Você gostaria de falar conosco?

Dalva Barreto

LUIZ LIMA

O que levou você a ser medica?

DALVA BARRETO
Isso para mim foi uma coisa assim de infâncial. Eu tinha uma prima pediatra, a irmã dela GO e o marido da irmã era um clínico. Então, essa pediatra, eu tinha uns seis anos, deixava eu mexer nos estetoscópios dela, arrumar remédio no armário , e eu fiquei apaixonada pela função dela.
E com seis anos eu decidi ser médica. Eu nunca troquei de profissão, desde seis anos.
No ginásio, eu fui para escola normal, Carmela Dutra.
Meu pai exigiu que eu terminasse a escola normal.
Mas lá, não tinha física, não tinha química, não tinha matemática, eu não conhecia nada. O normal é um curso completamente idiota,
No terceiro ano, eu fui para o cursinho. Fiquei o primeiro semestre no Miguel Couto.
Aí eu falei, bom, uma maneira de eu fixar essa droga, é eu pular para o intensivo do ADN. Era até no meu prédio. Aí eu fui fazer o ADN.
Eu estudava com uma amiga e ela não passou na Nacional de Medicina e eu passei. Então fizemos Ciências Médicas. Ela não passou e eu passei.
Aí a Sílvia Miranda que virou pediatra da turma de 73 precisava de duas vagas para entrar na Ciências Médicas, conversou comigo:
“Dalva, vai para a Nacional, me dá essa vaga”.
Mas não fui, porque teve cinco vagas de desistência na Ciências Médicas para a Nacional. Fiquei na Ciências Médicas e em paz com a Sílvia.
Entrei para a Ciências Médicas em 1968, a turma que se formou em 1973.
Em1968 eu só fazia política, não fazia medicina nenhuma.
Fui reprovada direto na Histologia e passei para a turma de 1969 que se formou em 1974.
Eu tenho ligação com as duas turmas.

LUIZ LIMA
Você é um elo de ligação entre as turmas. Foi o ”Basófilo” que te reprovou?

 

DALVA BARRETO
Diziam que o Basófilo era dedo duro.

LUIZ LIMA
Diziam, não. Ele era dedo duro. Eu ouvi isso de um amigo do meu pai, Coronel Araújo da Aeronáutica, que fez na época um IPM sobre a FCM,
Um dia, almoçando com meu pai na Base Aérea, O Cel. Araújo sentou-se à mesa. Eu estava acompanhado pelo nosso colega Mourad nesse dia, tínhamos ido lá para pegar um material didático.
O Coronel falou:
“Ah, vocês são da Ciência Médicas?”
E começou a falar do inquérito que ele tinha presidido e disse quem era quem. Quando ele chegou no “ Basófilo”, disse:
“Então, esse daí, entrava na minha sala já com uma lista de nomes, de comunistas que tinham que ser presos.”

DALVA BARRETO
Mas você tem testemunha.
LUIZ LIMA
O Coronel Araújo já morreu, meu pai já morreu também, só tenho eu e o Mourad de testemunhas. E tem mais.
Havia, na histologia, um aluno que era monitor o Norberto Manes Leitão. O irmão dele era um juiz do Tribunal Militar e foi quem mandou a polícia em 1968 para a porta do HUPE para reprimir uma manifestação de rua dos estudantes. Os caras acabaram matando um aluno de medicina o Luiz Paulo.
Mas isso foi abafado. Agora, quem fazia par com o promotor Manes Leitão., era o “Basófilo”. O Coronel revelou que o Basófilo fez um dossiê contra o Dr. Piquet Carneiro então diretor da Faculdade de Ciências Medicas da então UEG, hoje UERJ, e entregou-o lá no inquérito, dizendo que o Dr. Piquet era um comunista perigoso, essas coisas todas. Então aquilo ali era um ninho de gente desse tipo.
Tinha outros. Ele não falou todos, eu também não perguntei. Então, por exemplo, num daqueles dois bares que tinha em frente ao HUPE, não o” Botafogo”, o dono era informante da polícia.

DALVA BARRETO
Mas a gente não frequentava o outro bar.

LUIZ LIMA
Pois é, não sei até hoje porquê. Provavelmente alguém descobriu isso. Porque o cara era informante da polícia.
Você podia não saber, mas possivelmente muita gente tentou te prejudicar porque você fazia política na faculdade.
Mas diga lá, você, portanto, foi reprovada, mudou de turma, e aí?

DALVA BARRETO
Bom, e aí eu segui o caminho normal, né?
Chegou no internato. Eu gostava muito de Clínica Médica. Era o que eu queria ser na vida.
Mas eu tinha um problema. Eu pensava, cacete, eu vou me dedicar a essas pessoas e elas não vão ter dinheiro para comprar remédio. Então, não vai mudar nada.
Fiz o internato., mas a residência eu fui para anestesia. Por quê?
Porque anestesia é igual a medicina inteira. Então, para quem gostava de clínica, anestesia era uma boa.
Eu fiz a Residência em Anestesiologia no HUPE.
Se fosse hoje eu iria para clínica da dor.
Mas em 1975, eu estava na anestesia. Aí, eu fiz bem a anestesia, eu gostava. Na nossa turma tinha um bocado de gente na anestesia.
Quando terminei a residência na anestesia, eu tive uma infecção urinária grave. E fiquei uma semana mais ou menos sem aparecer lá.
Eu estava doente. O Portela, que era o chefe da anestesia, ele era um bom filho da puta e chateava a gente. não me deixou acabar em dezembro
Ele me fez pagar em janeiro os dias que eu tinha faltado. Aí, cara, eu me lasquei nessa para obter o meu diploma. Meu CRM é o mais alto da turma porque eu só tirei CRM em maio. Meu CRM é 52.21742-4.
Mas a residência eu comecei em janeiro, normal, né. E gostava da anestesia.
Meu primeiro emprego foi no Hospital de Ipanema, imediatamente após o final da Residência.
O Hospital de Ipanema estava com uma carência de anestesistas. Eu não fiquei um dia de férias e já, comecei a trabalhar
Eu fui para o hospital de Ipanema e descobri que o Hospital de Ipanema era uma zona de afilhados. Tinha colega nosso lotado na anestesia no Hospital de Ipanema que eu nunca vi
Eu pedi pra sair. O diretor me chamou, e quis saber por que eu queria sair.
Falei que era motivo particular, eu agora morava muito longe dali
Um colega nosso, afilhadinho, tinha 20 horas em Ipanema e 20 horas no Cardoso Fontes. propôs na frente do diretor fazer uma troca com ele.
Na frente do diretor, eu falei: “ garoto, você não faz nem 5 horas no teu contrato de 20 horas, você quer fazer mais 20 horas pra ter 40? Na minha vaga, não.
Eu vou. Eu já consegui a transferência.
E ele não foi. Só iria por troca. Fui pro Cardoso Fontes, e já morando na Barra.
Trabalhei um período curto na Anestesia do Cardoso Fontes, mas não me adaptei e pedi para ir pra Emergência.
Fu para a emergência do Cardoso.
Dirigi o núcleo de Pacientes Externos do Cardoso Fontes durante um período..
Pacientes Externos englobava todos os Ambulatórios e a Emergência, dois setores distintos.
Fiquei anos na emergência, quando começaram a saúde do trabalhador.
E eu fui lá pra Fiocruz, fazer saúde do trabalhador e fiquei na saúde do trabalhador do Cardoso.
O Cardoso Fontes nunca tinha tido um diretor indicado e nomeado por infliência de alguma autoridade. Sempre foi diretor escolhido pelo pessoal do próprio Cardoso Fontes. O trabalhador, o médico, todo mundo. A gente indicou o Arnaldo, que era psiquiatra da turma de 72.
Nós estávamos com o Arnaldo engatilhado pra ganhar.
Aí, uma “traíra” foi armar lá com o irmão do Itamar pra botar um amiguinho dela, uma banana, uma porcaria. Nessa época, eu chefiava pacientes externos.
O ambulatório de emergência era por minha conta, né? Eu já ‘tava há muitos anos. E eu gostava muito da emergência.
Aí, esse diretor bobo, queria que eu continuasse na emergência, porque eu tinha 20 horas só de contrato, mas eu trabalhava pra cacete. Às vezes, ia uma hora da manhã lá na emergência
E foi um período bom, muito bom. Tinha o colega Luzer

LUIZ LIMA
Luzer largou a medicina e virou violinista.

DALVA BARRETO
Não largou a medicina, não. Ele tinha a medicina como complemento de renda Tinha uns colegas ótimos no Cardoso, a gente conseguiu fazer o prédio do ambulatório, foi uma vitória muito grande. O Cardoso Fontes é um hospital pequeno, e com um pessoal muito bom, mas, não tinha emergência nem gineco, nem ortopedia, quer dizer, era uma emergência qualquer, né?
Mas aí quando chegou 1996 ou 7, estavam inaugurando o Lourenço da Barra. Faltavam seis meses para eu fazer 30 anos de serviço.
Eu pedi para ir para a clínica médica do Lourenço,
Fui para o Lourenço Jorge e trabalhei um ano na clínica médica. Era 40 horas.
Tinha 24 horas de emergência e 16 de clínica. Trabalhei tal. Aí, uma cooperativa precisava de um gerente na área de Santa Cruz, que abrangia os postos de saúde.
Aí eu fui ser gerente. Dava um trabalho do caramba. Fiquei quase dois anos nessa gerência.
Me desentendi lá porque tinha muita sacanagem na cooperativa. Cooperativa de Saúde, era o nome. Tinha muita sacanagem.
Resolvi cair fora. Trabalhei uns tempos. num hospitalzinho na Freguesia. Mas tinha um problema. O dono não pagava. O filho da mãe não pagava ninguém.
Eu tinha um colega que estava implantando o CTI. Era o único que era pago.
Só ele se recebia.
Quando deu dois mil e quatro, i dois mil e cinco. Falei, quer saber? Eu vou entrar na justiça contra esses filhos da puta.
Entrei demorou e tal, mas ganhei uma grana boa legal, na justiça.
Parei de trabalhar. Foi em 2005.
Eu aposentei geral. Só fiquei com uns contrabandos. Ttinha uma família aqui perto e das quatro pessoas da família, três eram doidos de dar dó. Eu cuidava deles. Isso eu continuei cuidando.
A minha família, que é esquisita pra caramba, meus sobrinhos, e meus irmãos também, vão ao médico, pagam a consulta e ligam para mim querendi saber se o cara tá certo.

LUIZ LIMA
Não, não é só a tua família não. Quase todo mundo faz isso.
DALVA BARRETO
A gente não nasce médico, mas morre médico.

LUIZ LIMA
Exatamente. A medicina é uma coisa permanente.

DALVA BARRETO
É uma coisa eterna. Eu gosto muito da medicina.
Tem um cara de Mato Grosso do Sul com um programa no Instagram e no YouTube: Médico na Prática.
Ele é didático pra caramba. Ele fala as coisas com facilidade. Eu o sigo p’ra não me desvincular, é uma mudança muito grande, e as mudanças são muito rápidas.

LUIZ LIMA
Pois é. As mudanças são rápidas, mas elas são mais fáceis de serem absorvidas por quem já está na profissão. Claro que vai depender da experiência também. Na nossa época, não tinha esses métodos todos, ressonância magnética, PCR, coisas que hoje em dia são corriqueiras.

DALVA BARRETO
Eu não sei ver uma ressonância
Não tive essa parte.

LUIZ LIMA
Ninguém da nossa época teve.

DALVA BARRETO
A parte da farmacologia, eu consigo acompanhar seguindo o “Médicina na prática”.

LUIZ LIMA
Então, isso que você está falando, as pessoas que estão dando depoimento estão dizendo exatamente a mesma coisa da adaptação aos novos tempos e tudo. Mas, vamos dizer assim, não tem ninguém falando mal da medicina. Eu não ouvi nenhum depoimento desse. O que eu vejo, são pessoas que estão muito bem adaptadas, estão muito bem consigo mesmas diante da escolha que fizeram.

DALVA BARRETO
A nossa turma é feliz fazendo a medicina?

LUIZ LIMA
Só a nossa, não. Quase todas, Mas, em particular, esse pessoal da Ciências Médicas, da Fluminense e da Nacional, tem uma visão um pouco diferente do pessoal das outras.
A Gama Filho, ou Sousa Marques, são um pouquinho mais mercantilistas do que as nossas. Você encontra um certo élan de ter sido da Nacional, da UERJ ou das públicas.
Eu estou com dificuldade de encontrar o pessoal da Gama Filho, porque eles se formaram e a Gama Filho acabou. Mas os médicos estão até hoje atendendo.
Hoje são 17 escolas de medicina aqui no estado do Rio.
Mas mesmo assim, ainda somos poucos. Para você ter uma ideia, médicos septuagenários aqui no Rio de Janeiro são 9 mil. E com mais de 60 anos de idade são 20 mil.
É muito pouco comparado com a população.
É uma turma relativamente pequena. Os médicos ainda são poucos se você comparar com outras profissões. É um curso muito exigente. Você tem que definir logo de cara se você vai querer fazer aquilo ou não. Você tem que se dedicar se quiser fazer uma boa medicina. E depois quando entra em contato com os pacientes, aquilo vai te consumindo mais ainda. Porque vai sendo demandado o tempo todo. Não tem como fugir disso.
A tua trajetória não foi curta, não. Você terminou no Lourenço Jorge.
Porque cada lugar desse você ficou 3, 4, 5, 6 anos. Ficou 30 anos fazendo medicina.
Não é pouco, é muita coisa.

DALVA BARRETO
Eu trabalhei mais de 30. Porque com 30, eu saí do Cardoso para o Lourenço.

LUIZ LIMA
Você já cumpriu a tua missão. Porque todo o pessoal que você atendeu ainda está por aí. Você fez a anestesia neles, você as tratou. E essas pessoas lembram. Você pode não lembrar, mas a pessoa lembra.
A pessoa sabe quem foi que a atendeu.

DALVA BARRETO
Onde eu moro, encontro na rua, falam comigo, eu não sei quem é.

LUIZ LIMA

É essa sua história. Então, o que que nós vamos fazer?
Se você lembrar de outras coisas que ache interessante assinalar você escreve e me manda, ou me liga para complementarmos

DALVA BARRETO
Mas, Felipe, sabe o que? A gente acha a nossa história desimportante.

LUIZ LIMA
Mas isso é um engano, eu também achava isso, só que na hora que você começa a conversar com as pessoas, você vê que não tem história simples, porque atuamos numa área que não é simples, e é importantíssima para as pessoas, são únicas e fazem parte da história de vida delas.
Por exemplo, o Cleber trabalhou, naquele acidente radioativo lá em Goiânia
Porque ele era médico de Furnas, e foi o pessoal de Furnas que foi lá para atender. Então, isso é uma coisa única, você atender pessoas que participaram de um evento que é um evento histórico, porque foi o maior acidente nuclear do mundo.

DALVA BARRETO
Histórico realmente.

LUIZ LIMA
O dia-a-dia pode parecer comum. Você levanta todo dia, e vai p’ra lá e p’ra cá. Mas acontece que entre você fazer essas coisas do cotidiano e você ser um profissional, existe uma outra coisa importantíssima.
Você está estudando. Você está adquirindo conhecimento. Pois é.
Isso não é aparente, não. Mas se você pensar bem, é uma profissão que obriga você a estudar. E não é porque você é estudioso, você precisa.
Você precisa conhecer o que está fazendo. Então isso faz uma enorme diferença. O fato de você estar sempre procurando o conhecimento e o aplicando em pessoas. Então não é uma coisa trivial isso.
Eu atendi a esse fulano, atendi no pronto-socorro, fiz anestesia aqu e aii. Nada disso é trivial. Nada disso é por acaso.

DALVA BARRETO
O dia-a-dia do médico é, todo dia uma novidade.
Eu descobri agora que o garoto tinha 17, 16 anos que eu atendia na igreja. O pai e a mãe chegaram com o garoto que não abria nem a mão, não mexia a cabeça, porra nenhuma. Completamente parado. Eu comecei a brincar com ele, igual brinca com criança. Bateu palma pra cima, dá um passo pra trás, e mais o quê.
Daqui a pouco o garoto começou a me acompanhar. E eu fiquei umas 3 horas com esse garoto pra família se convencer de que ele não estava grave, que ele não estava paralítico, que ele estava numa crise psiquiátrica.

LUIZ LIMA
São esses relatos que são importantes. São essas as histórias interessantes

DALVA BARRETO
Eu ganhei muitos presentes, mas teve um presente que foi completamente inusitado. Um funcionário do Cardoso Fontes, que trabalhava comigo na saúde do trabalhador, e eu tratava dele, me apareceu com um papagaio. Ele me deu um papagaio de presente.
Se tivesse que escolher outra vez uma profissão, eu ia ser médica

LUIZ LIMA
Cada um tem o seu caminho.
Um beijo enorme pra você, Dalva. A gente vai se falando, você me manda o teu endereço pra eu poder mandar a transcrição. Ok?
Um beijo enorme pra você. E um bom fim de semana também. Um bom domingo.

DALVA BARRETO
Valeu.

 

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