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O que a fez  escolher a profissão de médica?

LUCI

Até hoje não sei. Eu fui a primeira médica da família. Desde pequena, falava para o meu pai que queria ser médica e que ele dizia que não, que eu não seria médica porque os livros de medicina eram extremamente caros e ele não teria dinheiro suficiente. Escolhe uma outra profissão, dizia. E eu teimava que seria médica. E estudava. Gostava de ciências, de filosofia, da parte política, de pesquisar. Eu era muito introvertida, gostava de observar as formigas, a evolução das plantas.

Passei para a Universidade Federal Fluminense. Devido à carência financeira familiar, eu me empenhava muito. Fiz monitorias para poder comprar alguns livros, mas também estudava com colegas, na casa deles. Eu prestava atenção em todas as aulas e não anotava nada, porque se você anota, perde o que o outro está falando. Chegava em casa, estudava, fazia exercícios e, quando não entendia alguma coisa, recorria ao amigo Benjamin. Assim, fui desenvolvendo um sistema de estudo com base no “prestar atenção”, coisa que já fazia desde criança, ao observar a natureza, as pessoas.

Quando ainda estudava no Colégio de Aplicação da UERJ, perguntei a um professor qual o ramo da Medicina que abrange o filosófico, o histórico, as artes, o social e ele me respondeu que era a Psiquiatria. Então, já na Faculdade, fui ao Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, que era do Estado, e tinha um convênio com a Faculdade de Medicina. Foi lá que conheci o que era a Psiquiatria. O sistema ainda era muito rudimentar, de aprisionamento, de alienação dos pacientes, mas o que eu achava legal era poder ajudar, amenizar, de alguma forma, o sofrimento das pessoas.

Minha escolha definitiva pela Psiquiatria foi influenciada por um professor mais velho, extremamente intelectualizado, um cara sábio, que falava da importância da filosofia. Ele era considerado uma referência por outros professores, mas, sendo contra a ditadura militar, era chamado de comunista.

Nessa época da ditadura, era sabido que “olheiros” frequentavam a Faculdade.    Como não se sabia quem era quem, nós, os estudantes, entravamos na paranoia. Professores e pesquisadores de repente sumiam. Alguns fugiram do Brasil. Coisas estranhas aconteciam, mas todo mundo ficava em silêncio. Alguns estudantes faziam discursos rápidos, conflitavam, mas a grande maioria era omissa, alienada ou apoiava os militares. A prova? Sabe qual o nome de minha turma? Turma Garrastazu! Na minha turma, apenas eu e uma outra pessoa tínhamos alguma atividade de oposição. Posteriormente, esta pessoa foi embora para a guerrilha e sumiu.

 

Do primeiro ano da Faculdade, lembro-me de um episódio ocorrido com um professor de bioquímica da família Terra, que a gente chamava de ‘Terrinha”. Eu era a representante de turma e o questionei por que, para uma única prova, nos obrigara a ler seis livros de bioquímica. Para ajudar a turma, porque não tínhamos acesso a todos aqueles livros, passei a gravar as aulas e, à noite, junto com outras pessoas do Diretório Acadêmico, transcrevíamos, mimeografávamos e distribuíamos o conteúdo das aulas para a turma, sem ônus, só para ajudar. Na turma havia um único aluno negro, apelidado de 33 porque na lista da chamada era o número 33. Para sobreviver, ele tinha um emprego de vigilante de caminhão à noite. O Terrinha descobriu que eu estava gravando as aulas e fazendo as apostilas para a turma.  Ele falou: “Olha só, você é comunista, ajudando um negro, e eu vou te reprovar.” E disse mais: “ele (o negro) vai me agradecer porque um médico não pode ser negro”,

 

Durante o período em que estive na faculdade, procurei fazer pequenas coisas pela participação social, mas sem a participação de minha turma. Eu era mais conectada com outras turmas que vinham do movimento universitário, de maior consciência, de maior participação. Mas isto era visto como atividade de comunista. Eu nem sabia disso, até que um professor me disse: “Minha filha, fica um pouco quieta, porque o SNI está procurando vocês, está investigando aqui”.

 

Uma das coisas que a ditadura pretendia era implantar o sistema de créditos na Universidade, porque os alunos deixariam de pertencer a uma turma, dificultando a troca de opiniões e informações. A idéia era “dividir para reinar”. Conseguimos no colegiado, postergar a votação da implementação do regime de créditos.

 

Depois do internato veio a residência, mas o acesso dependia da aprovação numa prova de seleção. O IPUB (Instituto de Psiquiatria da UFRJ) era minha primeira escolha. Eu fui reprovada porque alegaram que eu tinha uma predisposição a transtorno bipolar. Mas o professor Portela, da banca do concurso para a residência de psiquiatria, ficou bem impressionado com o meu currículo porque eu enviava trabalhos que eram aceitos pelas comissões cientificas de congressos. Eu fazia isso para conseguir isenção do pagamento das taxas de inscrição, mas acabei ficando com um currículo muito bom para uma estudante. Mesmo assim, não consegui a vaga. Soube depois que, na realidade, já havia figurinhas marcadas para fazer a residência lá no IPUB.

 

Eu não queria ser professora. Queria mesmo era fazer clínica psiquiátrica. E aí eu soube que no Centro Psiquiátrico Pedro II havia o professor Washington Lordello, que era chamado de comunista. Tinha também o Osvaldo Santos que fez um movimento espetacular para mudar o ambiente psiquiátrico e terapêutico. Eu fui selecionada no concurso e fiz dois anos de residência no Pedro II, paralelamente com a Especialização de Psiquiatria.

No segundo ano da residência eu chefiava um plantão da emergência, um de ambulatório e outro de enfermaria. Eu gostava da emergência. A maioria dos médicos detestava ir na ambulância. Eu vou nessa, era comigo mesmo. Tive arma apontada na cabeça, adaga, um monte de coisas. Não era problema nenhum pra mim. Fiquei presa. Foi uma loucura. Mas eu nunca me isentei de nada.

 

Desde que entrei no Centro Psiquiátrico Pedro II, reparei na presença de pacientes procedentes do pavilhão da Nise da Silveira soltos, delirando, indo pra lá e pra cá. Ela não os medicava. Eu fico muito desconfortável de aprofundar meu comentário porque o pessoal tem outra história da Nise.

 

Nós tínhamos a visão de que os pacientes eram doentes em consequência de uma sociedade doente. Então, fui fazer sociodrama e psicodrama.. Eu levei muito a sério isso, porque era o meu objetivo, fazer psicodrama e sociodrama era por uma questão ideológica.

 

 

Após a resid
Ência assumi a chefia  de uma enfermaria. Eu era um pé-de-boi, gostava de trabalhar e trabalhava igual a todo mundo. Eu gostava do “vamos embora, não quer trabalhar?” “Só consegue acompanhar 5 pacientes? Então, ok, 5 pacientes”. Mas eu queria estar a par do que acontecia com cada um desses pacientes. Eu não queria saber de horário de chegada dos médicos ou funcionários. Isso não me interessava. O que me interessava era o conteúdo, a produção, saber que a pessoa estava atendendo adequadamente aquele paciente, fornecendo prescrição, orientação, se indicou o paciente para apoio terapêutico, se conheceu a família, fez contato com a Assistência Social, se estava atento a possível existência de doença clínica, como diabetes, problema cardíaco, renal, não sei o que. No Centro Psiquiátrico tinha um pavilhão que era só de clínica. Então, os pacientes tinham que ser acompanhados. Eu exigia. Conseguia fazer?

Apesar de minha exigência, quantas vezes as enfermeiras avisaram que os plantonistas não tinham feito as prescrições ou não tinham informado às nutricionistas que o paciente era diabético, ou coisas do tipo? Às vezes, eu ía ao hospital no final de semana, sem avisar, e encontrava a maioria dos meus pacientes de enfermaria amarrados. Porque o funcionário abandonava a enfermaria. Uma paciente, louca, foi estuprada por um funcionário.

Tinha também o problema de desvio e venda de medicamentos. Eu calculava o consumo para todos os pacientes, mas a enfermagem informava ser necessário fazer o pedido de medicamentos para a minha enfermaria. Mandei cada funcionário abrir o escaninho. E chamei a polícia. Tambem era assim na cozinha.

 

Então, comecei a receber ameaças, inclusive de morte. Me chamavam de “rainha” do processo. Eu não tinha medo da morte. Você não tem que ter medo, senão você não faz nada.  Minha vida não vale nada. O importante é o que eu estava fazendo socialmente e alguma coisa que fique. Essa sempre foi a minha preocupação. Alguma coisa, alguma semente em alguma pessoa.

 

Mas as dificuldades nunca terminavam e num belo dia, entra uma tal,  de lá de Brasília, com uma conversa de produtividade. :Em tantas horas, você tem que “bater a cota”, atender os pacientes em 15 minutos, que só voltarão 2 a 3 meses depois. Para mim, isso era demais. Eu ficaria angustiada e me sentiria violentada diariamente.

 

Outras novidades desencorajantes: uma determinada enfermeira que resolveu dar eletrochoque num paciente ou um médico que decidiu prescrever tal medicação e fazer isto e aquilo. E aí eu vinha e pegava. Obviamente, esses médicos se tornaram meus inimigos.

Eu consegui fazer com os pacientes uma coisa que nunca tinha sido feita lá. Consegui esvaziar uma enfermaria de pacientes crônicos internados há 30 anos. Porque os médicos que trabalhavam lá na verdade não trabalhavam, assinavam, ganhavam no final do mês, mas nunca iam.

O paciente estava de alta, mas voltaria daqui a 15 dias. Fazíamos uma caixinha para dar um dinheiro para vir com a família, que não o visitava há anos, para a gente poder adaptar aquele paciente ao meio extra hospitalar e também ajudar a família a aceita-lo de volta.  Fizemos um trabalho tão lindo com esses pacientes que estavam internados há 30 anos. Você pode imaginar? Os pacientes passaram a ser atendidos no ambulatório e vinham às consultas regularmente. Isso não é uma satisfação?

É você acompanhar a evolução do paciente e vê-lo ser reintegrado à família. E aí vem a tal da produtividade e, com ela, você só vai ver o paciente depois de meses.

Como é que você vai acompanhar se só tem 15, 20 minutos para atender o paciente, falar com a família, orientá-los. Por mim, não tinha problema. Eu poderia trabalhar até mais tarde, mas era impossível porque o número de consultórios era restrito e eu precisava liberar a sala para os médicos do outro turno.

Na falta de consultório disponível, cheguei a atender paciente no corredor, na escada.

Para poder atender adequadamente. Eu fazia isso. Mas houve reclamação: eu não podia atender os pacientes sentados na escada. Eu aguentei dois anos e, então, decidi ir embora. O diretor argumentou que manter o emprego era uma garantia para minha aposentadoria e me propôs ficar na parte administrativa. Respondi que não seria administrativa só para garantir. Porque, como se sabe, médicos-fantasmas que não trabalhavam há anos estavam todos lá. Ainda mais com malucos, não é? Ninguém nota. Maluco nunca tem razão. Pedi demissão. E, obviamente, não tive apoio de ninguém.

 

Eu fiz concurso para o antigo INPS. Passei em um dos primeiros lugares e pude escolher para onde ir. Eu escolhi o PAM 13 de maio uma referência psiquiátrica na época. Na verdade, eu só tinha feito o concurso para que a aprovação no PAM 13 de maio constasse em meu currículo. Mesmo assim, resolvi assumir,  mas fui assediada pelo diretor que me disse que eu só ficaria lá se transasse com ele. Coisas como essa vão desmontando a sua mente.

Eu tinha formação em psicanálise desde o primeiro ano da minha residência. Mas eu gostava da psiquiatria, não queria abandonar a psiquiatria.

Eu fiz a psicanálise paralelamente ao meu trabalho. Eu trabalhava como uma condenada para poder manter a psicanálise. Que é uma máfia, tá? Para fazer a formação você tem que consultar-se com o psicanalista cinco vezes por semana durante os primeiros cinco anos. Depois, pode reduzir para quatro vezes por semana e, depois, o número de consultas semanais é reduzido para três. Eu tinha até dois analistas. Um de paciente psicótico e um outro de adolescente. Era o Castelar, Era muito bom. Eu tive bons ensinamentos.

 

LUIZ LIMA

Bom, mas aí você saiu do Pedro II, não assumiu o INAMPS, o INPS, né?

LUCI

Não, isso já foi antes.

LUIZ LIMA

Sim, mas quando você foi chamada lá no PAM 13 de maio, foi por causa do concurso.

LUCI

Porque me interessava, era uma referência.

LUIZ LIMA

Tá bom, mas você não assumiu, você não assinou o contrato, nem nada.

LUCI

Não, não. Ficou só como uma referência, mesmo.

LUIZ LIMA

Porque mesmo com essa história do assédio, você poderia ter dito: “vai tomar banho, eu vou assumir aqui qualquer coisa, vou lá na direção, você me dá outro lugar pra eu ir”. Mas você não quis.

LUCI

Não, não. Porque como eu te falei, eu tinha uma visão lá do Engenho de Dentro. Eu gostava muito do Engenho de Dentro.

LUIZ LIMA

Mas no Engenho de Dentro você também pediu demissão.

LUCI

Depois, foi tempos depois.

Já com essa base psicanalítica e os pacientes não querendo continuar no ambulatório,  no hospital, porque era traumático e tudo., Eu… Quer  saber?

Não tem nada aqui. Eu vou alugar um consultório. ali do outro lado da praça, pra atender os meus pacientes.

LUIZ LIMA

Você ficou somente com o consultório.

LUCI

É. A minha própria analista, começou a mandar analisandos dela, pra eu medicar, outros médicos encaminhando pra eu medicar, gastro, cardio. Então, aí foi, foi vindo. Não só do hospital, mas foi vindo.

Um paciente fala pro outro, não sei o que, e foi assim.

LUIZ LIMA

Toda a situação atual remonta a essa época, de lá pra cá, tem alguns anos que você passou a se dedicar à prática privada.

LUCI

Nesse meio tempo, eu fiz os  cursos que eu queria.

Fiz o curso de ortomolecular quer dizer, brigando sempre com a alopatia, né, de efeitos adversos. Não existia esse leque que tem hoje era um leque muito restrito e com muitos problemas. Então, aí eu fui pra homeopatia, unicista, complexista, pluralista.

Fiz fitoterapia, iniciei depois de alguns anos medicina tradicional chinesa

Porque os professores e os alunos que eu chamava de “fraldinhas” eram recém-chegados, saídos da faculdade. E eu era a única que o professor, todo mundo me chamava de doutora. Caralho! Doutora! Eu não… Eu sou colega aqui, se o professor perguntar, sabe, doutor não sei o que que acha, né, sabe

E aí, depois de algum tempo, eu tomei consciência que a maioria de pacientes, de convênio, fingiam que tinham problemas psiquiátricos pra terem um laudo de maluco.

Os pacientes psiquiátricos de verdade, ou eram particulares, ou poucos de convênio. A maioria eram de 171, de me agredir, de quebrar consultório.

Eu estava grávida, de 9 meses. A mulher entrou, sabe, quebrou tudo. Já aqui nesse consultório. Quebrou, fez show. Outro paciente botou uma arma na minha cabeça. Aí eu falei assim não dá. Não aceito mais pessoas desses convênios.

E cada vez são mais jovens que vêm aqui me buscar, por problemas. Com autodiagnóstico de TDAH, já teve até um autodiagnóstico de demência. Um rapaz de 17 anos alegava estar com demência.

A maioria dos meus jovens são papagaios. E ficam naquela bolha, os pais não podem frustrá-los. Entendeu?

E aí, de verdade, eles nem sabem… São excelentes em Tecnologia, embora, não em raciocinar, em questionar, em criticar, sabe? É uma ausência de vida

Entendeu? E tipo papagaio.

Então, são umas verdades que em termos psiquiátricos, se chama de crenças. Há uma distorção, uma disfunção. E as pessoas acreditam naquilo.

E fica que nem papagaio. Eu vou continuar com os que ‘tão levando a sério. Eu suspendi os convênios.

E foi isso que eu fiz.

Eu não me arrependi de nada. É, incrivelmente, não me arrependi. Faria tudo de novo.

Essa é a minha história.

Uma resposta

  1. O meu professor de Psiquiatria era o Nobre de Melo (uma enciclopédia ambulante,uma sumidade .Pra mim até hoje Insuperável!!!!Quanto ao trabalho do psiquiatra Osvaldo Santos ,ele também tinha o diferencial de trabalho num dos pavilhões do Centro Psiquiátrico do Pedro II ,que era chamado Comunidade Terapêutica.Que como muitas coisas que funcionavam de forma excelente ,foi desativada.Lamentavelmente!!!!

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