grande de como me safar das situações.
Terminada a faculdade, veio a residência. Já no final da residência, fui convidado para trabalhar em Furnas, na usina nuclear de Angra. Outros colegas de turma também foram convidados. E lá fui eu!
Ah, eu estava esquecendo um fato superimportante! Na época da faculdade, quando a gente estava indo para o quarto ou quinto ano, no ano de 71 ou 72, fui para Parintins, o que considero ter sido a maior experiência da minha vida, uma aventura extraordinária.
LUIZ LIMA
Só um parêntese, a história de Parintins tem a ver com o projeto Rondon,
CLÉBER REZENDE
Perfeito. Projeto Rondon. Integrar para não entregar.
A despeito de toda a polêmica que havia em relação ao Projeto Rondon e seu uso pelo governo militar…
LUIZ LIMA
Aliás, nem usou tanto, para dizer a verdade.
CLÉBER REZENDE
Eu sei disso, muito pelo contrário. Se o governo militar usava aquilo, era muito mais pelo jargão integrado, mas lá mesmo não tinha nenhum proselitismo. Luiz, olhando para trás, o Projeto Rondon era uma coisa fantástica, para todo mundo. Era fantástica para quem ia, porque o cara mergulhava no Brasil profundo, e era fantástica para quem estava lá. Esse mês que a gente passou no Projeto Rondon foi uma experiência que eu nunca mais esqueci. E você não entende como é que um projeto tão fantástico, tão bom para todo mundo, como é que acaba, não é, meu amigo? Desaparece.
Em Parintins, além de ter vivido a maior aventura da minha vida, aconteceu outro fato também importantíssimo. Aquela colega com quem conversei a noite toda em São Lourenço foi no mesmo grupo que eu a Parintins. E aí as nossas vidas se cruzaram de uma maneira definitiva. O que resultou estarmos fazendo esse ano 50 anos de casados.
Tem que comemorar!
Como eu disse, ao final da Residência fui chamado para trabalhar na cidade de Angra dos Reis, onde o reator nuclear Angra 1 estava sendo construído em meio a grande polêmica em relação ao combustível nuclear. Furnas tinha muito interesse, interesse político, em montar uma unidade de saúde ali que atendesse inclusive toda a população periférica, como uma forma de angariar o apoio e a simpatia daquelas pessoas. E assim ela fez. Não só com a saúde, mas também com a educação e com uma infraestrutura mínima de centro urbano. Instalaram duas ou três escolas, um supermercado, etc. Além dos operários que trabalhavam na construção da usina, tinha uma população local, os caiçaras de Angra, lavradores.
Nós tínhamos um hospital, o hospital de Praia Brava. Ali eu fiquei por doze anos. Foi outro período fantástico da minha vida.
Devíamos ser cerca de vinte e cinco médicos, de todas as especialidades: clínica médica, cirurgia, ortopedia, obstetrícia, ginecologia e obstetrícia. Formamos uma equipe e a gente era pau para toda a obra. Fazíamos uma medicina de padrão extraordinário. Era gente muito bem formada. Foi o primeiro e único episódio que eu vi de medicina socializada. Socializada naquele padrão do socialista mais puro e mais idealista. Essa unidade de saúde atendia todo mundo exatamente da mesma forma. Tanto o chefe da usina e sua família quanto os caiçaras. E quem ali chegasse era atendido do mesmo jeito. Não tinha cobrança alguma. Os atendimentos, a instituição pagavam. E era uma medicina, volto a falar, absolutamente socializada.
Quando Angra 1 estava em construção, chegamos a ter 11 mil homens trabalhando no canteiro de obras. Tinha dias em que chegavam, assim, 10 ônibus cheios de peões. E nós tínhamos que fazer o exame admissional de todo mundo, que era feito assim: a cada vez, botávamos 15 peões dentro de uma sala e fazíamos a ausculta cardíaca e pulmonar de todo mundo. Mandávamos soprar para ver se alguém tinha hernia. Se constatássemos alguma coisa suspeita, um indivíduo anêmico, com sopro importante ou com uma ausculta pulmonar suspeita, nós o separávamos e víamos que destino que íamos dar.
O movimento era brutal. Havia um ambulatório no canteiro de obra, outro no hospital e outros ambulatórios espalhados pelas vilas próximas. Foi uma experiência muito pesada.
Por estarmos trabalhando para a usina nuclear, grande parte dos médicos fez especialização aprofundada em medicina de radiação ionizante. Eu fui um deles. Esse curso durou, sei lá, um ano, quase dois, o que nos tornou especialistas em radiação ionizante. Tanto que, quando teve aquele acidente com o Césio em Goiânia, fomos chamados para atender as vítimas.
Estava eu na minha residência num domingo de tarde quando meu telefone tocou. Era o Nelson Valverde, nosso chefe, que me disse: “Cleber, estou em Goiânia te ligando porque aconteceu um acidente radioativo grave. Estou, neste momento, pegando um avião para levar uns radio-acidentados para o hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Estou exausto, muito cansado. Preciso de você antes de chegar ao Rio.”
Lá fui eu para o Marcílio Dias receber os pacientes que ele estava trazendo. Fizemos o que tinha que ser feito.
Então a passagem por Praia Brava, lá em Angra dos Reis, foi mais ou menos isso. É… Foi uma coisa muito importante na minha vida.
Depois disso eu continuei em Furnas até me aposentar. Fiquei 25 anos em Furnas. E aí vim para o Rio de Janeiro. E no Rio, nessa ocasião, eu já tinha cargo de chefia em Furnas. Não tinha cargo médico e não atendia em Furnas, mas tinha uma bela chefia de divisão, chefe de departamento.
Ao vir para o Rio, aconteceu outro fato importante na minha vida: ingressei no Hospital Miguel Couto, onde fiquei por 28 anos. O Hospital Miguel Couto foi, para mim, uma paixão absoluta porque, desde a época lá do Souza Aguiar, mesmo em Angra eu trabalhei com medicina de emergência. E medicina de emergência é uma coisa que sempre me deixou absolutamente apaixonado.
Não existe uma só medicina. Existem medicinas. O médico da emergência, é uma coisa. O que faz exclusivamente ambulatório é outra coisa. O médico de enfermaria, outra coisa, assim como o médico de CTI. E ainda tem o médico que trabalha com saúde pública. São várias medicinas, cada uma completamente diferente das outras. E por que a emergência me apaixonou tanto, a ponto de minha vida inteira eu ter trabalhado com isso? Porque é uma forma muito imediata de você ajudar as pessoas numa situação crítica. A identificação do problema, a solução e o alívio imediato das pessoas trazem uma gratificação enorme. Gratificação como profissional, mas também para seu ego é muito gratificante. Você tirar alguém de um edema agudo de pulmão, ou de uma cólica nefrética, que é uma coisa devastadora, ou resolver um diagnóstico, é uma coisa fantástica. Você vê um cara que chegou lá botando sangue pela boca, tem edema agudo de pulmão e daqui a 20 minutos esse cara já está respirando normal. Um cara se contorcendo de dor, numa cólica nefrética, daqui a 20 minutos ele já está normal também. Isso, para mim, era uma coisa muito gratificante.
Exerço essa medicina porque eu posso. Com os meus meios próprios, porque naquela ocasião tínhamos pouquíssimos recursos, mas com o seu conhecimento de medicação, do que fazer, como identificar, você consegue solucionar cada caso. Era a arte de fazer medicina! Então, medicina de emergência, muito mais que qualquer outra coisa que eu pude exercer, sempre foi apaixonante.
Lá no Miguel Couto, eu dava um plantão nas quartas à noite, segundas à tarde e um plantão de 12 hs aos sábados. Eu saía dos plantões exausto, mas muito feliz. Nunca saí de um plantão de mau humor, chateado, assim como nunca fui pra um plantão reclamando. Eu sempre ia muito bem-disposto. Porque ajudar as pessoas é uma coisa muito gratificante, é energizante até. É muito bom saber que você ajudou muita gente, orientou-as, tirou-as de sofrimento, trouxe tranquilidade para a família. Aquilo era para mim, como se diz popularmente, uma cachaça. Fora a quantidade de fatos interessantes que a gente via ao longo do plantão. Em quase cinquenta anos de emergência, não existiu um único plantão em que eu não tenha aprendido uma coisa nova. Ao final você podia me perguntar, o que você aprendeu hoje? Eu lhe diria que tinha aprendido não só do ponto de vista da medicina propriamente dita, mas também em relação às pessoas, às relações humanas, aos colegas. Em relação a todo aquele mundo que me rodeava. Todo santo dia eu aprendi uma coisa nova. É uma coisa absolutamente genial o aprendizado de vida que eu tive.
O que é mais que eu tenho para te falar? Tenho muito arrependimento por não ter, desde o início da minha vida, documentado tudo que eu vivi. Eu tinha que ter feito um diário todo dia. Chegou do plantão, documenta, documenta os casos que você viu, as coisas que você presenciou, as coisas que você ouviu. Os casos interessantes do ponto de vista médico, um caso que se apresenta de uma forma ou outra. Eu tenho arrependimento enorme de não ter anotado isso tudo para poder resgatar isso um dia.
LUIZ LIMA
Eu vou te dizer uma coisa, não é necessariamente dessa forma, mas existem outros lugares no mundo, talvez também aqui no Brasil, em que a atuação do médico é documentada basicamente no prontuário. E há uma preocupação em que o cara conte exatamente o que aconteceu. Então, por exemplo, eu me lembro que conversei com colegas do sistema de saúde inglês e eles entrevistavam os médicos e pediam que contassem regularmente os problemas que enfrentavam. Uma coisa que me surpreendeu é que pediam aos médicos que contassem os casos em que erraram. Aí você tem o registro de médicos famosos, diretores de faculdades, hospitais, em que eles contaram: olha, eu errei, não examinei direito, dei o remédio errado, errei e teve consequência e por ai vai. E eles pediam para os caras contarem isso porque era uma forma de lembrar que você não é todo poderoso, você também erra.
CLÉBER REZENDE
Olha só, você está tirando da minha boca. Eu ia tocar exatamente nesse sentimento de onipotência do médico. isso. Mas quando eu digo que eu devia ter anotado, são questões específicas, é um caso assim, um caso assado, mas isso que você acabou de falar, era algo que eu tinha anotado para comentar. Você sai da faculdade com uma arrogância enorme, ainda mais se saiu de uma faculdade que o formou muito bem, com a Ciências Médicas. Às vezes nós éramos confrontados com colegas formados em outras faculdades ali do Rio e víamos que estávamos num patamar acima. Essa constatação te dava uma arrogância muito grande, mas você não sabe tudo. É com o passar da vida, particularmente fazendo medicina de emergência, com os erros, os acontecimentos, as inseguranças, as incertezas, quando a sua falibilidade vai aparecendo que isso tudo vai contribuir para você, gradualmente, deixar de lado sua arrogância, o sentimento de ser um semideus. O passar do tempo, a maturidade e suas vivências vão te ensinando a ter humildade, a ter prudência, mais fraternidade, empatia com o doente, com a família do doente. Você vai aprendendo isso tudo.
Deixa-me contar-lhe mais alguma coisa da minha vida, que foi muito rica. Muito rica. Primeiro, por pertencer à geração que hoje tem 70 anos de idade. Foi uma geração que teve uma característica quanto ao relacionamento com a geração dos nossos pais. A geração dos nossos pais não tinha muito conflito com a geração dos nossos avós. A música de que o meu avô gostava era a música de que o meu pai gostava. A roupa que o meu avô vestia era a roupa que o meu pai vestia. O jeito de cabelo do meu avô era o jeito de cabelo do meu pai. Quando veio a nossa geração, o mundo virou de pernas para o ar na nossa cara. Tudo mudou. Eu costumo dizer que a gente pode dividir esse momento, grosso modo, em AB e DB: antes dos Beatles e depois dos Beatles. É verdade, porque os Beatles são um símbolo dessa história toda. É porque o mundo virou de cabeça para baixo na nossa frente. E nós não tínhamos nada de instrumentos para encarar esse mundo de cabeça para baixo. Não tinha nada para encarar o aparecimento dos Beatles, para encarar a pílula anticoncepcional, a liberação sexual, o uso de droga. E esse instrumental, a gente teve que adquirir na porrada, na força, brigando.
Eu me sentia uma pessoa privilegiada e com uma existência muito rica, não só por fazer parte dessa geração que eu acabei de falar aí, que é uma geração que viu o mundo virar de cabeça para baixo na frente dela, sem ter instrumental para encarar isso, e acabou tendo que adquirir o instrumental e abrir uma picada, à facão, para as gerações que vieram depois, não é?
LUIZ LIMA
Isso em todos os pontos de vista, não só em relação ao conhecimento, à ciência, mas em relação à política também, porque a nossa geração…
CLÉBER REZENDE
A vida como um todo. E aí eu descobri o seguinte, quer dizer, a minha vida foi assim. Ela teve períodos e ciclos bem-constituídos e diversos que tiveram início, meio e fim. Se eu juntar tudo o que me aconteceu, a Faculdade de Ciências Médicas, a SUSEME, depois Angra dos Reis, depois Miguel Couto já seria suficiente para mostrar quão grande foi a diversidade de minha vida. Mas tive ainda um novo ciclo em minha vida: eu sempre fui um apaixonado por cinema. Herança do meu pai que morava lá naquela cidade do interior de Minas. Uma pessoa que teve o curso primário, basicamente, mas era um cinéfilo alucinado.
Eu herdei essa cinefilia a tal ponto que um dia eu falei: Eu tenho que saber como é que é esse negócio de fazer cinema. Porque, quando eu era pequeno, lá naquela época em que eu podia escolher ser médico, advogado ou engenheiro, não me passava pela cabeça ser cineasta. Porque cinema era uma coisa que você comprava ingresso e assistia o filme. Eu só vim a descobrir que tinha alguém que fazia aquilo muito tempo depois. Minha paixão com o cinema era tão grande que eu queria saber como é que se faz cinema. E aí me deu uma louca e, aos 40 anos de idade, resolvi fazer vestibular para Cinema na Federal Fluminense. E foi outro momento da minha vida absolutamente fantástica. Quando a gente cai de cabeça na medicina, desde os 19 anos de idade, a formação médica é uma coisa que te absorve muito, né? E você fica com poucos olhos para o resto da vida. Quando eu entrei para a faculdade de cinema, foi como se tivesse um paredão cinza à minha frente. Com o tempo, naquele paredão cinza, fui abrindo janelas e vendo o mundo lá fora. Um mundo chamado antropologia, sociologia, linguística, e por aí vai. A história da arte me deixou absolutamente apaixonado. Naquele paredão de cinza, eu fui abrindo janelas e olhando por cada uma delas. E fiquei absolutamente encantado. Infelizmente, eu fiz a faculdade de cinema no governo Collor, em que o cinema nacional foi dizimado. E eu tinha contas a pagar e quem pagava minhas contas era a meu emprego em Furnas. Então, eu nunca fiz cinema profissionalmente.
Fiz, por diletantismo, vários filmes na faculdade, mas eu não pude dar prosseguimento a isso.
Mas isso não impediu a quantidade de coisas que se apresentaram na minha vida. A quantidade de coisas que eu aprendi, a quantidade de coisas que isso foi acrescentando à minha vida.
Basicamente, Luiz, é isso. Mas há uma outra consideração que eu queria fazer a respeito de uma discussão que hoje é frequente. Da medicina que fizemos e da medicina que é feita hoje. Há um certo saudosismo nisso. Fizemos a medicina com as mãos, não tinha exame, hoje só se pede exame, não sei o quê.
E a minha conclusão é que isso não é nem melhor nem pior, é como é. Hoje é assim. Quando eu resolvi parar, é porque eu achava que não dava mais. Para mim, a medicina que eu tinha aprendido a fazer e sabia fazer e tinha muito orgulho do jeito que eu fazia, não se pratica mais.
E agora, daqui para frente, é outra coisa, para a qual eu não fui formado. Então, eu achei que tinha de parar. Eu entendo que o médico tal qual conhecemos, vendo o paciente, conversando, examinando, esse médico vai desaparecer no médio prazo, daqui a uns 15 anos. Se você quiser entender o que eu estou falando, assista um filme do Ridley Scott, chamado Prometheus. Lá você vai ver como é que será a medicina dentro de algum tempo. Você vai entrar numa máquina, ela mesmo vai te fazer umas tantas perguntas, vai enfiar um bagulho aqui, tirar seu sangue, dosar 500 mil coisas, vai escanear o corpo inteiro, e lá na frente o seu caso vai se resolver. Então eu acho que o médico, nós estamos no fim da linha. Ele vai desaparecer.
LUIZ LIMA
E o que eu tenho reparado ao longo desses anos, é que apesar de toda a modernidade e das aquisições que nós tivemos, tem um momento que o indivíduo que se interessa e que estuda aquilo nunca vai prescindir da clínica. Porque mesmo que você tenha todo esse aparato, em algum momento, você vai ter que parar para avaliar aquilo que você está recebendo e tomando decisões. E, na verdade, o problema todo é na hora de tomar decisões. Quer dizer, você tem que tomar uma decisão com relação à vida da pessoa. E tem certas situações que não é propedêutico ou hermenêutico, nada disso.
É o olhar clínico mesmo, é aquela hora em que você está com o paciente e você tem que dizer para ele: “Você vai morrer”. Entendeu? Estou sendo um pouco dramático, mas é aquela hora em que você está frente a frente com um outro ser humano e que você tem o conhecimento de que ele está com o prazo de validade vencido
CLÉBER REZENDE
Luiz, isso para você, que teve uma formação médica, te ensinou a ver isso. A gente está falando de uma pessoa que não tem a formação médica e ele olha e diz, esse cara vai morrer, isso aqui é grave, eu tenho que intubar agora. As pessoas não aprenderam. Você, Luiz, sim, eu também. Isso que você está dizendo é verdadeiro, mas se aplica a você e a mim.
LUIZ LIMA
Eu vou te dizer, é muito variável isso. Na atividade de saúde pública, eu tive que percorrer vários locais, várias áreas do Brasil e até fora do Brasil, vendo como é que as coisas aconteciam. Por mais que a gente avance na tecnologia as populações humanas, não têm o mesmo desenvolvimento nesse mundo desigual. Há ainda muito lugar para esse tipo de profissional.
No Brasil teve um episódio, em Goiânia, o “Goianobil”, como se chamou, e eu, estando na época na vigilância sanitária, tive que apurar aquilo, quer dizer, identificar o que ocorreu. Descobriu-se que médicos donos de uma clínica de radioterapia falida deveriam ter informado ao Conselho Nacional de Energia Nuclear a existência da fonte de Césio, para que fosse descartada, mas não informaram. Simplesmente venderam o equipamento para um ferro velho.
O funcionário do ferro velho chegou lá, viu aquela máquina, a desmontou e achou um cilindro. Como queria ver o que tinha dentro, botou o cilindro no torno e conseguiu abri-lo. Nas palavras dele, ali estava a coisa mais bonita que já vira. Uma luminescência azul oriunda da radiação. E ele pegou aquele pozinho azul e levou para casa, para as filhas brincarem. E durante as brincadeiras, a mãe serviu um lanche. Então aquelas crianças comeram radiação.
CLÉBER REZENDE
Comeram radiação. Esse detalhe, eu estou com você para contar, mas a gente sabe isso dos mesmos detalhes. A gente tem que pesquisar essa história toda.
LUIZ LIMA
Não existia precedente disso , as pessoas comerem radiação.
CLÉBER REZENDE
A gente teve muita familiaridade com esses detalhes todos, porque até para a gente saber onde é que a gente tinha ido, a gente tinha que saber isso. Quem comeu, quem foi radiado, quem foi contaminado.
CLÉBER REZENDE
A respeito de uma outra coisa interessante que aconteceu ao longo da minha vida como médico em todo, que é um negócio chamado morte.
Morte. Quando a gente está na faculdade, eu pelo menos, não tive em momento algum de minha formação, em cadeira básica ou em artes clínicas, alguém que chegasse para a gente para falar sobre morte. Nós, na faculdade, só aprendíamos a salvar da morte. Mas quem nos preparou para a vida que é finita? A vida que um dia acaba. E a gente tem que saber qual é o momento de dar um ponto final nessa vida. Então, saímos como médicos extremamente despreparados para isso. Eu cansei de viver e presenciar esse despreparo. Principalmente no pronto-socorro. Parada cardíaca é igual massagem cardíaca e reanimação. Não importa em quem. Mesmo que seja um senhor de 80 anos de idade, com câncer, cujo coração parou. E lá vai lá o acadêmico residente feito doido para entubar e reanimar. E quando você se opõe a isso, não, espera aí, não vamos fazer isso, é um ai Jesus! “Mas ele está parando.” Não, ele não está parando, ele está morrendo. A vida dele chegou ao fim. Não está parando. Ele não tem que ser reanimado. Mas só que não ensinam. E isso eu acho um erro de formação gravíssimo. Porque a morte está aí, vai acontecer para todo mundo.
Você tem que saber o momento, como lidar com ela e o momento dela. A vida é finita. Não é essa a história que você tem que ressuscitar a qualquer preço.
O que eu tinha para te dar, era isso. Não acho que seja a coisa mais rica do mundo.
LUIZ LIMA
É mais do que você imagina. Cada entrevista é uma novidade. É uma outra experiência que eu fico sabendo que algumas eu não tive, você teve, outros tiveram, mas é muito rico. Pois a minha ideia é juntar depois todas essas entrevistas, várias.
CLÉBER REZENDE
E se houver mais alguma coisa que você ou agora ou mais para frente, eu quero saber, eu quero explorar mais, eu vou à sua discussão.
E não deixa de fazer contato com a Neide, porque ela está interessada em falar com você.
Mas eu estou à sua disposição. Ok.
LUIZ LIMA
Se você quiser aprofundar mais um assunto… A gente vai ver, porque eu vou pegar alguns desses assuntos e, mais adiante, se der tempo, fazer uma resenha. Então, por exemplo, esse caso do acidente radioativo de Goiania, esse caso é um caso que eu gostaria de fazer uma resenha com detalhes. São poucas pessoas que viveram aquilo e até hoje aqueles tambores estão lá, enterrados. Tá legal, então. Muito obrigado, Cléber. A gente fica por hoje aqui.
CLÉBER REZENDE
Mais uma vez te parabenizo pelo projeto. Acho que você está fazendo uma coisa extraordinária e estou aí à sua disposição.
LUIZ LIMA
Muito obrigado. Um abraço para você também.