MARIA CRISTINA MACIEL PLOTKOWSKI
O que me levou a escolher Medicina como profissão?
Não sei. Foi uma decisão por impulso. Nada na minha trajetória até o início de 1968, quando resolvi matricular-me num curso pré-vestibular para Medicina, sugeria a possibilidade dessa guinada em minha vida. Em 65 conclui o Ginasial no Instituto de Educação. Eu teria acesso automático ao curso Normal, que me habilitaria a ser professora do então chamado curso Primário, uma profissão, naquele tempo, considerada apropriada para mocinhas, mas que não me entusiasmava. Como gostava de desenhar e de pintar, pensei em ingressar na Escola de Belas Artes, mas fui desestimulada. Então, troquei o Instituto de Educação pelo Colégio de Aplicação da então UEG, que oferecia três modalidades de cursos de Segundo Grau: o Clássico, o Científico e outro chamado Estudos Sociais, que tinha em sua grade curricular disciplinas com que eu nunca tivera contato, como Sociologia, Filosofia e Economia, além de História e Geografia com uma abordagem totalmente distinta daquela adotada no Instituto de Educação. Eu gostei muito do curso, que me mostrou um mundo até então desconhecido, mas não me lembro do que me levou a procurar o curso Miguel Couto para saber se poderia cursar o pré-vestibular para Medicina, mesmo sem ter cursado o Científico.
E assim foi feito. No final do ano, fui aprovada no processo seletivo para a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da UEG. Como esta era a faculdade que eu queria cursar, não fui fazer as provas para as Faculdades Nacional de Medicina da UFRJ e da Medicina e Cirurgia.
O primeiro ano do curso médico foi muito desanimador. As aulas eram, no mínimo, desinteressantes, com exceção daquelas da Medicina Social, uma disciplina nova criada no final da década de 60 em que conhecimentos da Saúde Pública tradicional se entrelaçavam com os de Ciências Sociais. Foi como aluna da Medicina Social que ouvi falar, pela primeira vez, em Medicina Preventiva, em planejamento e administração em Saúde.
No segundo ano da faculdade meu desânimo com o curso persistia. Eu frequentava as aulas e estudava porque sempre fui uma CDF disciplinada. Até que um dia, em que eu estudava na biblioteca da faculdade, o Antonio Carlos Peres da Silva, um dos professores da Disciplina de Microbiologia e Imunologia, puxou conversa e, sabendo de minha decepção com a faculdade, convidou-me a participar de um projeto de pesquisa experimental por ele coordenado. Por que não, pensei. A partir de então, ir à faculdade passou a ser um prazer e eu aguardava com ansiedade o dia seguinte da realização de um experimento para conferir os resultados obtidos. No entanto, como os ensinamentos da Medicina Social tinham deixado em mim a certeza da importância da prevenção no controle das doenças infecciosas, com frequência eu questionava como o que eu pesquisava contribuiria para a saúde das pessoas. Consolava-me ao pensar que o que eu fazia era parte de um todo e que este todo, sim, levaria à prevenção de doenças. Pretensão e água benta cada um toma o que aguenta, não??
Meu envolvimento com a pesquisa teve duas consequências práticas: comecei a faltar às aulas das outras disciplinas para ficar mais tempo no laboratório e perdi o convívio com minha turma, com exceção de alguns poucos colegas. Hoje lamento, pois era uma turma peculiar, fora das normas.
Meu estágio na Disciplina de Microbiologia e Imunologia se prolongou até o final do 4º ano (1972). Apesar de gostar muito da atividade de pesquisa, decidi abandonar o estágio porque senti necessidade de ter maior envolvimento com a Medicina Clínica para decidir qual seria meu futuro profissional. Também no final de 1972, submeti-me ao processo seletivo da SUSEME. Aprovada, iniciei as atividades de acadêmica bolsista em 1973 no Hospital Miguel Couto, mas logo permutei com um colega lotado no Hospital Carlos Chagas para trabalhar, de 73 ao final de 74, na equipe dos plantões de 5ª feira, com os Drs. Fernão Pougy e Bernardino, professores de Clínica Médica da FCM. Foi uma escolha acertada. Fernão e Dino sempre foram muito presentes nas salas de atendimento, o que me deu segurança para enfrentar situações que eram muito mais motivo de estresse que de aprendizado. Sem eles eu não teria conseguido superar a sensação de incompetência para tomar decisões.
Em algum momento entre 1973 e 1974, também frequentei alguns plantões na Maternidade Fernando Magalhães. Um horror! Meninas grávidas sendo atendidas em estado grave devido à perfuração do útero decorrente da introdução de vareta de guarda-chuva ou de talo de mamoeiro ou qualquer outro objeto longo o suficiente para atingir o útero, na tentativa de interromper uma gravidez indesejada; duas grávidas compartilhando um mesmo leito, deitadas sobre o plástico do colchão porque a maternidade não tinha lençóis suficientes, sendo que uma dela tivera rompimento da bolsa e o líquido amniótico encharcava o roupão das duas; sutura de episiotomia praticada sem anestesia; mulheres pobres, mães de 4-5 filhos, suplicando por uma cesariana acompanhada da ligadura das trompas… O retrato escrachado das desigualdades sociais no Rio de Janeiro dos anos 70.
Ainda com o intuito de aprofundar meu envolvimento com a Medicina Clínica, em 1974 fiz o Internato em Clínica Médica no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE). Chegava cedo, examinava os pacientes sob minha responsabilidade, agilizava a marcação dos exames. E, enquanto o HUPE ficava entregue às almas na parte da tarde, corria aos laboratórios atrás dos resultados dos exames solicitados pela manhã, para que eles estivessem disponíveis na hora da visita médica, no dia seguinte. Fui ensinada a entubar pacientes, a dissecar veias, a debridar feridas… Fui comprometida com minhas obrigações, o que justificou o conceito de Muito Bom recebido. No entanto, ao término do internato e das atividades como bolsista da SUSEME, tive certeza de que não desejava seguir na área clínica da Medicina. Assim, em vez de me preparar para a Residência, como muitos de meus colegas de turma, preparei-me para prestar o concurso para o Mestrado em Microbiologia e Imunologia oferecido pelo Instituto de Microbiologia da UFRJ.
CONTEXTUALIZAÇÃO DE MINHA TRAJETÓRIA ESTUDANTIL
A partir do início da década de 1970, São Paulo e outros estados do país enfrentaram uma grave epidemia de meningite meningocócica causada, sucessivamente, pelos sorotipos C e A dos meningococos. Nessa época, o governo militar censurava qualquer informação que pudesse comprometer sua reputação, como a epidemia de uma doença para a qual já existia vacina. Médicos e sanitaristas foram proibidos de falar sobre o assunto, que foi considerado questão de segurança nacional. Com a censura, a máquina estatal, que deveria combater a epidemia, não sabia de sua existência!! Isso favoreceu a rápida expansão da doença. Apenas em 1974 foi criada a Comissão Nacional de Controle de Meningite, que importou milhões de doses de vacina anti-meningocócia e, entre outras medidas, determinou a criação de laboratórios capacitados a realizar o diagnóstico bacteriológico nos pacientes com suspeita clínica de meningite.
Na cidade do Rio de Janeiro, o Laboratório de Meningites foi instalado no Hospital São Sebastião, no Caju, referência no atendimento de pacientes com doenças infecto-parasitária, que funcionava 24hs por dia e para onde eram encaminhados pacientes com suspeita clínica da doença atendidos em outras unidades hospitalares.
Em meados de 1974, fui contratada como técnica de laboratório pela Secretaria de Administração do Estado como membro da equipe atuante no Laboratório de Meningites do Hospital São Sebastião, sob a chefia do Dr. Nelson Jerônimo Lourenço, professor da Disciplina de Microbiologia e Imunologia da UEG.
A experiência como plantonista no Laboratório de Meningites foi extenuante, tanto no plano físico quanto emocional. Trabalhávamos muito, principalmente à noite, quando o afluxo de ambulâncias aumentava, mas o mais devastador era presenciar o desespero dos familiares quando pacientes que pareciam saudáveis pela manhã morriam poucas horas após o aparecimento dos primeiros sintomas.
Dois outros tipos de lembranças dos plantões no Hospital São Sebastião merecem destaque: i) As condutas de bio-segurança inexistiam. Não tínhamos pipetas automáticas para trabalhar e o liquor dos pacientes precisava ser aspirado com pipetas de vidro, usadas tal qual canudos de refrescos. Protegia-nos apenas uma pequena bucha de algodão cardado colocada na extremidade das pipetas. Também não tínhamos capelas de fluxo laminar que nos garantisse segurança.
Além dos pacientes com suspeita clínica de meningite, era comum o atendimento de crianças com suspeita de difteria. A manipulação dos espécimes clínicos era feita com igual ausência de cuidados de bio-segurança. Apesar de nossas precárias condições de trabalho, o Estado nos negava um adicional de insalubridade a que tínhamos direito.
- ii) O dormitório dos plantonistas localizava-se num prédio isolado, afastado tanto do laboratório quanto da unidade de internação, o que nos obrigava a circular pela área externa do hospital durante a madrugada. Tanto quanto me lembro, nunca me senti insegura, o que certamente não ocorreria nos dias de hoje. O Rio de Janeiro tornou-se uma cidade muito mais violenta.
Permaneci como técnica de laboratório da Secretaria de Administração do Estado, exercendo as atividades de Microbiologia Clínica, até março de 1977 porque o salário ajudava a pagar as contas.
MINHA VIDA PROFISSIONAL
Concluído o curso de Medicina na FCM em 1974, no início de 75 eu e nosso colega de faculdade Alexandre Adler Pereira fomos aprovados no concurso para ingressar no Mestrado em Microbiologia da UFRJ. Éramos os únicos médicos da turma, formada principalmente por biólogos e biomédicos. Os trabalhos que deram origem a nossas dissertações foram realizados na Microbiologia da UERJ, sob a orientação do Prof. Italo Suassuna, titular da disciplina. Em novembro de 1976, defendi minha dissertação de Mestrado, dois dias após o nascimento de meu primeiro filho.
Também em 1976, fui contratada pelo INAMPS como Patologista Clínica, após aprovação em concurso público, tendo sido lotada no Laboratório de Bacteriologia do Hospital de Bonsucesso como responsável pelo diagnostico laboratorial da tuberculose e outras micobacterioses pulmonares.
Pela primeira vez tive contato com a malversação dos recursos públicos. Há anos o laboratório não tinha uma única cultura para micobactérias positiva, mesmo quando a observação microscópica de esfregaços de escarro mostrava a presença de inúmeros bastonetes afilados álcool-ácido resistentes. Uma rápida olhada no estoque dos meios de cultura utilizados foi suficiente para perceber que tanto o suplemento a ser adicionado quanto os próprios meios para cultivo dos espécimes clínicos estavam vencidos há tempos. O pior é que havia quantidade suficiente dos dois para muitos anos de trabalho.
Também no Laboratório de Bacteriologia do Hospital de Bonsucesso inexistiam condutas de biossegurança. Os escarros e outros espécimes clínicos eram por mim processados sobre uma bancada, num ambiente aberto, tendo como única proteção a chama de um bico de Bunsen.
Atuei no quadro de médicos do INAMPS, exercendo atividades de Microbiologia Clínica nos laboratórios dos Hospitais de Bonsucesso, de Cardiologia de Laranjeiras e, posteriormente, do HUPE até 1999, quando me aposentei com proporcionalidade de tempo de serviço.
Tendo concluído o Mestrado no final de 76, em março de 78 fui contratada como Professora Assistente da Disciplina de Microbiologia e Imunologia da FCM e passei a exercer as atividades de ensino de Imunologia aos alunos do curso de Medicina da FCM e de pesquisa.
De 1984 a 1986, matriculada no curso de Doutorado do Instituto de Microbiologia da UFRJ, executei os experimentos de minha tese na Unidade 14 do INSERM (Institut de la Santé et de la Recherche Médicale) em Nancy, França, sob orientação da Dra Edith Puchelle, graças a uma bolsa sanduiche da CAPES.
A experiência de trabalhar numa instituição em que não havia qualquer limitação de fornecimento de insumos, reagentes, equipamentos ou do imediato acesso à bibliografia científica foi um deslumbre. Trabalhar era um prazer. Os resultados dos experimentos eram garantidos, porque não havia o reaproveitamento de material de consumo, prática usual na UERJ em tempos de recursos escassos, com o risco implícito de que resíduos de detergentes utilizados para lavar utensílios, pipetas ou ponteiras de pipeta arruinassem o esforço de dias de trabalho.
Para exemplificar a desigualdade das condições de trabalho na Microbiologia da UERJ e na U14 INSERM, vou descrever como eram obtidas as culturas de células epiteliais respiratórias humana de que eu precisava, numa determinada etapa de meu trabalho. O cultivo in vitro de células eucarióticas exige que elas sejam mantidas sob concentrações precisas de CO2, superiores às do ar ambiente, bem como a graus de umidade controlados. Na U14 INSERM essas variáveis eram facilmente conseguidas com o uso de estufas de CO2. Na época, não dispúnhamos desse tipo de estufas na UERJ. Contornávamos essa limitação utilizando dessecadores, do tipo usado para preservação de reagentes químicos higroscópicos. Na parte inferior do dessecador colocávamos um pequeno tubo de ensaio cheio de água, que era apoiado, inclinado, na lateral de uma placa de petri contendo sal de frutas ENO em pó. Na parte superior do dessecador colocávamos as placas contendo suspensões das células respiratórias que queríamos cultivar. Após tampar o dessecador, ele era levemente inclinado, de modo que a água contida no tubo de ensaio fosse derramada na placa de Petri que continha o ENO, com liberação do CO2 necessário. Método engenhoso, mas primitivo e sujeito a contaminação e outras causas de fracasso. Resultado: em um ano e meio de trabalho na U14 INSERM obtive resultados suficientes para três publicações como primeira autora que compuseram minha tese de Doutorado.
Você me perguntou se eu ensinei a “técnica brasileira” de cultivo de células aos franceses. Não, exatamente, mas minha orientadora já estivera na Microbiologia da UERJ e conhecera como matávamos um leão por dia para trabalhar. Pouco antes de eu voltar para o Rio, ela me propôs submetermos um projeto de pesquisa que daria continuidade à linha de pesquisa que eu iniciara ao Programa de Cooperação Internacional INSERM-CNPq. Esse programa garantiria o custeio de passagens e diárias que possibilitariam estadas de pesquisadores brasileiros nos laboratórios da U14 INSERM e de franceses nos laboratórios da Microbiologia da UERJ durante 4 anos. Nosso projeto foi aprovado e renovado 2 vezes, o que permitiu que eu voltasse à França diversas vezes, para realização de experimentos pontuais. Permitiu, também que eu recebesse pesquisadores e técnicos franceses na UERJ, o que Edith encorajava não só porque a cada vez, uma técnica nova era implantada na Microbiologia, mas também porque ela considerava educativo que eles conhecessem as dificuldades que enfrentávamos para trabalhar. Não, nenhum pesquisador foi introduzido à nossa metodologia para o cultivo de células porque, a essa altura, já possuíamos uma estufa de CO2, mas espantavam-se com nossa vidraria “do século XIX”, particularmente com as pipetas de vidro e com a metodologia desenvolvida para lavá-las.
Ao término da licença concedida pela UERJ e da bolsa sanduiche da CAPES, voltei ao Rio em1986, defendi a tese de Doutorado no início de 1987 e prossegui nas atividades pesquisa e de ensino de Imunologia para os alunos do curso médico da FCM e de Microbiologia Clínica no Laboratório de Bacteriologia do Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, pelo INAMPS.
Na época, a constituição do Estado do Rio de Janeiro determinava a distribuição de percentuais pré-estabelecidos do orçamento estadual a entidades públicas para o fomento ao ensino e à pesquisa científica e tecnológica. Assim, a FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), criada nos anos 80, recebia um determinado percentual da receita tributária do Estado. Uma de minhas gratas surpresas ao voltar ao Rio em 86 foi saber que a FAPERJ passara a financiar projetos de pesquisa, o que possibilitou um salto na qualidade da pesquisa na UERJ
No início de 1988, Edith Puchelle, minha ex-orientadora do Doutorado, com quem eu continuara a trabalhar graças ao acordo INSERM-CNPq, ofereceu-me um contrato na Synthélabo, então o ramo médico da L’ Oréal, para trabalhar em nossa linha de pesquisa em seu laboratório. Solicitei licença na UERJ e no INAMPS para realizar um estágio de Pós-Doutorado na Unidade 314 INSERM, em Reims, Unidade esta de que, naquela época, Edith era a diretora. Lá fiquei até o início de 91.
É importante ser dito que, antes de minha passagem pelo laboratório da Edith em Nancy, a pesquisa realizada sob sua orientação era basicamente sobre Biologia Celular. Entre os projetos desenvolvidos por seus estudantes e funcionários constava a padronização de modelos para estudar a diferenciação celular, a reparação de tecidos humanos e mecanismos de defesa do trato respiratório. A riqueza e o pioneirismo de nosso trabalho conjunto foi a utilização desses modelos para estudar a patogênese de processos infecciosos de etiologia bacteriana. Minha contribuição foi fornecer uma nova aplicabilidade aos modelos disponíveis. Para mim, essa complementariedade abriu um leque de linhas de pesquisa que, até minha aposentadoria, propiciou o trabalho de diversos estudantes de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado.
Como disse, no início de 91 retomei minhas atividades na UERJ, mas não no Laboratório de Bacteriologia do Hospital de Cardiologia. Retornar à rotina do diagnóstico bacteriológico parecia-me ser desperdiçar tudo que aprendi durante o período em que estive fora.
Nos anos 90, diversos cursos de Pós-Graduação tinham sido implantados na UERJ. Como a Disciplina de Microbiologia e Imunologia tinha um corpo docente composto praticamente por doutores, com tradição em pesquisa, um grupo de professores trabalhou na estruturação de um curso de Mestrado em Microbiologia. Minha participação na criação desse Mestrado foi o argumento que utilizei para pleitear minha sessão, pelo INAMPS, à UERJ. O Mestrado em Microbiologia foi aprovado pela CAPES em 1994. Fui sua coordenadora até 1998 e mais tarde, após a criação do Doutorado, por mais 4 anos.
A partir de 2001 a colaboração entre a Microbiologia da UERJ e a U314 INSERM passou a ser apoiada pelo Programa CAPES-COFECUB. O projeto aprovado, intitulado “Interações celulares e transdução de sinais na patogênese de doenças humanas”, coordenado por mim e pela Dra. Edith Puchelle, garantiu bolsas de estudo para que alunos dos programas de pós-graduação brasileiros partícipes do projeto pudessem desenvolver suas teses, integral ou parcialmente, em laboratórios franceses. Eu acho importante essa vivência no exterior. Para mim, foi um divisor de águas. Voltei para o Brasil muito mais madura, com outra visão da pesquisa científica. O contato com pesquisadores estrangeiros possibilitou, também, que cinco de meus alunos de Doutorado se beneficiassem do Programa CAPES-COFECUB. Quatro desses alunos tornaram-se professores de universidades públicas brasileiras, após aprovação em concursos públicos e uma tornou-se bióloga do Instituto de Biofísica da UFRJ, também após aprovação em concurso público.
Permaneci na Disciplina de Microbiologia e Imunologia da FCM exercendo as atividades administrativas, de ensino na graduação e pós-graduação e pesquisa sobre mecanismos de patogênese de infecções bacterianas até 2018, quando me aposentei como Professora Associada.
Antes de terminar este depoimento, gostaria, a título de informação, de comentar a criação de um programa inovador de incentivo à pesquisa na UERJ que influenciou, de alguma forma, minha trajetória profissional.
Em 1996, foi criado o Programa de Incentivo à Produção Científica e Tecnológica (PROCIÊNCIA) que contempla os docentes selecionados, todos trabalhando obrigatoriamente em regime de dedicação exclusiva, com uma bolsa, em número limitado, hoje estipulada em cerca de 4.000,00. O acesso ao Programa é muito concorrido e, no processo seletivo, são levados em consideração a aprovação do projeto de pesquisa que o candidato pretende desenvolver, sua produção cientifica comprovada pelo número de publicações em revistas credenciadas, a orientação de alunos de programas de pós-graduação e de iniciação científica, a participação em sala de aula, entre outras atividades.
A criação do PROCIÊNCIA resultou no aumento substancial da produção científica, artística e tecnológica na UERJ, da interação entre diferentes grupos de pesquisa e da fixação de pesquisadores. Por outro lado, como tanto a admissão quanto a permanência no Programa decorrem do julgamento de Comitês de Seleção e Acompanhamento, os pesquisadores vêm-se pressionados a aumentar o volume da produção científica com potenciais consequências negativas como a geração de estresse e o risco da publicação de resultados falsos, um problema já detectado em diversos países
A título de curiosidade, gostaria, também, de relatar que, após a aposentadoria na UERJ, fui aprovada no curso de Conservação e Restauração da Escola de Belas Artes da UFRJ, que conclui em 2022, resgatando um desejo da adolescente que fui.