WILLE OIGMAN
Eu entrei no Colégio de Aplicação da UERJ em 1966. Na época, se escolhia a área que queria estudar. Na realidade, não houve nada na minha vida que tivesse me levado a esta decisão. Eu tinha um tio médico e gostava muito dele. Mas acho que se eu tivesse feito engenharia também teria gostado. Então, a escolha da medicina chegou a ser um cara-coroa. Mas, sei lá, houve alguma coisa meio pessoal, do cuidado. Sim, eu acho que essa coisa do cuidado foi decisiva para a escolha da medicina. E o Colégio de Aplicação ajudou muito.
Eu estudei no Colégio de Aplicação até o segundo ano do 2º grau, quando passei para o Colégio Scholem Alechem, que tinha convênio com o curso Miguel Couto.
Na época, os vestibulares eram individualizados. Eu só fiz as provas da UFRJ e da UERJ. Passei para as duas faculdades mas, por uma questão de facilidade, escolhi a UERJ que era perto da minha casa e também porque já tinha um hospital. Foi uma decisão muito boa. Ajudou muito a minha vida posterior.
O primeiro semestre da UERJ foi uma tragédia total porque, vindo de curso preparatório bem organizado, como era o Miguel Couto, passamos a ter disciplinas como biofísica, bioquímica, anatomia e outras coisas assim que realmente não motivavam muito. Nem mesmo a anatomia.
O primeiro ano… Ah, sim, o primeiro ano.
Logo no início foi meio confuso, porque havia o inquérito da aeronáutica.
O Benjamim me pediu para ser testemunha dele, lá no Terceiro Comar. Orientado pelo advogado dele, eu dei depoimento e tal. O processo foi arquivado.
LUIZ LIMA: Era o Coronel Rangel que presidia o inquérito.
O irmão dele, o Norberto, era aluno da Faculdade, de uma turma anterior à nossa.
Eu vou contar uma história: na época, meu pai era coronel da Aeronáutica. Um dia, eu e o Mourad fomos lá aonde ele trabalhava, na Escola de Estado Maior, para pegar material didático. Sentamos na mesa para almoçar onde estava o coronel Rangel, que tinha feito o inquérito da UERJ. Falei que éramos da UERJ. Rapaz! Ele começou a contar todas as mazelas dos bastidores desse inquérito. Estávamos numa mesa cheia de coronéis, brigadeiros e o cara falando da vida dos professores, quem prestava, quem não prestava.
WILLE OIGMAN: Então, no primeiro ano, além das disciplinas serem muito ruins, teve isso. Mas aconteceu um negócio interessante. O professor Piquet Carneiro acabou com a disciplina de Higiene e criou a disciplina de Medicina Social. E aí chamou o Hésio, o Moisés, a Nina, o Chastinet e acho que até chamou o Regazzi também para ajudar.
Cursei Medicina Social no primeiro semestre. O Hésio dividiu o grupo em dois. O Piquet tinha sugerido que não estudássemos casos raros de medicina, mas sim doenças crônicas, como hipertensão arterial e câncer de mama. E eu fiquei no grupo da hipertensão arterial.
A Escola de Saúde Pública estava voltando aos pouquinhos e o Hésio chamou um pessoal de lá para dar aula de estatística. E acabamos fazendo um trabalho sobre epidemiologia da hipertensão arterial dos funcionários. O trabalho foi apresentado na Semana dos Estudantes de Medicina da UFRJ, lá na Praia da Vermelha.
Quando acabou o semestre, o Hésio falou: “Tem um cara que mata cachorro e mede a pressão arterial. Se alguém quiser continuar estudando hipertensão, eu apresento a vocês”.
Quem “matava cachorros” era o Emílio Francischeti, que estudava choque séptico. De todo o grupo, sobramos interessados eu, o Gavrishewsky e o José Marcos Chaves Ribeiro.
O Emílio tinha voltado de Indianópolis, nos Estados Unidos, onde trabalhara com um pessoal topo de linha em hipertensão. De lá, trouxe métodos biológicos para ajudar nas pesquisas. Me interessei. E a partir dali comecei a assistir muito pouca aula. Porque o Emílio me ensinou uma metodologia de dosar renina que durava de10 a 11 horas para ser concluida.
Eu tinha a chave da faculdade pois, às vezes, eu terminava as dosagens às11 horas da noite porque, quando o método dava certo, era preciso pegar um coelho, descerebrá-lo, abrir o tórax, tirar a aorta, cortá-la em espiral, botar no quimógrafo e estimular. Isso levava de 6 a 7 horas para dosar uma ou duas vezes a atividade da renina. Essa pesquisa me empolgou bastante.
O Zé Marcos era um cara muito habilidoso, cheio de idéias e também dosava uma série de coisas de que ele gostava. O Gavri também fazia dosagens, mas ele era mais complicado e não estava tão definido.
No início do segundo ano o Emílio foi embora para São José do Rio Preto. Eu e o Zé Marcos ficamos meio órfãos.
Só que o Zé Marcos tinha um drive muito melhor que o meu. Eu não queria ser um cara de bancada, mas o Zé Marcos, sim. Então, ele procurou um lugar em que pudesse trabalhar e chegou a trabalhar no INCA. Passou a conhecer pessoas da área básica e acabou fazendo sua vida na bancada. Hoje é um belíssimo pesquisador nos Estados Unidos.
O Gavrichewski sumiu.
Mas aquele período em que trabalhei com o Francischetti me deu um reconhecimento institucional de hipertensão. Um negócio inacreditável. Virei um consultor.
No segundo ano… também não tinha muita coisa, né? Tinha a Patologia Geral, com o Pinheiro Guimarães…
Ainda no segundo ano, um dia, o Landman, que era o diretor, me chamou e disse: “Filho, é o seguinte. Na semana que vem, chegam três consultores da CAPES para uma auditoria na Faculdade, para credenciar o mestrado da Endócrino, da Nefro e da Cárdio. Cadê aquele aparelho do Francischetti?”
O Emílio já tinha ido para São José do Rio Preto. Então, eu falei: “Quer saber? Vou montar o aparelho no laboratório da Endócrino e dizer para os consultores que faço dosagens, faço pirotecnia e o diabo”. E assim foi feito. Eu continuava estudando teoricamente hipertensão.
Um segundo acontecimento importante durante o segundo ano da faculdade foi meu contato com o Virgílio Pinho da Cruz. Um dia eu lhe disse que iria dar plantão com ele no Oliverio Kremer. Ele recusou, mas me deu uma ideia: “Por que você não entra numa dessas equipes de plantão no HUPE”? Foi assim que, no segundo ano da Faculdade, comecei a dar plantão nas sextas-feiras. Na época, o chefe era o Zé Augusto, cirurgião. Depois, foi o Albanesi.
Continuei no plantão durante o terceiro ano, também. Mas então eu tive um assistente, o Francisco Fagundes, que virou anestesista. Era um belíssimo anestesista de cirurgia cardíaca no Rio de Janeiro. E ele era o meu assistente…
No terceiro ano tinha a Anatomia Patológica e a Microbiologia. As aulas do Suassuna eram a uma hora da tarde. Era a alcalose metabólica, a letargia, né? Mas começamos a Clínica Médica, que era uma coisa legal.
No quarto ano da faculdade… demos um xeque-mate no Landman: Falamos: “Essa faculdade é muito ruim.” E ele nos perguntou o que nós queríamos. “A gente não quer ficar só dando aula de duas em duas semanas”.
“Então, vocês escolham. Por exemplo, quem quer fazer Pneumo, fica seis meses na Pneumo e seis meses na Cardio ou na Neuro ou na DIP. Durante a manhã toda.”
Eu não fui na enfermaria da DIP nem na da Cardio. As aulas teóricas eram só à tarde. Nas manhãs, as atividades eram na enfermaria.
Eu fiquei um semestre na Neuro, porque o Pompeu, naquela época, tinha vindo para o hospital. Por pouco eu não fiz Neuro como especialidade.
O quinto ano era horrível, né? Nele eram dadas as disciplinas cirúrgicas, com duração de 2-3 semanas, cada.
Também no quinto ano, fomos para a SUSEME. Eu me lembro que você deu plantão lá no Lourenço Jorge.
LUIZ LIMA: Eu, o Miguel Monteira, o Mário Dal Poz.
WILLE OIGMAN: O Antônio Augusto, o Quadrão, o Zé Augusto, o Quadrinha.
Eu fui para o Souza Aguiar, com o Vantuil, o Cláudio Barbosa.
Foi um lugar muito bom, um lugar excelente. Depois, fiz um ano de Andaraí, no CTI, muito concorrido na época.
No sexto ano, o internato. Não tinha como escapar. Foi tudo bem.
Também no sexto ano, o Bob Lipstein me convenceu a estudarmos juntos para fazermos a prova para ir para os Estados Unidos. Minha mulher estava grávida. Estudamos juntos e passamos na prova.
O Bob tinha muito mais conhecimento, mais recursos e foi para os Estados Unidos, juntamente com o Paulinho, a Carmela e o Vantuil.
Mas o que aconteceu foi o seguinte. Eu estava meio perdido. Mulher grávida. A criança nasceu em janeiro. Eu fui selecionado para fazer a residência no HUPE, em Clínica Médica. Eu e o Quadrinha que era de 1 ou 2 turmas depois da nossa). Mas eu conheci um neurologista famoso dos Servidores, chamado Finkel, que prometeu que eu iria para os Servidores. E, realmente, recebi um telegrama para me apresentar. Cinco dias depois, recebi outro telegrama dos Servidores dizendo para eu ir para o inferno. Eu tinha sido “desnomeado”. Tinha muita pistola no setor, na época.
Fui, então, a Taubaté conversar com o Francischetti e ele me convenceu a ir para lá. Extávamos no ano de 1975. Eu abri mão da residência em Clínica Médica. Na realidade, eu não queria fazer Clínica Médica. Eu ia fazer Neurologia.
Fiquei um ano em Taubaté. Após nove meses eu não aguentava mais. Vi que fora uma furada. Coincidentemente, o Albanesi foi fazer uma visita ao Francischetti. Comentou que iria começar um mestrado na UERJ e perguntou se eu não queria fazer. Disse que só precisava ter feito um ano de residência. Bom, eu já estava insatisfeito e convenci o Francischetti a ficar só um ano. Ele me deu uma declaração de que eu havia completado um ano de residência em Clínica Médica.
Em 1976 voltei para o Rio. O meu “emprego” era o Mestrado em Cardiologia. Eu era da segunda turma do Mestrado. Eu, Zé Davi, Denilson, Juscelino…
Nesse ano de 1976, o INAMPS estava contratando gente que tinha muito pistolão. E eu consegui, com o meu tio médico, uma nomeação como médico em São Gonçalo. Para minha salvação.
LUIZ LIMA: Você foi, assim como eu e quase todo mundo da nossa turma, contratado “a título precário e provisório”. Eu nunca vi coisa tão precária. Era precário e provisório.
WILLE OIGMAN: Mas eles exigiram que a gente fizesse o concurso, que veio logo depois. O meu chefe, lá em São Gonçalo, me convenceu a fazer prova para Clínica e para Cardiologia. Fui aprovado nas duas e consegui as duas situações.
Então, em 1976 eu fazia o Mestrado em Cardiologia. O Aarão Benchimol foi convidado, pela livraria do José Feldman, irmão do Moisés Feldman, o livreiro, para escrever uma enciclopédia brasileira de Cardiologia. O Aarão chamou todo mundo da Cardiologista do Brasil e distribuiu os temas. Eu tenho essa enciclopédia. E todos os capítulos de hipertensão.
Comecei a fazer o mestrado antes de todo mundo, porque todos cumpriram os dois anos de residência. Eu só fiz o primeiro ano.
O Aarão foi chamado pela Merck-Sharp-Dome para fazer um trabalho sobre abandono de tratamento de doença crônica. O Aarão não tinha a menor ideia de o que era isso, e perguntou: “O que a gente faz?” “Vamos chamar os universitários. Vamos conversar com o Wesley”.
O Wesley topou. A gente fez um estudo, inclusive com entrevistas feitas por um auxiliar, o Zezinho Suassuna, que estava no quarto ano. Aquele pessoal todo amigo do Regazzi, Zezinho, Tony e os outros, todos me ajudaram muito a fazer esse trabalho que acabou dando origem à minha dissertação. Defendi a dissertação de Mestrado em 1978.
Em março de 1978, o diretor da Faculdade era o Italo Suassuna. Ele conseguiu cinco vagas de professores para a Clínica Médica. Como eram cinco enfermarias de Clínica Médica, cada professor responsável podia indicar alguém. Então, foram nomeados o Chico Barbosa, o Quadrinha (??? Quadrinha ou Quadra), o Michel Devesa, a Regina Luchezzi e eu. Fui indicado pelo Piquet e pelo Paulo Dias da Costa, porque o Piquet já estava aposentado.
Nós todos entramos em março de 1978 e fui para a Medicina Integral.
O Quadrinha não foi porque ficou na enfermaria 19 e 20. Mas, depois, o chefe do ambulatório, o Pedro Paulo Rongel, brigou com o Landmann. O Landmann então mandou o Quadrinha para a Medicina Integral e a mim para a enfermaria e trabalhei com aquele rapaz que tinha sequela de Poliomielite o Valdir. Gente ótima, maravilhosa.
Em janeiro de 1980, mudou a direção do HUPE. Entraram o Peixoto, como diretor, e o Ayrton de vice-diretor. O Ayrton me perguntou se eu não queria ajudá-lo. Então, formou-se um triunvirato: o Gazola, o Ivan Matias e eu
Em setembro, o Ayrton me chama e diz: “Eu recebi uma oferta para mandar alguém para Nova Orleans, nos Estados Unidos, para fazer um fellowship. Como o Albanesi tem muito mais tempo que você, eu coloquei o nome dele em primeiro lugar, mas, se ele não quiser, você é o segundo.
Eu pensei: “Já tenho SFMG, fui aprovado para ir para os Estados Unidos”
Fui conversar com o Albanesi e ele disse que não queria ir. Uma pessoa maravilhosa, que me ensinou muita coisa. Infelizmente, já morreu.
No dia 3 de fevereiro de 1981, eu desci no aeroporto Louis Armstrong, em Louisiana, Nova Orleans.
Fiquei dois anos em Nova Orleans. Meu chefe era um judeu reformista, não era um judeu ortodoxo. Judeu reformista tem uma série de coisas bem diferentes. Por exemplo, mulher pode ser rabina.
Coincidiu terem sido desenvolvidos, nos anos de 1981 e 1982, todos os novos remédios para hipertensão.
O meu chefe era da escola de Cleveland e tinha muito prestígio em Fisiologia nos Estados Unidos. Por suas mãos passavam todos os remédios novos. Ele montou uma unidade básica de estudo em animal. Ao mesmo tempo em que testava medicamentos em animais, ele testava em seres humanos. Eu trabalhei com todos os remédios novos, captopril, enalapril, amlodipina, higroton, losartana, nitrendipina, nifidipina. Todos.
Fiquei nos Estados Unidos por dois anos e tive 26 trabalhos publicados em revistas americanas. Como primeiro autor, segundo, terceiro, não importa. O que importa, no final, é o volume de publicações.
De volta para o Brasil, em 1983, voltei a trabalhar com o Francischetti. Foi quando começaram a surgir os ensaios clínicos no Brasil.
Não me lembro exatamente se foi em 1984 que houve um concurso para titular de Cardiologia da USP. E quem é o cardiologista da USP? É também o diretor do INCOR. Um cargo extremamente disputado. O INCOR é a pérola, a cereja da USP.
Num determinado dia, recebi um telefonema dizendo o seguinte… “O senhor pode mandar o seu currículo? Porque vai ter um concurso e foi composta uma banca, mas a congregação da USP disse que aquela banca não podia ser porque estava beneficiando um dos candidatos. Então, se resolveu solicitar novos currículos para compor uma nova banca”.
Fui escolhido para essa banca, composta pelo Silvano Raia, como presidente, um professor da Escola de Saúde Pública, um professor de Cardiologia da Escola Paulista de Medicina e eu, carioca.
Cheguei em São Paulo na sexta, o concurso era na segunda. Antes de viajar, recebi um telefonema de um professor da USP perguntando se ele poderia encontrar-se comigo no aeroporto. Chegando no aeroporto de Congonhas, um cara me abordou. Era o tal professor da USP que me convidou para tomar um café e disse: “Não quero te ocupar muito. Eu sei que tem um concurso na segunda-feira. Tem dois candidatos”. Na verdade, eram três candidatos, todos “pesados”. Um era o Giovanni Bellotti, um cara talhado para ganhar o concurso, o Protásio, que era um cara famoso, mas que veio de fora, e o Ramírez, um cara jovem. A USP queria o Ramírez.
O professor meu interlocutor falou: “Eu quero entregar-lhe esses dois papers e gostaria que você os olhasse”. Botou-os em cima da mesa e perguntou: “O que você acha dessas fotos?”
“Acho que elas são iguais, só que uma está virada e tem um aumento diferente do aumento dessa outra foto.
“Agora, leia os títulos dos dois trabalhos, disse-me.” Uma das fotos era da biópsia de Chagas de um doente vivo e a outra era de um estudo de anatomia patológica de Chagas em mortos.
Falou: “Como é que pode a mesma fotografia estar no trabalho do vivo e estar no trabalho do morto?”
Os trabalhos eram do Giovanni Bellotti, protegido do diretor, que tinha 950 trabalhos publicados. Impossível de ser reprovado. Mas o último trabalho do cara era uma fraude. Ele tinha mostrado uma coisa que ninguém tinha mostrado, que um indivíduo com Chagas crônico tinha Tripanosoma vivo no coração. Nunca foi provado isso.
Meu interlocutor se levantou e falou: “A partir de agora, esses trabalhos são seus. Faça o que quiser com eles. Você paga o cafezinho que eu estou indo embora.”
Pensei: isso aqui foi uma montagem. Vi que as revistas que tinham publicado os trabalhos só existiam na Bireme, mas eles tinham o carimbo do INCOR, que tem uma biblioteca.
Fui, então, na biblioteca do INCOR. Achei as duas revistas. Uma era uma Ata Virgiliana de Patologia, a outra era a American Heart Journal. Bom, eu tive de sexta para domingo um inferno de vida. Porque se eu não falasse nada…
Chegou o dia do concurso. A banca se reuniu, os candidatos chegaram e informaram as aulas que cada um pretendia dar. O Giovanni Bellotti informou que sua aula seria sobre Chagas.
Eu pensei, bom, eu não vou falar nada, porque vai que na aula, ele diz: “Olha, cometemos um erro no nosso último trabalho, uma confusão. Estou me redimindo aqui”. Como é que você vai reprovar alguém que publicou 950 trabalhos? É muito difícil.
O Giovanni foi o primeiro a dar aula. A banca se reuniu. Pensei: é agora ou nunca. O Adib estava à minha frente. O Giovanni era seu protegido. Aí eu falei: “Professor, esse concurso não pode continuar.” E o Silvano: “Ô carioca, está acontecendo algum problema? “ E eu: “Tenho que dizer uma coisa”.
“O que é? O que você quer falar?”
“Eu tenho dois trabalhos publicados pelo professor Giovanni. Um trabalho feito com um paciente vivo e um feito com um morto, mas a fotografia mostrada nos dois é a mesma.
Aí o Adib se chateia: “Isso é besteira. Isso é negócio do carioca, não sei o quê”. Na terceira vez que o Adib falou que é besteira, eu falei: “Ô professor Silvano, o Doutor Adib é coautor do trabalho”.
Por que eu falei isso? Porque na Inglaterra todo mundo é autor. Os trabalhos não têm menos de dez autores. Entendeu?
Quando eu falei isso, que o Adib era coautor, o Silvano falou: “Ô quê? O Turcão é coautor dessa fraude? Eu falei: “Não tenho mais nada a dizer”.
No dia da prova de memorial, a banca exigiu que eu fosse o primeiro a falar, porque eu era o mais novo e era de fora. Eu tinha que apresentar isso para o Giovanni. Tudo bem. Eu trabalhei com Chagas, em Manguinhos, com o Laranja, que era o sucessor do Carlos Chagas.
Começei minha arguição falando de Chagas, levantei-me, fui até a mesa do Giovanni e pus os dois trabalhos na frente dele. “Você pode explicar o que é isso?” O cara teve a coragem de dizer: “A gente pediu para o patologista mais fotos. Ele foi obrigado a escrever para o American Heart Journal mandando trocar a fotografia. Bom, ficou um clima horroroso, quando o Silvano Raia foi argui-lo: “950 trabalhos, eu fiz umas contas, você não tem tempo de vida para publicar 950 trabalhos. Você não teria saído nunca do INCOR, teria trabalhado ininterruptamente, sem fim de semana ou ido para casa. Não dá, não dá para ter 950 trabalhos publicados”.
O cara não teve coragem de enfrentar ninguém. Perdeu o concurso, o Ramirez ganhou. Hoje lamento profundamente o ocorrido. Acho que o Giovanni era uma pessoa que merecia ter ganho. Acho que foi muito o impulso da juventude da época. Acho que talvez o Ramirez não merecesse. O Protasio, como era de fora, então, tudo bem.
Eu fiquei mais conhecido do que antes na área do INCOR, na área da UAC.
E aí você já está conhecendo essa ideia. Você trabalhava na Avenida Brasil, não é? Tinha um escritório lá.
LUIZ LIMA: Onde era a Vigilância.
WILLE OIGMAN: A Vigilância Sanitária, não é? Então, eu acabei trabalhando, fazendo consultoria. Viajei muito e tal. E aí você fica conhecido. Você não fica conhecido pela universidade. Você fica conhecido na área de cardiologia pelos congressos.
Você viaja pelo mundo todo, conhece as pessoas. E depois eu consegui mandar muita gente, professores, para fora, para os Estados Unidos, para trabalhar. Porque eu conheci gente em Iowa, em Montreal. Para Montreal, mandei cinco. Para Iowa, dois.
Eu acho que é uma coisa importante. O cara ir para fora e voltar com outra maturidade, entendeu?
Então, em 1989-1990 houve o concurso para Titular da Clínica Médica. A prova escrita foi uma prova difícil, mas que me favoreceu. Caiu um ponto de vasculite, uma coisa assim muito confusa. Mas eu tinha estudado “mecanismo da doença” pelo Robson. Então, eu não fiz uma prova clínica, fiz uma prova meio ciência, não é? Bom, eu ganhei o concurso. Quase ao mesmo tempo, todos os professores de Clínica Médica foram aposentados. Então, quando eu assumi o cargo de Professor Titular, assumi todas as disciplinas. Todas. E os 100 professores do Departamento, o maior departamento da Universidade. E também todas as 10 enfermarias de Clínica Médica ficaram sob minha responsabilidade.
Isso foi em 1990, 1991. Posteriormente, alguns Departamentos da Faculdade foram divididos e outros foram criados, como o Departamento de Medicina Interna e os de Especialidades Médicas. Sob minha responsabilidade ficou o Departamento de Clínica Médica, com 10 enfermarias e 30 professores. Meu maior objetivo foi melhorar o atendimento ambulatorial, o que não foi fácil porque os médicos preferiam ficar nas enfermarias. Depois, foi criado o Ambulatório de Risco Cirúrgico para ajudar a Cirurgia.
Em dezembro de 2019 o Antonio Celso, ex-reitor da UERJ, perguntou-me se eu não queria ser diretor da faculdade de Valença. Eu fui. Fiquei em Valença dois meses e pouco.
A partir de março de 2020 o Brasil parou por causa da Covid. Na UERJ foi criado um ambulatório para acompanhamento dos pacientes que tinham sido internados, no HUPE, com Covid grave. Fui chamado para ajudar. Também participei de um trabalho junto com a Fiotec e a Universidade de Brasília sobre a eficácia da vacina anti-covid. Atualmente estou só nesses dois projetos, ajudando.
Deixa eu falar uma coisa que eu esqueci. Eu criei a comissão de ética do HUPE. Em 1993, se não me engano. E, acredite ou não, ainda estou até até hoje porque ninguém quer assumir aquele troço. São trinta e dois anos.
Então, essa foi a minha vida profissional.