AMAURY JOSÉ DA CRUZ JUNIOR
CREMERJ. 52.20275.5
LUIZ LIMA
Nós vamos gravar uma entrevista para a página www.medicosveteranosrj.blog.br
Dando início, você está morando aonde exatamente?
AMAURY
Eu moro no Grajaú.
LUIZ LIMA
A primeira pergunta, praticamente a única, é:
O que levou você a escolher a profissão de médico?
AMAURY
É difícil, né? É difícil porque a gente sempre tem muitas motivações, né?
Mas eu acredito que nós, no segundo grau, vamos sendo estimulados por situações à volta, ou talvez até a presença de um familiar da área. No lado da família da minha mãe já havia alguns médicos, e isso sinalizava um modelo de trabalho que me parecia interessante. Por outro lado, eu tinha um bom domínio também das ciências exatas e uma parte dos meus colegas, no final do segundo grau, fez a opção de terminar o terceiro ano do segundo grau na área de preparação para engenharia.
Então, nesse sentido, eu fiquei um pouco dividido se a primeira escolha minha estava correta de ser para medicina porque o grupo mais próximo de mim, a maioria, foi tentar engenharia. Inclusive, um dos meus melhores amigos, que nós nos consideramos sempre fraternos. E, mesmo assim, eu continuei.
Fui fazer cursinho vestibular no último ano do segundo grau e o meu professor foi o Enéas. Ele foi uma pessoa significativa para mim por ser de uma inteligência rara e sempre muito íntegro na atitude. Me deu a noção de algo que combinava com a minha personalidade também. Então, parece curioso, um professor de física no vestibular, mas ele era já médico cardiologista, no contato com ele durante o cursinho vestibular aumentou a minha certeza que era o que eu queria.
Em relação a ser psiquiatria, essa decisão já estava tomada também antes de fazer medicina. No correr do segundo grau, houve uma perda na minha família. O meu pai teve 16 irmãos, o irmão mais velho dele, teve um acidente automobilístico, ele era oficial de farmácia no exército e num retorno para casa, o carro dele capotou e o TCE que ele teve, levou-o ao hospital do exército, em que o pavilhão era neuropsiquiátrico.
Então, eu lembrava durante a minha adolescência, o meu pai lamentando o irmão estar num lugar e poderia ser confundido como um doente mental e aí não receberia todos os cuidados que merecia. Aquilo me pareceu muito traumático.
Depois que o cara ganhou um rótulo psiquiátrico, se ele queixar do ombro é nervoso, se ele queixar do estômago é nervoso. Aí aumentou minha curiosidade de fazer psiquiatria, já que eu tinha o interesse de delimitar bem os dois campos. Um lado pelo afetivo de ver meu pai muito triste com a perda do irmão e já nos estágios eu percebi que a psiquiatria exigia uma melhor delimitação de papéis, vamos dizer assim.
O meu primeiro estágio já na faculdade, foi um curso breve que fiz no início do segundo ano na maternidade da Santa Casa em abril de 70. Entre abril de 70 e dezembro de 72, eu estagiei lá. Em abril, agora, eu farei 56 anos que comecei a mexer com medicina, praticamente, porque a gente já estava na faculdade desde 69.
E isso foi fundamental, porque eu sou atualmente uma das referências de acompanhamento de grávidas. Essa minha experiência na maternidade ampliou o meu conhecimento de lidar com o tratamento das pacientes na gravidez do ponto de vista psiquiátrico, que eu faço até hoje. Esse ano, coisa de um mês atrás, já atendi uma paciente que eu já acompanhava e ficou grávida.
Bom, o estágio no Pinel, que começou em dezembro de 71, também veio pelo Jorge Alberto Costa e Silva da faculdade. Quando eu assisti algumas aulas dele. Eu digo que eu não sou médico, que eu sou cientista. Essa frase eu usei metade da minha vida.
Então o que acontece? Eu abordo o Jorge Alberto e comento com ele do meu interesse em fazer psiquiatria. Eu acho que ele entendeu que eu estava pedindo isso, um estágio.
Não, eu precisava que ele me indicasse um livro inicial para eu começar a dar mais atenção aos conceitos na psiquiatria. E aí ele falou, era um final de aula, ele disse, “olha, eu estou meio apressado hoje, você pode ir lá no Pinel me encontrar semana que vem?” Isso era final de novembro.
Eu concordei, mas não entendi muito bem a alternativa. Eu chego no Pinel, na semana seguinte, ele me leva na secretaria e faz o meu cadastro com a funcionária e no dia 3 de dezembro de 71, eu começo a estagiar em psiquiatria.
Eu já estagiava em maternidade desde abril de 70 até dezembro de 72 e esse segundo estágio já em psiquiatria foi de 3 de dezembro de 71 a maio de 73. Isso também me deu uma formação muito grande pelo volume de pacientes a ser tratado e um dado que poucas pessoas têm clareza. O Pinel foi fundado em 64, então em 71 ele era um hospital novo. E um hospital que já tinha um arquivo com dados importantes, tanto que no ano seguinte, eu e a minha equipe, quer dizer, a equipe que eu participava, montou um trabalho de intercorrência clínica na emergência psiquiátrica e levamos para Petrópolis, para um congresso e divulgamos que, nesses 6 anos que o Pinel existia, houve 28 casos ou pouco mais do que isso de doenças clínicas confundidas como distúrbios psiquiátricos e isto gerou um questionamento.
O paciente alcoolizado chegou trôpego com um hematoma subdural por ter caído. Como ele estava com cheiro de álcool e balançando, foi internado como um quadro de alcoolismo agudo só, sem a investigação mais completa e é claro, evoluiu para o óbito. Aquilo aumentou meu interesse na psiquiatria e fez com que o atendimento meu fosse ganhando mais qualidade.
Durante esse período, consegui através de um concurso, estagiar na psiquiatria da Polícia Militar. Fiquei lá de setembro de 1973 a dezembro de 1974. Aquilo também foi muito bom para a minha formação. Era outro hospital com grande volume de atendimentos. Então veio o inusitado, o engraçado disso. Na época, como a maioria dos adolescentes que nós éramos, o meu cabelo parecia algo fora do normal. Eu usava um cabelo bem grande e dentro da polícia, eu era uma figura exótica. Porque o policial não pode deixar o cabelo encostar na gola e o bigode não pode passar do ângulo da boca. Quando os soldados percebiam que eu tinha essa figura alternativa e ninguém me proibia, eles chegavam lá na minha sala e contavam algumas irregularidades como se quisessem que eu fosse cúmplice deles, numa licença? Eu falava, “não, você está consciente do que está fazendo. A minha função não é essa, te abonar a falta”. Foi uma experiência curiosa pela caracterização minha. Esse meu trabalho na polícia teve repercussão no ano seguinte, depois de formado. Porque quando chegou perto do final do ano, eu, como a maioria de nossos colegas de turma, se preparava para pedir residência na faculdade.
Só que no sexto ano, eu tinha ido ao pessoal da medicina social, do Prof. Hésio, e conversando com eles, me sugeriram, já que o meu interesse era ser psiquiatra, já estava claro, eu poderia fazer o sexto ano só em psiquiatria, passando três meses pelo serviço de medicina social. Me pareceu uma ótima ideia. Só que, na UERJ, naquele período, quem não fazia internato em clínica médica, cirurgia e pediatria, tinha menos pontuação para pedido de residência.
E isso me afetou. Nesse período de três meses de estágio na medicina social, eu fui para Parintins no Projeto Rondon, e fiquei lá seis semanas.
E, como eu digo que eu não sou médico, eu sou cientista, eu já levei um trabalho de pesquisa baseado numa série de estudos que eu já fazia, e fiz um trabalho de alteração do comportamento e faltas ao trabalho numa população fixa. A população da cidade era de 20 mil pessoas. Hoje tem mais de 100 mil.
Uma população homogênea, a maioria descendente de índios. E também encontrei um índice interessante de alcoolismo na cidade e de intercorrências policiais, em torno de 28 a 30 ocorrências policiais em torno de um ano, associadas ao álcool.
Eu usei no ano seguinte esse material de trabalho para a minha monografia da pós-graduação em Medicina do Trabalho. Quer dizer, eu comecei a trabalhar minha vida recém-formada já com pesquisa. Ah, não consegui a residência na faculdade. Eram quatro vagas e eu fui o quinto colocado.
O Oswaldo ficou, o Jaime ficou, e eu dancei.
Mas, assim, aquilo me frustrou. Porque eu tinha feito o sexto ano na faculdade em psiquiatria porque era a minha motivação. Só que o meu orientador era o Jorge Alberto, que continuou perto de mim.
Mas, na época que terminou o sexto ano e ia começar a seleção para a residência ele viajou para a Europa. Ele fazia um trabalho que o levou a ser presidente da Associação Mundial de Psiquiatria na Europa.
A Prof. Maria Teresa Aquino tinha uma pinimba com o Jorge Alberto. Então ela não me incluiu na listagem. Quer dizer, eu não tinha feito nada errado pelo contrário, estava trabalhando diretamente na área e aconteceu isso. Eu não sei se foi no quinto ano, eu ia muitas vezes falar com o pessoal da psiquiatria e eu abordei o professor Eustáquio Portela dizendo “olha, eu vi aqui no organograma da faculdade que tem uma matéria de interação clínico-psiquiátrica como é que vai ser?” Ele falou, “olha só, está no organograma só não temos quem dê a aula só se você quiser dar”.
Eu falei, tá bom. Aí eu pegava os pedidos de pareceres que tinham na psiquiatria ia ver os pacientes no prédio do hospital e às sextas-feiras eu dava aula para a nossa turma com um caso clínico do hospital. Quer dizer, para você ver o lado pesquisador meu predominou a vida inteira.
Quando chegou no ano seguinte eu não conseguindo vaga de residência na faculdade fiz prova para a DINSAN que era no Engenho de Dentro, Pinel, e Colônia, e tinha uma opção de residência médica e aí eu fui cair na enfermaria do Paulo Pavão que eu conhecia desde o início do Pinel em 71 quando a gente revisava os casos da emergência em que os pacientes que não tinham condições de alta e nós fazíamos um planejamento e no início da tarde a gente levava de ambulância para o Engenho de Dentro e eles eram absorvidos se não estivessem aptos ainda para voltar para a rua. Desde então começou a amizade com o Paulo Pavão porque era ele quem revisava esses casos. Quando começa o ano 75 eu passo para o Engenho de Dentro e ele passa a ser meu chefe imediato. Foi também uma formação muito intensa, só que quando chegou no meio do ano por necessidade de dinheiro, eu comecei a procurar outro emprego. Eu não poderia viver só do que a gente ganhava de residência, Em agosto ou setembro travou minha residência porque eu não podia ter um vínculo empregatício na época. Então fui trabalhar na Eiras em Paracambi.
Como é que eu fui trabalhar na Eiras em Paracambi?
O tenente da polícia militar que tinha sido meu chefe no último ano da faculdade nos plantões que eu dava lá, me liga e pergunta/
“Você quer ir trabalhar comigo?” e aí lá fui eu para a Eiras em Paracambi dar plantão, e com isso ampliando a minha formação. A Eiras em Paracambi tinha dois mil pacientes internados e dois médicos para dar plantão. Mas isso está contra a legislação. A lei do INSS dizia que tinha que ter um médico para cada 500 pacientes internados mas nós éramos só dois para os dois mil pacientes. Isto aumentou muito a minha experiência, fiquei lá de 75 a 79 e me deu uma base profissional muito boa por causa do volume de atendimento. Na sequência eu ampliei isso, eu fui trabalhar numa clínica em Ramos indicado pelo meu chefe do Pinel e depois fui trabalhar com esse meu chefe no Pinel em Campo Grande até 85 quando fiquei viúvo e optei de pedir demissão para trabalhar mais perto de casa no consultório do Meier para dar um suporte aos meus filhos
LUIZ LIMA
você tem quantos filhos?
AMAURY
Eu tenho um casal. A minha mulher deu à luz minha segunda filha e depois entrou em coma. Faleceu seis meses depois do parto, então trabalhar em Campo Grande a uma hora e meia de casa se tornou algo muito difícil pela necessidade de dar um suporte aos filhos mesmo tendo uma empregada que nos ajudava e era uma tarefa de um só eu sempre tive um conceito de que namorada é para me beijar na boca, não é para trocar a fralda de filho, então a minha realidade prioritária passou a ser cuidar dos filhos e não tive dificuldade de tomar essa decisão. Mudou mais ainda o meu trabalho, parei de procurar empregos de horário integral e coincidentemente em 78 eu fui levado para a perícia do Estado pelo pai do Antônio José (da nossa turma da faculdade. O pai do Antônio José era chefe da perícia do IPERJ e falando com o filho, ele me indicou – eu sou um cara grato pela vida quando eu falo o nome dessas pessoas é porque eu nunca tive um apadrinhado mas eu tive as pessoas certas me estendendo a mão – então hoje eu faço isso, eu agradeço a vida que eu consegui ter por causa dessa evolução que me trouxe até o que eu sou hoje. Então, o pai do Antônio José me leva para o Estado e eu já tinha um currículo muito grande. Hoje o meu currículo tem 10 folhas, eu tenho 5 pós-graduações. Ele coloca o meu currículo mais para justificar me contratar e ao final de um ano eu já era efetivo e tinha em 76 feito prova para o Ministério da Saúde e naquela época o concurso não caducou em 2 anos foi caducar em 4 anos então em maio de 80 fui chamado também para lá.
LUIZ LIMA
Não foi do Ministério da Saúde foi o concurso do INPS.
AMAURY
Na época era o INPS e aí eu fui trabalhar e o que acontece? Tem um detalhe aí. Eu já trabalhava no Estado desde 78 e eu tinha que fazer exame admicional, na perícia do INPS, que era na frente da Santa Casa no órgão onde trabalhava esse médico e quando ele me vê, diz assim:
– “Mas você não trabalha na perícia do Estado?
– Trabalho.
– Você não quer ficar aqui?
– Não sabia que tinha a opção de ficar aqui.
– Eu fui lotado em Ramos.
– Não, você fica aqui na perícia com a gente.
Então eu que já trabalhava em um órgão de perícia, passo pro INPS pro órgão de perícia ali nesse setor na Marechal Câmara né?
Quer dizer, sem querer abriu-se uma outra porta profissional pra mim, os dois empregos meus eram na perícia e aí eu comecei a estudar mais perícia. Já tinha feito medicina do trabalho em 80, faço administração hospitalar na PUC e começo a me preparar pra fazer o mestrado. Até então esse preparo não tinha intenção de usar perícia pra vida toda era muito mais pela coincidência. A perícia do meu trabalho estava exigindo maior conhecimento. Só que em seguida a coisa foi progredindo, eu sigo por aí e quando em 85 a mãe dos meus filhos morre eu tinha terminado o mestrado, iria defender tese e já tinha um planejamento de morar na Inglaterra e fazer doutorado em Cambridge. Até o pessoal do Fundão estava participando desses acordos pra eu ir pra lá só que com a morte dela quem é que ia ajudar a cuidar dos meus filhos?
Então eu cancelei tudo e decidi: – a prioridade são meus filhos porque não foram gravidezes ocasionais. Nós planejamos cada gravidez e meus dois filhos são de novembro e tem 3 anos de diferença.
LUIZ LIMA
Não é à toa que você é o número 1 até hoje
AMAURY
Ah. eu esqueci de falar sobre o número 1.
Deixa eu acabar esse detalhe e eu volto pro número 1
O que que acontece? Aquilo me frustra porque eu tinha investido na minha carreira de pesquisador, eu tinha terminado o mestrado em farmacologia e ia fazer doutorado em Cambridge, já tinha iniciado um estudo de pesquisa que foi a minha tese mestrado em estimulação cerebral pelo Guaraná. Todo mundo usa o Guaraná como afrodisíaco e a gente investigou que ele interferia com outros receptores e precisávamos ter essa lucidez então aquilo me fez pensar:
“Eu preciso continuar pesquisando já que abriu essa porta vamos em frente. A morte da minha mulher fecha essa porta então o que que acontece quando em 85 ela morre? Eu continuo estudando e trabalhando mas em 88, 89 me convidam pra um congresso de perícia em Belo Horizonte e eu vou. Quando chego lá, estava se formando uma associação de perícia médica porque não existia especialidade de perícia e era uma luta pra criar uma especialidade de perícia. A associação médica brasileira dizia que perícia era subespecialidade da clínica médica e nós brigávamos que não era isso, perícia não clinicava e não prescrevia, julgava, e aí a gente entrou numa batalha que começou em 88, 89 quando chega em 99 eu me torno presidente da sociedade de perícia médica e em 2013 nós conseguimos que a AMB, o Conselho de Medicina e uma outra entidade médica endossasse e criamos a especialidade médico perito, não, médico legista perito médico. Eu fui um dos primeiros com essa titulação quer dizer, então é uma das minhas vaidades porque no meu coração quando isso apareceu na minha vida em 89 eu disse assim, eu preciso de algo grande que substitua o que eu perdi pra trás, porque eu desisti de ser pesquisador porque eu não tinha como ir adiante naquele caminho porque eu tinha dois filhos no meu colo então aquilo era o que me deu uma nova fonte de gratificação. Eu vou criar algo novo e vou deixar isso como um legado pro meu trabalho. Quando isso se confirmou e eu fui um dos primeiros a titular, aí já cumpriu-se a minha vaidade. Eu disse: “Cara, eu cheguei aonde o meu coração pedia”.
Voltando pro número um pra deixar mais leve a coisa, passei no vestibular, e a família da minha mãe tinha uma fazenda entre Penedo e Mauá em Resende, e nós sempre passávamos as férias lá. Meu pai acelerando tudo pra gente ir viajar e então nós fomos rapidinho na faculdade no primeiro dia de matrícula e eu fui o “mil e um”. Aconteceu quando o ano correu que as práticas eram em grupo com os alunos próximos então quando chegou no final do ano todos nós combinamos manter a mesma sequência pra podermos continuar fazendo as práticas juntos e aí eu fiquei dois mil e um, três mil e um quatro mil e um, cinco mil e um e seis mil e um
LUIZ LIMA
Virou o número um
AMAURY
Tornou-se uma rotina por causa de uma coisa casual, pela pressa do meu pai de ir pra fazenda e os primos da mamãe que são os donos da fazenda, como a família era muito numerosa, quando eu ia alguém tinha que ir embora porque eram só quatro casarões. Eles fizeram o seguinte, no platô onde tinha esses casarões criaram lotes de quatro mil a cinco mil metros quadrados para que todo mundo tivesse um espaço lá e hoje é um condomínio com quase cinquenta casas, só da família. No meio tem um clube que é um galpão onde a gente joga vôlei e faz as festas, uma piscina de água corrente do rio, um campo de futebol, sauna, ducha e um pedaço de floresta virgem que é o patrimônio do clube e é onde a família se reúne na maior parte das datas livres
LUIZ LIMA
Deve ser uma grande reunião
AMAURY
Quando chega o natal tem uma média de duzentas pessoas lá. Você leva uma panela de arroz, eu levo dois frangos, outro leva uma cesta de frutas e a gente faz uma ceia pra duzentas pessoas, ninguém precisa ser dono é o prazer da família estar junto isso é muito bonito. Quando os meus filhos começaram a tomar consciência e a gente passou a levá-los mais eu fiz um acordo com eles quando não souber o nome chama de primo, é que todo mundo lá é primo do primo do primo assim ficou mais fácil achar as pessoas
Eu esqueci de um detalhe lá de trás, quando eu estava na faculdade dentro de uma dificuldade normal de todos nós adolescentes a grana era curta e quando a mesada dava eu comprava lá um livro no livreiro
E procurava comprar o original. O livreiro me disse: “Por que o senhor não compra o livro traduzido?”
– Porque a tradução é ruim.
Ele ficou me olhando e falou:
– É mesmo? O senhor já pensou em ser tradutor?
Ele me levou na Editora Guarabara-Koogan, isso era 1971
LUIZ LIMA
Era o Moisés livreiro.
AMAURY
Isso mesmo. Faço um teste, ele me diz: ”Seu inglês é bom, mas seu vocabulário médico não. Volte o ano que vem”.
No ano seguinte, início de 1972, vou lá e passo no teste. Minha primeira tradução foi em maio de 1972, um capítulo do livro de bioquímica. Eu traduzi por 30 anos para Guarabara-Koogan.
Traduzi sete edições do Harrison, umas quatro edições do Goodman. Eles davam meia dúzia de capítulos, você traduzia, voltava e pegava mais, para não deixar tudo na tua mão e você acumular texto. Traduzi muita coisa, cardiologia, ginecologia, cirurgia, aquilo me deixava empolgado, porque eu me mantive um aluno razoável de clínica geral só traduzindo e me atualizando antes que o livro saísse. A maioria das pessoas que traduzem, quando se formam vão abandonando. Eles começaram a fazer o seguinte, primeiro passaram a colocar o meu nome na listagem de tradutores do livro então naqueles anos que eu traduzia o meu nome aparecia no livro e depois eles me davam um exemplar do livro então eu tenho uma biblioteca hoje bem rica e essa biblioteca é a minha vaidade porque quando eu era estudante eu tinha poucos livros, estudava metade do tempo na biblioteca da faculdade porque não dava para comprar, e quando o meu filho foi fazer medicina, a vaidade dele era abrir os meus livros na faculdade e o meu nome estava escrito nele
Meu filho formou em 2007 e ele é endócrino. Ele se formou no fundão e fez mestrado lá também. Casou-se com uma caloura dele também médica endocrinologista
Minhas pós-graduações. Eu fiz primeiro Medicina do Trabalho em 1975 na Gama Filho e levei aquela monografia da pesquisa de Parintins; depois me interessei pelo mestrado e tive que parar por conta da viuvez; fiz administração hospitalar na PUC tirei o título de psiquiatra em 79 com 5 anos de formado e o título de perito em 2013, quer dizer, a ideia sempre foi criar base para aquilo que eu sabia fazer. Quando fizemos 30 anos de formados eu fui à reunião naquele ano da turma e eu tinha tido meu segundo infarto. Eu tive o primeiro infarto aos 26 anos em 1977. A família do meu pai é cardíaca, mas eu não tenho sintomas e estava de plantão na Eiras em Paracambi e o colega de plantão disse que eu estava inquieto demais. Havia um clínico no plantão ele me examinou começou a me medicar. Nós revezávamos o carro a cada semana então era a vez do meu carro e ele o trouxe de volta no final do planbtão. Eu trabalhava numa clínica em Ramos que o dono era cardiologista, então ele já me deixou em Ramos e o cardiologista já começou a me tratar. Começou por aí a bagunça. Aos 40 anos em 91 pegando meus filhos na terapia eu fiz uma hemiparesia por uma isquemia cerebral, no meio da rua. Eu tinha que trazer os filhos pra casa, meu filho tinha 9 anos e minha filha tinha 6, então eu engatei a segunda marcha e vim de Copacabana ao Grajaú em segunda porque não tinha perna esquerda para mudar a marcha. Mandei a babá levar as crianças para a escola e chamei o meu amigo que é clínico e ele veio aqui em casa começou a me tratar. Levei um mês para recuperar os movimentos, quer dizer, eu sou aventureiro até para cuidar de mim
Em 2004 quando eu infarto da segunda vez, vou para o consultório trabalhar e prostrado, era uma segunda-feira, eu falei: ”Cara, eu estou quebrado é como se eu tivesse vindo de uma farra sem dormir. Aí me liga o meu cardiologista e pelo tom da minha voz: “Você não está legal” – Não, eu estou arrasado aqui eu não sei nem como eu consegui chegar no consultório.
– Vem aqui no meu o consultório – que também era no Meier. Chego lá e no dia seguinte eu estava fazendo cateterismo. Eu não tenho dor, eu nunca tive dor de dente, não tenho dor de barriga, não tenho dor de nada então eu não sinto dor e não tenho a sintomatologia padrão do infarto então o que acontece meus dois infartos foram parte da brincadeira e aí a vida obriga você a se cuidar, principalmente por conta da viúvez eu disse para mim, meus filhos não tem a opção de eu morrer. A mãe deles que não tinha nada morreu, eu tenho que ficar por aqui, então, sou o cara mais obediente que você vai ver porque tinha que continuar vivo para não deixar meus filhos desamparados e aí nessa reunião nossa de 2004 o Oswaldo me convida para ir para a faculdade, o Plínio, o Volpato também, Eu falei: ”Cara, era o meu sonho, eu não pude ficar na faculdade 30 anos antes porque eu não consegui vaga para a residência. Vou na faculdade e encontro o Paulo Pavão que na época já era o diretor da psiquiatria. Chego para ele, bom, eu sou árabe de coração, porque meu avô era árabe então os árabes beijam os amigos, eu dou um beijo no Paulo Pavão e o pessoal fica encarnando que o Paulo Pavão é baixinho e eu dou um beijo na testa dele, Aí eu chego lá, e aí amigo, como está tudo mais eu preciso da sua ajuda ele falou, o que é que você quer? Eu falei, eu quero que você me contrate. Vou na sala dele, converso com ele e explico isso. Ele vai na reitoria abre um processo me solicitando, mas como eu sou federal o processo não é resolvido aqui vai para Brasília. Brasília aceita e eu sou transferido para Marechal Rondon e a Marechal Rondon me cede para a UERJ porque eles têm um acordo de interação
LUIZ LIMA
Agora a Marechal Rondon é outra UERJ
AMAURY
Mais uma vez sou agradecido porque o apoio dos meus colegas de turma mais o apoio do Paulo Pavão resgataram aquele sonho antigo de 30 anos, de voltar para a faculdade e eu estou lá com o Oswaldo até hoje. O que eu não consegui lá atrás estava guardado e eu peguei 20 anos atras é isso mesmo.
Não sei se eu falei tudo, como se fosse mais ou menos um roteiro
A minha visão de vida é de muita gratidão por todas essas ajudas de pessoas muito significativas para mim e porque Deus me deixou estar aqui né, quer dizer seria muito triste para mim não ter continuado a cuidar dos meus filhos porque eu tive que cuidar dele sozinho e hoje eles me dão retorno. São filhos maravilhosos eu tenho um casal de netos do meu filho e tenho uma neta da minha filha e toda oportunidade que eu posso eu estou perto deles porque eles me dão esse retorno da luta que foi caminhar até agora.
Estou numa ansiedade porque estou dependendo da Marechal Rondon e do Ministério da Saúde para me aposentar e a documentação está enrolada. Eu fiquei esperando completar 35 anos de estatutário em dezembro para poder dar entrada e ter direito de estatutário.
Eles estão fazendo mas essa dificuldade ainda não se destrinchou, está em vias de resolver, aí eu saio da faculdade, e já estou aposentado no consultório desde 2016 e continuo agindo lá mas num ritmo atualmente bem mais leve porque a gente vai chegando a um ponto que entende que não vai ultrapassar o seu limite, a saúde não permite ir mais longe ou ir ao esgotamento mas eu gosto do que faço e como disse ainda há pouco o que eu faço hoje é agradecer porque cheguei até aqui e a turma lá de cima deixou.
LUIZ LIMA
A ideia de seu depoimento é justamente contar essa parte, a vida profissional, o que é exercer a medicina. Quantos pacientes você ajudou na vida é quase intangível. Os depoimentos tomados estão demonstrando isso, nós não temos ideia do trabalho conjunto, quer dizer, você não estava trabalhando isoladamente, você fazia parte de uma engrenagem que atende a população inteira. Juntando a história de todos, você fazia parte dessa engrenagem que tratou da maioria da população até hoje, e isso ninguém percebe de imediato, quando você l
ê esses depoimentos. Trabalhava-se atendendo um monte de gente junto com outros colegas que atendiam outras coisas mas se você somar tudo isso dá a população inteira da cidade. Nós somos atualmente 9 mil médicos segundo o censo do conselho federal que detêm a história desses 50 anos, são testemunhas vivas. É nesse sentido que esses depoimentos estão sendo interessantes e importantes porque está mostrando essa almálgama, vamos dizer assim, da profissão, embora não seja aparente na hora da fala.
Por trás de tudo há uma profissão dentro de um parâmetro ideológico específico, ético, técnico numa série de conceitos não totalmente explicitados mas presentes, ou seja não tem ninguém julgando ninguém mas você sabe que eu estou fazendo um bom trabalho, fulano está fazendo um bom trabalho é esse bom trabalho conjunto que mantém a população saudável e isso é interessantíssimo.
A ideia não é tomar o depoimento do pessoal de todas as turmas
AMAURY
Eu lembrei aqui um detalhe. No período que eu que eu fui fazer mestrado a farmacologia foi inundando a minha cabeça então em 92 a Pfizer me chama e eu participo da pesquisa de lançamento da sertralina no Brasil. Eu selecionava os pacientes e pesquisava a adequação da sertralina para eles. Três ou quatro anos depois participei de uma pesquisa idêntica da Mirtazapina, que é outro antidepressivo, quer dizer, confirmando o meu raciocínio, de que eu não sou só médico eu sou um pesquisador um cientista e me dá prazer porque aí ao que você falou você se acrescenta esse detalhe de tantos que cada um de nós atendeu e aí tem os que eu, ao estudar medicamentos novos, ampliei esse horizonte de pacientes que passaram a usar a medicação que eu ajudei a lançar.
LUIZ LIMA
Isso não é trivial, mas importantíssimo porque não se percebe isso de imediato, mas está no tecido socia. As pessoas de certa forma sofrem a influência desses ensinamentos, dessas novidades, mas você na verdade não pensa em quantas pessoas estão envolvidas nisso e as vezes são pessoas que estão trabalhando do teu lado que estão te ajudando a fazer isso não são só os médicos são os enfermeiros, são os auxiliares é o pessoal que compõe esse conjunto que é o conjunto que vai atender a população. A deia básica é essa, você contar essa história e não são histórias espetaculares, são histórias comuns mas a história com H maiúsculo é feita de histórias comuns. Você estuda os grandes imperadores do Império Romano falando, citando a história comum, do centurião, do cara que que vendia verdura na porta do fórum, Essas histórias não aparecem mas é o que sustentava tudo, é a história desses caras, do cotidiano. É isso que estamos atrás
Assim que eu fizer a transcrição dessa nossa conversa eu mando para você você Faça a revisão, tira aquilo que você achar que não quer, e se quiser acrescenta mais coisas que lembrar e publicamos.
AMAURY
Obrigado foi muito bom estar conversando contigo
LUIZ LIMA
Foi ótimo.
AMAURY
E deu um pouco para alinhar o raciocínio porque a gente nem tem tanta lembrança de detalhes e aí na hora que começamos a falar vai saindo. A minha referência do Enéas me veio a cabeça como uma coisa muito interessante
Eu fico aguardando, vamos trocar ideias, gostei bastante de conversar
LUIZ LIMA
Também, a