Você gostaria de falar conosco?
LUIZ LIMA
O que levou você a fazer arquitetura e que a levou para a saúde pública?
LUÍSA R. PESSÔA
Eu comecei a trabalhar com 14 anos, em uma loja de doces, e quando eu saí do ginásio escolhi o científico.  Eu estudei 11 anos em Colégio de Freiras, meus pais queriam que eu fosse professora, e quando escolhi fazer científico fui para o Colégio Rio de Janeiro, que tinha um convênio com CEFET.
 Eu fazia, de manhã, o científico, e, de tarde, fazia o curso para ser técnica em eletrônica, porque eu queria trabalhar, ter uma profissão. Nos dois primeiros anos, eu me formei auxiliar técnica, e desisti de continuar, eram 45 alunos e só tinham oito mulheres. Eu não achei a atividade boa, e, aí, fiquei perdida do que fazer.
Eu gostava, e ainda gosto, de ficção científica, e soube então que um tal de Dr. Barnard inventou o marca-passo.
UIZ LIMA
O Barnard fez o primeiro transplante cardíaco da história, foi o Christian Barnard, que era da África do Sul.
LUÍSA R. PESSÔA
E, aí, eu falei: “Quero fazer marca-passo, eu quero fazer isso, eu quero usar a minha tecnologia nisso”, fiquei louca, né?
Como não sabia que vestibular eu queria fazer, e fazia os cursos do Vetor e Bahiense, no Vetor com bolsa para arquitetura ou  engenharia, e no Bahiense na turma da noite de repetentes para medicina, também com bolsa.
Eu não me interessava por engenharia, e, depois fui à Santa Casa para ver medicina, mas aquele cheiro de sangue, fiquei na dúvida, o que é que eu faço?
Moral da história, resolvi fazer arquitetura. Tudo o que existe no mundo, alguém construiu.
Então, se eu fizesse arquitetura, eu poderia chegar na medicina. Comecei a fazer arquitetura, mas com aquela cisma.
Um dia, eu estou lanchando na UFRJ, vi um papel na parede pedindo estagiário para um projeto de saúde no INPS. Era junho de 1977 e eu estava no terceiro ano do curso de arquitetura.
Eu fui, fique e me apaixonei por aquilo. Era tudo o que eu queria.
De alguma forma, eu cheguei no Marca – Passo.
Eu fiquei lá.  Tinha a regionalização também tinha coisa o FAS. – Fundo de Apoio Social.
No FAS, analisávamos os pedidos de crédito para saber se valia a pena investir naquilo.
e estabelecer qual a faixa de juros deveria ser pago.
Então, isto pautou toda a minha vida na saúde: diminuir o desperdício do gasto público. Trabalhei em vários projetos de investimento.
Comecei no FAS. Nós fazíamos aqueles mapinhas de regionalização, onde tinha lá os polos. Olhávamos se a cidade era polo ou não. Se seria interessante botar, por exemplo, um Raio X ali.   Tinha o Almir Fernandes chefiando, que era bárbaro, super fantástico para nós arquitetos. E tinha vocês, médicos, enfermeiros. Então, estava ali, acontecendo na minha vida. Eu, falei: “ nunca mais saio daqui”.
Nunca mais saí.  Quando me formei, em agosto de 79, logo casei com o Eric e fomos para Brasília.  Cheguei em Brasília em final de janeiro de 1980, para trabalhar num projeto contigo que não deu certo, porque alguém morreu. Fiquei sem trabalho.
Dei aula em curso técnico, de estudo dos solos e resistência dos materiais. Dava aulas e vendia roupa no ministério, mas parei porque fui muito criticada.
Depois, fui trabalhar para o Luiz Humberto. Lá na SNPES.
LUIZ LIMA
Secretaria Nacional de Programas Especiais de Saúde.   O secretário era o Franz Ruli Costa
LUÍSA R. PESSÔA
Comecei trabalhando com os hospitais, num projeto muito interessante. Éramos uma equipe multidisciplinar, médicos, enfermeiros, economistas, administradores, farmacêuticos e eu como arquiteta. Toda quinta feira de tarde o Luiz Humberto instituiu um momento de troca,   tínhamos um tempo para ler um livro e discutir, me lembro bem do Paul Singer, só não lembro qual livro nos lemos e discutimos.
 A formação tecnológica que eu tinha foi muito útil. Porque eu era uma arquiteta que olhava os equipamentos. Só não me formei técnica de eletrônica, porque não fiz um estágio na GE.
preferi a arquitetura. Esse conhecimento foi muito importante.  O hospital era uma parafernália de equipamentos.
Em 1981, teve um curso de arquitetura do sistema de saúde dado por um português, lá na UNB. Eu fiz o curso. e me especializei em arquitetura do sistema. Eu pensava: “Tem a regionalização, e a arquitetura.”
LUIZ LIMA
Você pegou o início do SUS. A partir de 76, a OMS, na Conferência de Alma- Ata, estabeleceu os critérios de assistência primária de saúde, e a partir dali começou essa coisa do sistema único. Você pegou de início.
LUÍSA R. PESSÔA
Peguei de início, com o olhar de urbanista, que o PLUS me deu, e com o olhar de arquiteta e de eletrônica. Então, assim, quando eu entrava no hospital, eu olhava tudo. Isso foi muito bom para mim.
Depois, fiquei lá em Brasília, fiquei até 82, 83. Eu me separei em meados de 82 e em 83, voltei para o Rio.
Em Brasília, meu trabalho era nos hospitais, mas, sempre em equipe. Sempre tinha um médico, uma enfermeira, um farmacêutico, um economista, um administrador e eu.                    Eu auxiliava o   Germano Gehrard da Tuberculose.  A tuberculose tinha cinco hospitais.
LUIZ LIMA
Só um parêntese. Nessa época, que você está falando do PLUS, vieram uns caras da PUC conversar conosco. Foi o Almir Fernandes que orientou.
Eram urbanista e. vieram, quando nós começávamos a discutir a ideia dos cuidados primários de saúde, do sistema único, pois não se tinha muita noção de como é que se planejava aquilo. A OPAS tinha um sistema, mas nós dizíamos: “Esse troço não é suficiente”.
Eles nos trouxeram todo um cabedal da geografia econômica, com as teorias de localização. Caiu como uma luva. Adotamos muitas ideias.
LUÍSA R. PESSÔA
O curso de arquitetura na UFRJ, era de cinco anos. Os dois primeiros eram em horário integral. Nós estudávamos cálculo estrutural, história da arquitetura,  planejamento urbano e regional. A UFRJ era muito boa
Em 96 nós fizemos um manual no IBAM. Manual para Elaboração de Edifícios de Saúde na Cidade do Rio de Janeiro.
LUIZ LIMA
Estou me lembrando disso. Era até o Antônio Ivo que estava lá.
LUÍSA R. PESSÔA
Isso, o Antônio Ivo me chamou, para elaborar um manual para localização. Eu colaborei na elaboração desse manual em 96, eu era quem tinha mais experiência.
Por volta de 1978, comecei a militar no CEBES e no IAB, Instituto de Arquitetos do Brasil. Acabou que o CEBES foi mais importante para mim.  Os arquitetos olhavam mais a arquitetura.
Eu falava: “Gente, é impossível num hospital olhar só a arquitetura. Tem que olhar a instalação, os equipamentos”
 Por exemplo, na tuberculose. Teve uma época que o tratamento da tuberculose demorava um ano quase. E o cara tinha que fazer o tratamento internado.
Aí mudou. Passou a ter um remédio que curava em seis meses e não precisava mais ficar internado. O que eu fazia com aquele espaço das internações?
Eu visitei antigos sanatórios. Em Minas Gerais não lembro mais o nome, no sanatório de tuberculose e de hanseníase faziam queijos.
Eu comecei trabalhando com os hospitais de tuberculose e com saúde mental. Trabalhei a vida inteira na tuberculose, com intervalos em outras áreas, mas sempre voltava,  até me aposentar.
Eu fiquei na SNPES. Eu era da DIPLAN.  Fizemos o planejamento da SNPES. Por exemplo: vamos informatizar os hospitais. Claro que o espaço físico da área de informação tinha que mudar. Ou então, vamos fazer um prontuário único.
LUIZ LIMA
Isso na época que não tinha microcomputador.
LUÍSA R. PESSÔA
Tinha que botar uma mesa grande no SAME [Serviço de Arquivo Médico e Estatística] pois pegavam os prontuários de tudo quanto era pessoa e juntavam tudo ali.
Meu pai trabalhava no Pinel e observou essas coisas do prontuário. Falou: “LUÍSA, se o cara vier aqui dez vezes, dez vezes eles vão abrir um papel pra ele. Não precisa ser assim. Se, por exemplo, eu tiver um parafuso S8, eu só tenho um lugar onde eu escrevo tudo do parafuso S8. Se eu tiver vários lugares, eu não controlo”.
Porque meu pai trabalhou com estoque. Aí uma das discussões de prontuário único no PINEL começou com meu pai na recepção fazendo essa triagem.
Eu volto pro Rio, e já estava, naquela época com o Propício Caldas na cogestão lá no ministério. Eu trabalhei na cogestão pros hospitais. Tínhamos reuniões pra ver a cogestão, controlar recursos, controlar tudo, eu fazia parte, mesmo sendo do ministério e estando ali naquele grupo de coordenação que trabalhava na Rua do Resende.
Era uma coordenação, onde ficavam várias pessoas. Se precisassem de mim, me pediam e eu era emprestada. Não estava mais em um hospital. Ficava em qualquer lugar que precisasse de mim. Teve um surto de uma coisa, acho que cólera,  todo mundo com diarreia lá em Maracanaú.
Eu fui pra lá ajudar. Eu trabalhava com manutenção, fazia projeto, coordenava a obra, fazia a obra e fazia manutenção, fazia tudo.
Para mim, até hoje, para trabalhar na saúde tem que ter essa visão ampla. Não dá para ser só arquiteto.
LUIZ LIMA
Só um parêntese aqui. Nesse negócio da cogestão, não havia um consenso em relação à Previdência e à Saúde. O pessoal da assistência médica, das contas médicas da Previdência não queria abrir mão de controlar aquilo e o Ministério da Saúde estava começando a avançar nessas coisas. Então, teve que criar esse grupo para ver se conciliava.
LUÍSA R. PESSÔA
Naquela época só tinha direito a assistência médica quem tivesse carteira assinada.
LUIZ LIMA
Era o beneficiário do INPS.
LUÍSA R. PESSÔA
O resto era chamado de indigente.
LUIZ LIMA
Tanto que essa era uma das plataformas do SUS, a universalização. Eu acompanhei muito bem isso do INPS.
LUÍSA R. PESSÔA
E mais, cada um daqueles hospitais era de uma coisa. Tinha um hospital que era dos marítimos.
LUIZ LIMA
Porque vieram  dos antigos IAPs. Por exemplo, ali onde hoje é o Hospital da Lagoa, era o Hospital dos Bancários.
LUÍSA R. PESSÔA
Quando o Nildo Aguiar que foi apresentar a transformação do INPS em INAMPS  fizemos  um organograma com imãs. Fui eu que fiz aquilo.
Eu trabalhei no Engenho de Dentro muito tempo. Trabalhei na Colônia Juliano Moreira muito tempo. No INCA que fui trabalhar mais tarde. Se bem que no INCA, eu estava conversando outro dia com o Temporão, há uns 20 anos atrás, começávamos a discutir os cuidados paliativos.
 O que eu fazia? Eu pegava o diretor, onde eu estivesse, no hospital que eu estivesse, eu falava: “Vamos passar o ano fazendo um projeto, discutindo o que a gente quer.”
Fazíamos um projeto, orçávamos e, mais ou menos em agosto, setembro, outubro, íamos lá no INAMPS e falávamos: “Temos esse projeto aqui prontinho para licitar. Se o INAMPS vai devolver dinheiro, nós pegamos.”
O INAMPS tinha 17 hospitais, o Ministério da Saúde tinha menos e sem dinheiro.
Um dia, eu fui com o diretor da Colônia, que eu não lembro quem era, fui levando um projeto para reformar o hospital de clínica médica dentro da Colônia.
O secretário de planejamento do INAMPS naquela época era o Francisco Barbosa.
LUIZ LIMA
 Foi na época do Hésio.
LUÍSA R. PESSÔA
Eu estava na Colônia. Fui lá com tudo, projeto, orçamento, tudo e falei: “Na hora que tiver o dinheiro é só licitar”.
Ele virou para o diretor e falou: “Eu dou dinheiro para vocês fazerem isso, com uma condição.  Que ela venha trabalhar conosco”. Ela era eu. Aí, eu fui, em 87, eu fui trabalhar com o Francisco Barbosa, lá no INAMPS.
Eu fui coordenar a Engenharia e Arquitetura do INAMPS. Eu coordenei 17 hospitais e 96 PAMs. Era uma equipe de mais ou menos 60 PESSÔAs.
E aí, teve uma coisa de um …. Não vou lembrar o nome do equipamento, mas o Brasil ganhou os equipamentos e alguns não funcionavam, porque tinham que estar num ambiente bem mais refrigerado do que onde estavam.
 Enfim, foram muitos anos. Depois fui para o REFORSUS de 1996 a 2003. Eu era a única mulher e arquiteta, na Coordenação de uma regional
Havia três unidades regionais, Norte, Centro-Oeste, que era um medico militar,  e Nordeste que era um médico que coordenava, o Renilson, que depois ele foi secretário lá do Ministério da Saúde.
Eu era a única mulher e a única que não era médica e responsável pela UATR. Sul e Sudeste. E aí tinham 493 projetos no valor total de 350 milhões de dólares.
LUIZ LIMA
No SUS, no INAMPS e no INPS, tudo era na cifra de milhão. No então Ministério da Saúde trabalhava com milhares. Orçamentos modestos. No INPS, era tudo mega. Licitação para comprar 50 aparelhos de eletrocardiograma. Era tudo nessa base.
LUÍSA R. PESSÔA
Para mim, é muito difícil ver desperdício, tanto que, no meu mestrado, eu estudei os contratos terceirizados, que estava começando essa história da terceirização. Tem uma coisa que eu lembro. O INAMPS já tinha um sistema de informação melhor que o Ministério.
LUIZ LIMA
Era a Dataprev.
LUÍSA R. PESSÔA
Isso. Era um sistema de custos melhor que o Ministério. Depois, o Ministério implantou sistema de custos e sistema de informação.
LUIZ LIMA
O sistema de custos nos hospitais foi implantado no INAMPS na mesma época que estávamos fazendo o PLUS por um outro programa junto da Secretaria de Administração.
LUÍSA R. PESSÔA
Quando eu trabalhei no INAMPS, eu falei assim: “gente o INAMPS tem sistema de custos desde 70 e poucos. O Ministério da Saúde não tem”.
Então, eu, quando fui para o INAMPS, fiquei lá de 1987 até 1991/92, peguei o SUDS. Na minha  dissertação de mestrado, eu analisei os 17 hospitais sobre cinco tipos de contato. De limpeza, lavagem de roupa, alimentação, manutenção e segurança. Fiz um comparativo, e a minha dissertação foi publicada e serviu para o Ministério da Administração repensar a forma de contratar serviços especializados.
Trabalhei no ReforSUS de 1996 até 2003. Em 2001, eu trabalhando no REFORSUS, foi muito interessante ver a dificuldade de execução de recursos. O que tinha de mamógrafo encaixotado, o que tinha de tudo encaixotado, mil obras, tudo parado, aquilo foi me dando uma agonia.
Minha tese de  doutorado ia ser sobre UTI neonatal, porque eu queria discutir, o seguinte: “Lembra da Letícia Krauss?’ Os bebezinhos que a Letícia estava salvando aqui em  80 e poucos, quando eles tiverem 40 anos, 50 anos, que o pai e a mãe morrerem, quem vai cuidar deles?, com aquela comissão perinatal, quem fazia as obras dos hospitais era eu.
Projeto e obra era eu que fazia, minha equipe do INAMPS. Era ótimo salvar o bebê, mas e aí? A gente tem que organizar a rede, pra rede ter logopedista etc  pra cuidar dessa criatura.
 E tinha tinha  Central de Manutenção de Equipamentos,   CMEq, e  aquele outro programa de implantar ressonância, que não vou lembrar o nome…
Depois eu trabalhei no Abrigo Cristo Redentor, em 1995, 1996. Todo mundo vai envelhecer. Quem vai cuidar dessa gente? Ninguém tá pensando nisso. Então eu pensava tanto nas PESSÔAs com algum nível de deficiência, quanto nos velhos.
Isso em 1995, 1996. Daí fui pro REFORSUS. Foi muito bom, foi bárbaro, mas eu vi a dificuldade que o país tinha.
Em 2001, me inscrevo no doutorado na ENSP/Fiocruz, fiz o mestrado entre 1994 e 1996.
Eu dava aula lá na ENSP desde 1984, com o Moreira Nunes, no Curso de Administração Hospitalar.
Ao me inscrever no doutorado, a minha intenção já era coordenar um curso. E aí minha tese de doutorado, em 2005, ganhou um prêmio DECIT. Melhor tese de doutorado de 2005.
Eu saio do REFORSUS, que  acabou, e me transfiro para FIOCRUZ em 2004. Saio do Ministério, sou redistribuída pra FIOCRUZ, onde fico na Escola de Governo da ENSP, e começo o meu curso, no  Programa de Qualificação da Incorporação de Tecnologias em Saúde que eu coordenei e estruturei até me aposentar. Atualmente, contigo no Programa, mas como coordenadora adjunta.
No programa, tem um curso pra gestor, que é Projeto de Investimento em Saúde, e um curso chamado REFIT, Recursos Físicos e Tecnológicos em Saúde pra Engenheiros e Arquitetos. que não teve tanta repercussão. O Ministério nunca se interessou em formar em larga escala engenheiros e arquitetos. Isso é um absurdo.
LUIZ LIMA
Isso já vem de longe. Não é só o Ministério da Saúde.
O INAMPS também tinha esse problema,. Eu trabalhei uma época no INAMPS no programa de aquisição de bens móveis, o PABM
.
Naquela época trabalhávamos com catálogos, não tinha internet. Recebíamos os pedidos de compra de equipamento e tínhamos que arrumar aquele monte de catálogos das empresas para consultar. As especificações eram feitas e mandadas lá para a administração do INAMPS que fazia as licitações. Descobrimos que mandávamos todas as especificações técnicas, eles mudavam tudo, para favorecer determinadas empresas. Eu briguei com todo mundo lá por causa disso.
LUÍSA R. PESSÔA
Nisso eu sou PHD.
LUÍSA R. PESSÔA
Teve uma época, você lembra da Manuela?
LUIZ LIMA
Lembro, claro.
LUISA REGINA PESSÔA
Saio do SUDS em 1992, estava na Secretaria Estadual de Saúde, com o Moreira Franco. Já morando em Jacarepaguá, vou trabalhar no Hospital de Tuberculose Raphael de Paula Souza, também conhecido por Curicica, do Departamento Nacional de Pneumologia Sanitária, da SNPES/MS, onde já tinha trabalhado quando ainda morava em Brasília, entre 1980 e 1983. E em paralelo na Polícia Militar do Rio de Janeiro, no Hospital ali no Estácio.
E aí veio um trabalho para mim muito interessante, com a UNATI, Universidade da Terceira Idade. Renato Velas.
Em 95, ele assumiu o Abrigo Cristo Redentor, e me chamou para eu ser coordenadora de planejamento do abrigo. Um abrigo de 1930, com conformação de um hospital psiquiátrico. Aqueles pavilhões imensos, 80 a 100 leitos cada um e tal. Quando entrei lá, tinha mais ou menos uns 500 internos.
Trabalhei lá dois anos, fizemos uma proposta muito interessante.
E aquilo, olha, eu já trabalhei em tudo que é canto que você possa imaginar. Trabalhei com lepra, trabalhei em Curupaiti. Mas nada marcou tanto a minha existência, nada, como o abrigo.
Porque se tudo que a saúde pública fizesse desse certo, a gente ainda assim envelheceria.
Eu cheguei lá eram 500 os idosos, mais ou menos. A maioria mulher.
A primeira coisa que eu fiz foi combater lá uma praga de percevejos. A primeira ação da saúde pública foi enfrentar os percevejos. O abrigo era um lixo. Era aquele pavilhão gigante, um leito do lado do outro,  as PESSÔAs ganhavam coisas e botavam debaixo das camas.
E outra coisa, a maior parte eram mulheres e não eram indigentes. Havia várias professoras. Tinha uma que foi professora no Pedro II. Tinha uma mulher que foi secretária do Oscar Niemeyer. Sim!
Tinha uma porrada de balconista, PESSÔAs do comércio. O que que acontecia com elas? Eram mulheres sozinhas, sem casa própria, sem família.
Então, quando aposentavam, o dinheiro da aposentadoria não dava para pagar aluguel, remédio, comida, não dava para pagar tudo. Elas iam para o abrigo. Teve uma mulher que morou seis meses na rodoviária.
Aquelas minhas duas histórias “Pavilhões do esquecimento I e II”, são sobre elas. Uma é a professora e a outra é a mulher da rodoviária. Você conhece o Emílio Mia Y Lopes?
LUIZ LIMA
Conheço, claro!
LUÍSA R. PESSÔA
O Emílio Mira y Lopes trabalhava lá no abrigo também. Ele fez uma caixa orgônica, eu ficava impressionada..
Eu trabalhei dois anos no abrigo. Eu era coordenadora do planejamento, e tinha que incentivar a galera da assistência a repensar modelos.
Ficou um trabalho maravilhoso.  Aquele foi o lugar que mais me  marcou.
Eu aprendi que se tudo que eu fizesse na tuberculose, no câncer, íamos envelhecer. E, para envelhecer, aí volta lá para o Arouca, para o Pelegrini, os determinantes sociais da saúde, habitação, trabalho, educação, lazer…
 Aliás, eu fiz  um vídeo com o Pellegrini maravilhoso. Esse vídeo tem milhões de acessos. O vídeo não ganhou prêmio nenhum, mas tem mais acesso nas redes sociais do que qualquer outro. Porque eu tenho dois vídeos premiados. Um em Cuba e um na Espanha.
Mas, enfim, o que acontece? Eu entendi ali que o conceito de saúde não é ausência de doença. Saúde é vida digna, com habitação, alimentação, com convívio social. Ali no Abrigo, eu entendi isso. Eu tenho fotos daquela época. Eram, sei lá, dos 500, umas 400 mulheres.
 Velhas. Professoras. PESSÔAs que foram importantes.
Quem estava ali não tinha família. Não tinha onde morar. E eu escrevi um artigo. Esse artigo acabou sendo apresentado na França, num congresso de envelhecimento e dependência. E depois o artigo bombou numa revista americana, com os desenhos.
Eu aproveitei aquela memória da Colônia Juliano Moreira, dos pacientes  psiquiátricos, que reorganizei na década de 80 e, na época  eu discuta  com Pedro Gabriel, com Paulo Amarante, o Jurandir Feire Costa, Benilton Bezerra e Ariadne Mendes. Trabalhei com aquela galera no Engenho de Dentro.
Aí, no Abrigo, eu projetei um tipo de moradia.  A ideia era fazer casinhas nas comunidades que coubessem, não sei, dez, doze PESSÔAs e tivesse um acompanhante. E essas casinhas estariam sendo assistidas pela saúde da família. Isso era uma coisa. E ,os pavilhões, eu fiz uma proposta de reorganizar internamente para ter mais dignidade, mais privacidade, mais… E lá, nós fizemos maquetes e  junto lá com a galera, com os velhinhos, eu reformei um pedaço pra servir de maquete pra ilustrar o que queríamos fazer.
Eles fizeram o desenho, fizeram croquis, fizeram tudo. Então, assim, ali eu vi que a taxa de envelhecimento ia ser muito rápida. Nós íamos ter um envelhecimento muito rápido, muito maior do que na Europa, muito mais rápido.
Na Europa, demorou cem anos para envelhecer. Aqui, a gente ia dar um pulo. E aí comecei a encher o saco do Ministério da Saúde.
Eu enchi o saco do Ministério da Saúde com duas coisas. Uma, formar engenheiros e arquitetos. Duas, pensar no envelhecimento, moradia no envelhecimento.
Nenhuma das duas o Ministério da Saúde deu a menor pelota. Mas, a França me escutou.  Apresentamos um trabalho na França. Eu não pude ir e uma PESSÔA que estava lá me representou. E nos Estados Unidos foi só um artigo. E eu fiquei com aquilo na cabeça.
E o que aconteceu? O abrigo foi em 96. Em 2009, eu achei esse condomínio aqui. Peguei todos os amigos que não tinham casa própria no Rio. Iam se fuder quando ficassem velhos, que nem as mocinhas lá. Todos compraram um lote. Fiz um plano de poupança com todos. Construí para todo mundo grátis. Não cobrei nada pelo meu trabalho. E hoje aqui são umas dez casas daquela época. Isso foi muito legal. O condomínio é imenso tem 330 casas.
Já me chamaram para ser síndica. Saiu uma matéria sobre essa iniciativa na revista do SEBRAE. É um boletim da Constituição Civil falando em cohousing. Em 2018, eles fizeram uma matéria com isso. Foi muito legal. Então, isso marcou muito. Marcou muito.
Teve o REFORSUS desde 1996.
Eu saí do abrigo e fui para o REFORSUS até 2003. Foi bastante tempo também. Foram, sete anos que deu até tese de doutorado. Cheguei à conclusão que para poder formar PESSÔAs naquilo que eu queria, que era evitar o desperdício do gasto público, só com doutorado. Porque eu não ia conseguir coordenar um curso se eu não fosse doutora. Por isso que eu fiz o doutorado. E também porque melhorava o dinheiro. E aí, assim que eu acabei com esse  doutorado, eu comecei o curso. Vou ser sincera, quando eu comecei o curso, eu perdi o tesão de continuar trabalhando como arquiteta, ou de manutenção, ou de tudo, nos hospitais.
Porque eu já estava a fim de coordenar e me chamaram para continuar na FIOCRUZ.
eu achava que toda a minha experiência que em 2005, 2006 ,já  faziam 30, 40 anos atuando como eu chamo, com os pés na lama, de subir em telhado, eu achava que tinha que lutar para formar gente.
O REFORSUS foi, assim, muito bom. No REFORSUS, primeiro, na coordenação das regionais todo mundo era médico e homem. Eu era arquiteta e mulher.
Então, eu tinha ali, um indicador, eu me sentava com as PESSÔAs, e discutia tudo: “O que é que esse equipamento vai alterar a vida do paciente, a vida da sociedade”
Eu via a dificuldade das PESSÔAs em executar dinheiro, e passei a minha vida me aproveitando, entre aspas, do fato de que as PESSÔAs não conseguiam gastar dinheiro, iam devolver, e eu estava lá com os projetinhos tudo pronto. Hora de devolver, eu falava assim, “não, devolve não, eu mando aqui para o meu hospital,” Ninguém dava dinheiro para o Ministério da Saúde.
O Hospital de Tuberculose, o Hospital de Saúde Mental, , não tinham dinheiro, mas tinha dinheiro para os outros . Então eu tinha que ir com o projeto na mão, com tudo pronto, quase um edital pronto para quando falasse que  íam  devolver,   eu pegava.Vivi nisso. Então, temos que formar PESSÔAs para ter mais facilidade de executar o dinheiro.
 E não é só executar, não adianta comprar um equipamento se não tem instalação, se não tem recursos humanos. E não é qualquer recurso humano, são recursos humanos capacitados.
Quando eu estava no Bonsucesso, porque naquela congestão teve um momento que pegaram o Hospital de Bonsucesso e botaram gente do INAMPS e gente do município. Do INAMPS era o diretor e do município foi o Walter Mendes para ser o vice. O  Walter Mendes me chamou e falou, Luísa, vem pra cá comigo. Eu era assessora dele e peguei todas as áreas. Toda a área meio, toda atividade meio.
Cozinha, lavanderia, manutenção. Na época, paramos de comprar oxigênio,  e se adotou  aquele processador que transformava ar atmosférico em gás, em oxigênio.  Fizemos uma parceria com a galera da engenharia do fundão, da COPPE.
Na década de 90, o  Senado, fez um estudo de quantas obras inacabadas tinha no país. Lembra disso? O ReforSUS tinha como uma das suas metas concluir e colocar em funcionamentos essas obras inacabadas.  Então eu falei assim, eu quero fazer um curso pra isso.
E foi assim que nasceu o curso de Gestão de Projetos de Investimentos na Saúde.
LUIZ LIMA
É esse que está na FIOCRUZ agora.
  LUISA REGINA PESSÔA
Aí agora chegamos na FIOCRUZ. Eu, em, 2004, estou acabando a tese. Aliás, uma coisa que eu vou contar. Também assim, depois a gente tira. Eu, em 2004, eu estava no Inca. Era o Santini. Santini era do planejamento. Temporão era o diretor. Santini me chamou para trabalhar com ele no planejamento. Porque tinha uns CACONS.
Eu ajudei a montar os CACONs  e a regionalizar o CACON. Porque tinha que abranger, , eu acho, 750 mil habitantes. Uma coisa assim.
Eu estava trabalhando no INCA nessa época, durante o doutorado. Aí o Santini falou assim pra mim. “Pô, Luísa, tu vai se formar no doutorado e você é arquiteta do Ministério da Saúde. Ou seja, o seu doutorado não vai impactar o  seu salário. Por que você não vem redistribuída para o Inca? E aquilo foi a glória, né? Porque arquiteto ganhava muito pouco.
E  se eu fosse da Ciência e Tecnologia, eu ia ganhar muito mais. Fiquei super feliz!
Aí um dia eu estou na ENSP, indo pra aula do doutorado,  eu encontro  com o Antônio Ivo    subindo no elevador, toda feliz  comentando “Vou para o Inca, vou ser da Ciência e Tecnologia, vou ganhar mais quando acabar o doutorado.
Ele vira-se  para mim e fala assim: ”Que burrice”.“Burrice?”  Digo eu. Ele responde:
‘Você vai deixar de olhar para todas as doenças, para todos os hospitais, você  vai ficar concentrada no câncer? Por quê?”
“Porque eu vou ganhar mais. Eu vou ganhar o dobro. E é o único lugar que me chamou para ir para a Ciência e Tecnologia.” Eu explico.
“Por que você não vem  para cá? Ele pergunta
“ Tu vai me chamar?” Eu pergunto.
“Vou”.   Ele fala.
“Então é agora nós vamos na sua sala, e você escreve o ofício”.
Ele fez isso pediu a minha redistribuição e eu fui para a FIOCRUZ.
Ele falou: “Você já dá aula aqui há anos, já faz as coisas aqui”.
Toda vez que a FIOCRUZ tinha um programa, por exemplo, Morel, esse CDTS que o Morel acabou de inaugurar, quem que começou a fazer o projeto lá atrás? A Luísa.
 Eu ficava no INCA, mas se a colônia pedisse, eu ia, se a FIOCRUZ pedisse, eu ia, quem pedisse, eu ia. Dois dias no INCA, dois dias em outro lugar … Sempre foi assim minha vida. Minha vida sempre foi partilhada.
E aí eu estava simultaneamente no INCA, com o Santini e com o Morel, fazendo o CDTS, porque tinha, ia ter um laboratório P3, porque era o antraz.
Fiquei feliz agora porque eu já trabalhei com o Morel há um tempo, fazendo isso. E ele está inaugurando o CDTS!
Quando o Antônio Ivo  falou isso, eu concordei com ele e fui para a FIOCRUZ, fui para a Escola de Governo da ENSP e continuei apoiando o INCA, quando necessário, o que foi muito bom, porque aí conclui o doutorado.
Aí, quando a tese acaba, eu ainda ganhei um prêmio de DECIT, foi a Tese de Doutorado premiada em 2005.Fiz meu curso Gestão de Projetos de Investimentos em Saúde, formato aperfeiçoamento, financiado pelo Ministério da Saúde para o pais. Primeira turma em 2006.
Meu curso sobrevive até hoje, não por conta do Ministério, mas por conta da Universidade Aberta do Brasil, do MEC. Em 2008, botamos o curso no MEC.
Em 2006, eu consegui fazer uma turma do REFIT, que é esse, de engenheiros e arquitetos, e a ideia era fazer aquela primeira turma para eles serem tutores. E depois a gente fazia, um curso constante. Acabou que não rolou, o Ministério não se interessou. Sabe o que é o Grupo Hospitalar Conceição?
LUIZ LIMA
Eu acompanhei a intervenção do Grupo Hospitalar.
Só para ilustrar. O Grupo Hospitalar Conceição era privado. Era de um farmacêutico o Jair Boeira,  dono de uma farmácia, que foi ganhando dinheiro e construiu um hospital e montou o Grupo Conceição. Só que ele era um especialista em fraudar as contas médicas.
Eu quando comecei a trabalhar no INPS, trabalhava com isso, com contas médicas. Quer dizer, eu estava recém-formado, fazendo clínica e tal, e  dizia para mim mesmo “O que eu estou fazendo aqui com esse monte de papel, de processo? Eu devia estar vendo pacientes.”
Mas  fui aprendendo.  Porque, quando as contas do Grupo Conceição vinham, eles fraudavam tudo. O caso ficou sério lá no Ministério, entrou a auditoria, não sei o que, e tal, e foi na época do Geisel, Fizeram a intervenção. O Grupo Conceição era muito grande. Eram bem organizado, mas eles roubavam.
Houve a intervenção. Isso aí ficou durante anos, até que resolveram incorporar, não sei como que incorporaram, lá no Ministério da Saúde.
LUÍSA R. PESSÔA
Mas, então, escuta, em 2006, quando eu tive a minha primeira turma, eu tive  cinco alunos funcionários do Grupo Conceição.
 Em 2006, na minha primeira turma do Ministério, que eu tive, acho que foram mil e poucos alunos, não lembro quantos foram, tem 20 anos isso, eu tive  lunos do Rio Grande do Sul, do Grupo Hospitalar Conceição.
Acabou o curso e, eles estavam maravilhados com isso. Teve eleição no GHC, e alguns dos meus alunos, foram para a direção do grupo, e me chamaram para montar um curso igual aquele para o Estado do Rio Grande do Sul.
Quando eu  montei o meu curso com o Ministério da Saúde, era de  aperfeiçoamento, mas para o Rio Grande do Sul eu transformei em especialização.  E no curso REFIT, eu tinha alunos do Rio Grande do Sul, engenheiros e arquitetos, que eram também do Grupo Hospitalar Conceição.
 Fizemos, uma turma de especialização para o Estado todo, e uma turma de engenheiros e arquitetos,  também para o Estado todo. E foi bárbaro. Além disso, porque no Grupo Espalhar Conceição tinha orçamento participativo, nós fizemos uma turma de duzentos e poucos conselheiros de saúde, e eu fiz um curso curto para os conselheiros. Então, aquilo foi maravilhoso, a experiência do Grupo.
A partir dessa primeira experiência,   todos os cursos do Grupo Hospitalar  Conceição, passaram a ter  uma disciplina  de projetos de intervenção, que era o que eu fazia no meu curso,  aí eu fiquei de 2008 a 2016, uma vez por mês eu ia para o Grupo. Eu saia do Rio na  quinta-noite ficava lá, e dava aula sexta e sábado e voltava domingo de manhã ou por aí. Enfim, foi uma experiência maravilhosa para mim.
LUIZ LIMA
Eu acho que a administração do Hospital de Bonsucesso  está na mão do Grupo Conceição.
LUÍSA R. PESSÔA
Com certeza, está.
LUIZ LIMA
Pois é, então, deu resultado.
LUÍSA R. PESSÔA
Foi uma maravilha, eu passei oito anos lá, eu tenho lá amigos de fé. Foram oito anos, muito interessantes.
Em paralelo a isso, minha mãe morreu com 95 anos em 2017. Meu irmão já  tinha morrido  em 2006   e minha irmã  mora em Viena desde 1985.
Minha mãe estava envelhecendo, começando Alzheimer, aquelas coisas de vida.
Ela estava com 92 anos, e as acompanhantes um dia me falaram : “Sua mãe está  sangrando lá embaixo. Ela estava enfiando coisas na vagina . Eu levei ela ao médico, Tomás Pinheiro da Costa, meu ginecologista há muitos anos.
Ele falou: “Luísa, ela está se masturbando. Porque em vez dela botar qualquer coisa que ela encontrar em casa dentro dela, tu não compras um vibrador?
Eu  comprei um vibrador. Só falei  para a família,  todo mundo querendo me matar. Mas eu estava certa, pois  com o  vibrador ela  tinha menos risco de se machucar.
Ai, eu fui dar a minha disciplina no curso de cuidador de idoso e  falei que  um dos temas seria sexualidade. Tudo que eu estou vivendo com a minha mãe, a gente vai passar e discutir aqui na turma.
Então, eu comprei , numa daquelas lojas de sexo,  calcinha comestível, e outras e bobagens, e botei numa cestinha e quando começou a aula, tinha uma aluna que era muito engraçada, que se vestiu de velhinha passando aquela cestinha cheia de bobagens sexuais  e  cada PESSÔA que tirasse uma bobagem daquelas de sex shopp, tinha que falar sobre o tema da sexualidade no envelhecimento. Olha, foi uma aula maravilhosa, porque tirou milhões de tabus.
 Essa minha experiência PESSÔAl, com minha mae,  tem que servir  para que eu possa construir conhecimento com outras PESSÔAs. Foi bárbaro.  Eu ajudei a montar a escola do GHC.
Outra coisa que eu fiz também em 2008 foi a comemoração dos 20 Anos do SUS.
O CONASEM fez o encontro nos 20 Anos do SUS e meu curso foi transformado em uma das oficinas. E eu fiz de 2008, acho que até 2015, todos os  encontros nacionais do CONASEMs Durante as oficinas tinham 100 e poucos alunos.
Eu cheguei a ir na tripartite apresentar o curso para ele ser nacional, em 2006. Então, hoje, claro que, às vezes, me pedem alguma coisa. Arquiteta, né?
Agora mesmo, estão me pedindo lá na FIOCRUZ, e vou ter uma reunião amanhã. Porque estão com problemas no contrato de manutenção de uma das unidades. na manutenção.
Na minha lógica de pensar, eu cuido da saúde das unidades de saúde para  as unidades de saúde cuidarem das PESSÔAs. Eu tenho que olhar a unidade de saúde de modo integral, entõ eu preciso de uma equipe multidisciplinar pra cuidar das unidades de saúde.
LUIZ LIMA
Durante PLUS mas já no final, quando refizemos o convênio, um dos itens era a manutenção. E foi justamente no INCA que nós montamos uma equipe. E fio por aí que  entraram  PESSÔAs que ficaram lá muito tempo na manutenção.
LUÍSA R. PESSÔA
Em 88,  eu já estava no INAMPS, com , Hésio  Cordeiro, então o Presidente, e o João Carlos Serra no INAMPS/RJ, quando houve um congresso de manutenção, obras e planejamento em Cuba. Um congresso internacional, com gente da América Latina toda, e tinha até alemães. Fomos para Cuba discutir isso. Eles queriam implantar algum nível de controle de equipamentos,  na UERJ, no Hospital Pedro Ernesto.
Trouxemos de Cuba, um prontuário de equipamento. Igualzinho ao de pacientes: qualquer intervenção realizada no equipamento seria anotada no prontuário.
Porque se você não acompanhasse, não tinha manutenção de qualidade, inclusive para o descarte, caso necessário. Passamos um tempo lá, visitamos as oficinas de manutenção.
E aqui, estavam criando a CMEq. Eu trabalhei muito com o PMAG, que implementou ressonanciais e outros novos equipamentos nas unidades do INAMPS. Eu ajudei quando  instalaram as ressonâncias magnéticas.
Quando fomos instalar uma ressonância magnética no PAM Venezuela,  deu um troço, desmagnetizou tudo, foi uma merda. Tinhamos esquecido de botar uma gaiola de Faraday.
Em Cuba, os alemães da Alemanha Oriental tinham formado os cubanos e  havia um cara, que eu reencontrei depois no Haiti, porque, teve o terremoto no Haiti, em 2011, que destruiu tudo. Houve uma parceria Brasil-Cuba e Haiti. Essa que vos falo estava na missão para reestruturar o Haiti.
Eu não fui responsável pelo projeto de arquitetura ou pela execução da obra das Unidades de Saúde que o Brasil doou ao Haiti.
Em 2012 a 2015, eu fui diversas vezes  para lá para formar. diretor de hospital, engenheiro, arquiteto e técnicos, e tinha ainda no cursos PESSÔAs da comunicação.
Mas, voltando para a época da concepção do curso , a partir de 2006, tudo o que eu fazia tinha que ter uma correlação com formação.  Para mim, era a missão de vida… Eu já tinha trabalhado direto na manutenção. O que eu tirei de entupimento de tubo, de esgoto!
 Eu trabalhava com manutenção também. mas os arquitetos acham a manutenção uma coisa inferior. E não é.  Eu cuidava das unidades de saúde  e não era só fazer obra para ela ficar bonita. Eu queria que ela funcionasse bem. Eu cuido ainda, mas eu quero formar gente.
Eu trabalho com a educação à distância, e adoro o que faço. Claro que, de vez em quando, eu mexo com arquitetura. O Chico Barbosa me pediu. eu fiz o projeto a UERJ, sem problema. Mas, eu acho que a minha missão atual, eu sou mais útil formando gente. Formando gestor. Infelizmente, não consigo formar engenheiros e arquitetos.
LUIZ LIMA
Então, precisa de dinheiro, mas, isso o Ministério tinha que pagar.
LUÍSA R. PESSÔA
É óbvio.
Eu continuo a lutar pela formação. Tem um projeto no Conselho Nacional de Saúde, que se chama “Projeto Participa Mais”. Entrei, escrevi e falei:  Olha só. Eu quero fazer uma roda de conversas sobre orçamento participativo. Como gastar melhor o dinheiro público. Uma PESSÔA da Equipe do Projeto me respondeu hoje. Marcamos uma reunião para amanhã.
O Ministério da Saúde da o dinheiro, e, muitos serviços  devolve, não conseguem gastar.
Isso na saúde e na educação. Eu tenho meu curso na saúde desde 2008, pela UAB MEC. E em 2017, o MEC pediu para fazermos um projeto para educação, porque educação também devolve dinheiro. Então, hoje eu tenho, no MEC, via ENSP/Fiocruz, curso para saúde e para a educação. Hoje, acabamos de fazer a revisão do material da saúde, que vai ter uma turma agora. Começa em  novembro. Estamos querendo pegar o foco de farmacêuticos. Estou sem turma da educação só quando tiver edital.
O Ministério da Saúde tinha que ter uma política. Porque, cada vez mais tem emenda parlamentar.
LUIZ LIMA
O que eu vejo é que, essa interface entre os profissionais da burocracia da saúde pública, que é representada pelo Ministério e outros órgãos, inclusive privados e o Congresso Nacional é muito frágil.
Não é culpa de ninguém. É da estrutura mesmo. Porque a escolha dos parlamentares é de acordo com a população e se ela escolhe mal não vai sair resultado bom.
 De qualquer maneira, esse que é o elo que só vai ser melhorado à medida em que não só a burocracia, mas também os partidos políticos e a militância conseguirem fazer com que esses políticos entendam isso.
Quando você lê os programas dos partidos políticos, não se mencionava a saúde. Ninguém trata da saúde,. mas quando chegava na época da eleição, saúde virava prioridade, como afirmava o saudoso Carlos Gentile de Melo, “Saúde só é prioridade em discurso”
LUÍSA R. PESSÔA
Tem um paralelo a isso, uma coisa é o Congresso, outra coisa é a fragilidade da gestão do uso do dinheiro nas prefeituras.
Meu foco é melhorar essa fragilidade, porque a quantidade de gestor que responde a processo, não porque seja corrupto, mas porque ignorava os critérios e normas para o uso do dinheiro, não sabia que aquilo tinha que estar assim, não assado. Então meu curso é focado no gestor público.
LUIZ LIMA
E tem mais. Se esquece o que foi a formação do SUS., durante sua criação que a participação política nas universidades, nos Estados foi muito intensa  .Isso, de alguma forma, diminuiu . Pergunta-se: “Quem é que está falando com o deputado?” Não tem ninguém.
LUÍSA R. PESSÔA
Por isso é que eu te mandei os artigos que eu escrevi aqui para o Peru Molhado.
Eu trabalhei com orçamento participativo fortemente no Rio Grande do Sul durante o governo do Olívio Dutra. Ele implantou o orçamento participativo. E eu estava lá, porque eu estava num GHC.
Eu tinha 230 conselheiros do orçamento participativo na minha sala de aula. E entre esses conselheiros tinham donas de casa, que nunca tinha visto planejamento, e fazíamos oficinas com os conselheiros.
Porque você tem que construir com eles um conhecimento para poderem decidir essas coisas. Não adianta ter orçamento participativo se as PESSÔAs não sabem o que é isso.
LUIZ LIMA
É que está havendo uma reorganização dessa área. Isso vai levar tempo. Por exemplo, essa crise que tem hoje no Congresso Nacional,  é uma crise, ideológica., A discussão ficou em cima de opções ideológicas, se vai da esquerda ou da direita, e se perdeu um pouco a perspectiva social do assunto.. Ou seja qual é  o problema real? Como é que resolve?
Mas está mudando. Todas essas crises que estamos vivendo, inclusive essa agora, com o Congresso, já faz parte deste  processo de erosão da própria estrutura política representativa do Brasil.
Ou seja, os trinta e tantos partidos políticos, não conseguem  realmente representar os seus partidários, os seus militantes. A sociedade ficou solta.
As representações políticas que existem, ficaram permeáveis aos partidos, que entraram nesses grupos, só que esses partidos, buscam as lideranças comunitárias, mas não levam junto com eles nenhuma doutrina, nenhuma conceituação.
LUÍSA R. PESSÔA
Por isso que eu estou propondo, que amanhã ao discutir com eles, que tínhamos, no Conselho Nacional de Saúde, que incentivar   as discussões nesse fórum Participa Mais.
 Outro dia eu estava conversando sobre essa questão dos idosos e falei que eu quero um lugar para o idoso envelhecer com dignidade. Agora, se ele é preto, amarelo, verde, gay, não gay, hétero, tri… Ele tem que envelhecer com dignidade, é isso que importa. TODOS TEM QUE ENVELHECER COM DIGNIDADE.
Na verdade, durante esses últimos 20 anos, na FIOCRUZ,  eu faço coisas de arquiteto, fiz várias coisas de arquiteto lá, mas, agora, trabalho muito também com formação. Embora não seja minha área de estudo, coordenei a elaboração do material didático e seleção e formação de tutores para a primeira oferta do  curso de Educação Popular em Saúde.
– Pô, Luiza, a gente está com dinheiro para fazer um curso de educação popular, 24 mil alunos.
Ninguém quer pegar. Vão devolver o dinheiro. Eu fale: “Não vai não”.
E em sete meses eu coordenei uma equipe para a montagem o material didático, e formação de tutores, fiz tudo, e aí, quando estava tudo pronto, alguém falou:  Luiza, tchau!
Fui embora feliz!
 E me transferi da Escola de Governo da ENSP para o Centro de Referência Professor Hélio Fraga CRPF, também da ENSP, que antigamente se chamava Hospital Raphael de Paulo Souza, ou Curicica, Hospital de Tuberculose onde trabalhei quando era da DIPLAN/MS, entre 1980 ate 1987, e depois entre 1992 e 1996.  Fiquei no Hélio Fraga ate me aposentar, em 2019.
Sempre gostei muito do trabalho com a Tuberculose, pois a arquitetura pode influenciar muito, pois uma Habitação  evita a doença. Tenho um vídeo com esse tema “Habitação Saudável e Tuberculose na Rocinha” , muito legal.
LUIZ LIMA
Eu já acompanhei isso. acho que ainda mantemos  um certo idealismo, mas perdemos a inocência.
Nem eu nem você não mais seremos enganados por ninguém.
É isso que você falou. Você prepara tudo, aí o cara vem e sobe no trono
LUÍSA R. PESSÔA
Foi o que aconteceu. Mas, enfim, eu fui para a Venezuela, eu fui para a Moçambique, tudo formal. Moçambique, eu fui ajudar a ajeitar um hospital.
A minha experiência no Haiti é que foi bárbara. O Ministério fez, acho que foram três hospitais, só que ele fizeram com pré-moldado Eu fui contra, o, pré-moldado, embora a construção seja rápida, se tiver um terremoto, destrói tudo. Eu queria que fizessem com uma tecnologia do Peru, da Costa Rica, que são as pedras encaixadas, que tremem.
LUIZ LIMA
Como os incas faziam.
LUÍSA R. PESSÔA
Isso, como os incas faziam, aquelas pedras encaixadas. E aí não teve jeito. Mas tudo bem, o Ministério fez e ajudou muito a população haitiana.
Eu fui formar, diretor, engenheiro, arquiteto, foi uma cooperação tripartite,  com a coordenação da Paulo Buss. Eu tinha 24 alunos de nível superior, foi o REFIT HAITI, pela ENSP/Fiocruz, e os cubanos formaram 25 alunos  eram nível de técnico.
Então, nesses últimos 20 anos, foi interessante porque eu comecei a fazer meu curso, a montar o material  didático, baseada  na experiência do ReforSUS, das dificuldades dos Gestores Estaduais e Locais, e também ajudou muito a visita à Macrorregião de Montes Claros, ouvir os Gestores Locais.. Uma coisa é a dificuldade da PESSÔA na cidade do Rio de Janeiro., outra coisa é a dificuldade da criatura na Secretaria Municipal do interior do pais.
LUIZ LIMA
Não, é porque você não pode esperar que o cara lá tenha experiência, tenha vivência disso.
Quem está na burocracia do município, tanto faz a área, tem que  dar tanta satisfação, que isso acaba atrapalhando, você não sabe mais o que fazer.
LUÍSA R. PESSÔA
No doutorado, a minha tese foi premiada como a melhor tese de doutorado pelo DECIT, de 2005, foi uma coisa importante.
Agora, isso não mudou a minha forma de pensar. Meu objetivo é a prática., eu gosto mais de ter de curso de aperfeiçoamento e curso de Especialização, do que ser professor de doutorado ou de mestrado. Eu quero ajudar as PESSÔAs a meterem a mão na massa.
Eu quero fazer material didático, eu não quero ter pontinhos no CAPS, no LATES.  Então,  em que que eu me foquei?
Meu material didático é muito interessante. Eu peguei um caso que estava bombando no INCA, que era o câncer de mama. E criei uma cena, o Vitor Grabois até ajudou a escrever essa cena, que é uma mulher que morre de câncer de mama, com 34 anos. Então, toda a minha discussão no meu curso é gestão de projetos de investimento em saúde, começa com uma prefeitura querendo resolver esse problema.
Se descobre que, além de formar melhor a atenção primária, tem que ter uma estrutura de média complexidade. E assim vai.
Criei personagens. E, a partir daí, meu material didático, que foi inovador, lá no EAD, eu fiz vídeos. Eu tenho vídeos curtos, eu tenho vídeo de planejamento, vídeo de execução.
Meus vídeos são mais para o engraçado. Tem sempre um toque de humor. E eu comecei isso.
Depois, no curso para a área da  educação, o meu conto, a minha historinha, é sobre  um grupo de crianças intoxicadas pela merenda escolar.
LUIZ LIMA
O que é bem real.
LUÍSA R. PESSÔA
Tudo real. E um deles fica muito mal. Então, assim, meu material didático tem vídeo, tem podcast, e tem as cenas que, se quiser, você pode encenar no seu trabalho, onde você quiser.
Nós começamos a encenar no CONASEM em 2008, nos 20 anos do SUS, os alunos liam as cenas e era bem interessante.
Enfim, hoje, eu estou muito mais na formação porque esses 20 anos o curso de educação à distância também me deu experiência.  Não sou pedagoga, mas dou aula desde que eu existo.
Quando meu pai ficou sem trabalho, eu não tinha dinheiro para comprar material didático.
Isso eu tinha, 14 anos. O que eu fazia? Eu conversava com as minhas amigas para que me  emprestassem o material didático, eu lia tudo, organizava tudo e explicava  tudo para elas.
LUIZ LIMA
Você virou uma explicadora.
LUÍSA R. PESSÔA
E atualmente estou em um curso de teatro para maturidade. Nós nos autodenominamos “Os In Maturos”. Eu até escrevi um poema, “A ostra e a Pérola”. Que tem a ver com a adversidade, encontrar saídas que sejam as nossas pérolas.
 Em dois momentos da minha vida, eu trabalhei em favela. Um, eu dava aula de catecismo na Escola Marília de Dirceu, ali na Jangadeiros, em Ipanema. Eu dava aula de catecismo porque eu estudava em colégio de freira e era uma das atividades.
 A outra experiencia com favelas foi nas Ações Integradas de Saúde, eu fiz os minipostos nas favelas. Cara, 83, 84, 85 eu fiz miniposto. Fazíamos mutirões. A prefeitura dava o material e  a  galera dava a mão de obra. Fiz no São Carlos, fiz nos Prazeres, Rocinha, Escondidinho, e outras que esqueci os nomes.
Eu tenho postinho de saúde naquelas favelas todas. Era muito diversificado o que eu fazia. Eu tanto podia estar no INCA ou, fazendo mutirão no Dona Marta.
LUIZ LIMA
Que, no final, o âmago é o mesmo, levar esse conhecimento para quem precisa.
LUÍSA R. PESSÔA
Eu acho que foi uma coisa muito boa no meu dia a dia. Estar no INCA e no São Carlos.
 Eu fui chamada pela polícia militar naquele hospital no Estácio. O tenente coronel, para passar para coronel, faz um curso. Quando o tenente coronel é médico, ele faz um curso de administração hospitalar. E eu fui convidada para dar aula no curso de administração hospitalar da PM.  O tenente coronel, meu ex-aluno, foi ser o diretor do hospital e me chamou para estruturar a manutenção do hospital. Eu fui para o hospital da PM. Ia lá uma vez por semana. Às vezes, ficava ali no QG. Ali no quarte da Evaristo da Veiga. Eu era emprestada para a PM. Esse trabalho na PM foi muito interessante também.
Porque eu vi a estrutura hierárquica. Foi um aprendizado. E eu implantei lá a manutenção.
Levei umas PESSÔAs de manutenção. Lá foi o foco, foi manutenção, não foi obra. Foi interessante também.
Tem um grupo que é da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar. Tem muitos arquitetos amigos e muito bons  que estão nesse grupo, eu não estou porque não consigo ver a coisa hospitalar sem ser como um todo.
LUIZ LIMA
E tem um outro detalhe. Quando você fala em saúde, e  quem trabalha na saúde pública,  vem a  ter essa experiência começa a ficar diferente.
Uma PESSÔA que não seja da área quando pensa em saúde considera consultório, hospital.
ambulatório. Mas, quando você se enfronha nisso, você vê que é uma teia muito mais complexa. A ideia de hospital, ela vai ficando menos evidente, porque você sabe que, para um hospital funcionar tem muita  gente que também  precisa funcionar.
Não é qualquer um que  faz funcionar é necessária toda uma infraestrutura,
É  a  chegada dos pacientes, a identificação de quem vai usar. É uma coisa muito mais abrangente. Você vai ficando com essa visão, você vai ficando solitária.. Porque você começa
a falar coisas que ninguém entende.
LUÍSA R. PESSÔA
Exatamente. Ninguém entende, ninguém discorda. É como se você desvalorizasse a arquitetura. Eu não desvalorizo.
Mas o problema, para mim, um hospital sem engenheiro clínico e sem o cara da manutenção é a mesma coisa.
A Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar é uma associação grande, basicamente de arquitetos e engenheiros. É o  Edifício Hospitalar, para engenheiros, administradores, médicos, quem quiser, mas para mim é mais do que isso.
 Para mim, eu sou arquiteta sanitarista.  Teve uma época que eu dei aula numa cooperação com a Argentina, depois teve uma cooperação com a Itália, enfim, eu hoje acho que a gente tem que focar em gastar melhor o dinheiro público, seja ele de custeio, seja ele de capital.
Esse é o meu objetivo.. Então, é por isso que cada vez mais eu estou focada nisso, continuo, mas não posso mais coordenar, porque eu me aposentei em 2019.
Eu sou coordenadora adjunta. Tem coordenador da casa, funcionário, que já esta no curso desde o inicio.
Eu tenho, no curso de educação, uma moça que é coordenadora, e no curso da saúde eu tenho esse rapaz que é coordenador. Os dois são da FIOCRUZ.
Então, pronto, eles coordenam e eu sou coordenadora adjunta. Eu até faço projeto, não tem problema.
Foi muito interessante essa experiência lá na UERJ, porque, eu comecei a discutir a epidemiologia…
LUIZ LIMA
A epidemiologia é só uma disciplina, Você usa aqueles métodos  e  ela te dá um cabedal de interpretação.  Você pode usar os  dados  de mortalidade, morbidade etc, mas juntar tudo isso de uma forma não só coerente, mas que dê uma explicação do real, é que é o pulo do gato.
LUÍSA R. PESSÔA
Para mim, no meu caso, eu tenho que usar isso prospectivamente.
Poque se eu vou fizer o projeto de um hospital,  esse hospital tem que durar pelo menos, trinta anos.
Sem uma grande mexida. Por exemplo, nesse trabalho lá do Chico Barbosa, eu falei o seguinte, se você pegar as regras da Anvisa e, você deixar funcionando 10% de leitos para UTI não dá. Tem que deixar instalação elétrica, de oxigênio e outros  para 30% dos leitos.
Por quê? Porque daqui a 10 anos você não vai quebrar tudo para fazer instalação de novo e a população está envelhecendo muito rápido. A pandemia foi um exemplo disso.
Sabe? Porque, em 2015,  Walter Mendes e eu, e outros arquitetos que sempre trabalharam comigo, fizemos naquele projeto o que seria o hospital ideal. Fizemos um hospital de 110 leitos, sendo 10 de UTI, mas sugerindo que 30% tivessem instalação pronta. Porque qualquer adversidade você teria como passar de 10 para 30 leitos de UTI. Sem obra. Só colocando recursos humanos.
Com a pandemia, isso se confirmou. Com esse envelhecimento agressivo, então, se você junta a epidemiologia com o urbanismo, o urbanista pensa para o futuro, prospectivamente.
Se você junta o sanitarista, que também deve pensar o amanhã, os estudos e projetos ficam mais completos.
LUIZ LIMA
Ele tem que pensar. A ideia básica da epidemiologia é essa. Você vê o que está acontecendo para projetar para adiante.
LUÍSA R. PESSÔA
Tendência. Então, quando você junta a epidemiologia com o urbanismo e a visão do sanitarista, você tem que pensar prospectivamente.
LUIZ LIMA
Mas isso aí, é uma coisa rara. Porque exige um grau de compreensão política muito forte.
LUÍSA R. PESSÔA
Uma situação difícil. O Inca por exemplo não viveu isso,  porque recebe gente de vários locais, e que às vezes não tinham onde ficar. Uma das coisas que eu fiz no Inca… Sabe o hotelzinho que tinha perto da rodoviária? Ele, uma época, abrigava PESSÔAs familiares da galera do Inca.
LUIZ LIMA
Mas. Isso é pago. O INPS tinha o ”tratamento fora de domicílio”, que pagava, a hospedagem das PESSÔAs.
LUÍSA R. PESSÔA
Olhando para trás, a única coisa que eu lamento…
– Eu estou com 71 anos. Vou fazer 50 anos de saúde ano que vem. –
Eu queria ter podido formar mais engenheiros e arquitetos. Com essa concepção.
Só que, infelizmente, só consegui formar uns 50 engenheiros e arquitetos.
LUIZ LIMA
Atuando na saúde pública, em determinados momentos, foi, e ainda é preciso, explicar para as empresas o que eles têm que fazer e olhar para o futuro. Porque eles têm uma visão muito limitada por exemplo, de só vender remédio. Por exemplo, a questão da falsificação. Porque os empresários reclamam que está se falsificando.
É o governo que toma conta. Mas não é só o governo. As empresas têm que prestar atenção. Porque eles estão treinando e formando uma mão de obra que eventualmente irá ser usada para  falsificar. Não se pode fazer a inspeção, fiscalização sanitária e o PESSÔAl da área privada jogando contra porque não quer ser inspecionado. Na medida que usa a influência que tem na administração e no meio político promove uma impunidade que claramente alimenta a fraude.
Por isso que o Brasil é um dos campeões mundiais de falsificação.
Eu entendo perfeitamente o que você está falando.
Mas essas coisas, mudam. Mudam porque a sociedade precisa mudar. E agora, mais do que nunca, o que está ficando claro para todos é que se não tiver uma representação política dentro de uma doutrina progressista, de uma doutrina democrática, vai dar errado.
Quando nós começamos a fazer essas entrevistas, uma das coisas que  se viu e foi  muito claro, é que  esse conjunto do qual fazemos parte  junto com outros  milhares de profissionais  que atuam na saúde  e não importa categoria,  formam uma rede que   atendeu  durante esses 50 anos a população desse Estado.
Não tem nenhuma família no Estado do Rio de Janeiro que não tenha sido atendida por alguma dessas PESSÔAs aqui desse grupo de veteranos. E na hora que você vai registrando as histórias, eelas estão cheias de ligações com a dos outros. Só que não são aparentes e apenas  se percebe isso na hora que  começamos  a falar.
LUÍSA R. PESSÔA
Acho que ficou muito bom
Ótima tarde.
LUIZ LIMA
Foi ótimo. Boa tarde para você também.

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