YOLANDA CYRANKA
LUIZ LIMA
O que que levou você a escolher essa profissão, medicina?
YOLANDA
A morte da minha mãe. eu tinha 10 anos e mamãe morreu de um câncer de cólon, ela tinha 42 anos.
Os meus irmãos fizeram engenharia porque tinha uma senhora, engenheira, do município, Elza Osborne, muito importante, que praticamente induziu os namorados das sobrinhas a fazerem engenharia.
Mas, com a morte de mamãe, eu resolvi fazer medicina. Sem orientação nenhuma, nada.
Eu estudava na ocasião que a mamãe morreu, no Anglo-Americano, depois eu fui pro colégio Brasil-América e fiz o curso Miguel Couto. Passei no vestibular pra UEG, que escolhi porque tinha menos alunos.
Comecei matando aula de anatomia. Eu não suportava aquele negócio, achava um horror. Consegui mais ou menos passar por aquilo. Aconteceu ali, numa semana de calor, e isso ficou marcado. uma colega, eu não lembro o nome dela, uma moça magra, alta, falou assim:
“Vocês todos são uns deslumbrados.”
Aquilo bateu tão forte em mim. Bateu como se o fato de estarmos na faculdade resolvesse todos os problemas do mundo. Até hoje eu lembro desse fato. Passei pelas cadeiras básicas, e quando fomos para a clínica, antes de começar o terceiro ano, eu viajei nas férias para Nova Iorque. Na viagem de volta, no voo, eu comecei a me sentir mal, com insônia, É claro, eu fui na faculdade e o Celso, que era hematologista, me examinou, um baço enorme, e ele de cara falou: é mononucleose, e me mandou para o Instituto de Hematologia, pensando em um pesquisar alguma outra doença hematológica. Resolveu, com o tempo.
A Lúcia Guimarães, que já namorava o Vizzini, que nessa época estava na Marinha, iam lá em casa me visitar regularmente e ficaram comigo nesse tempo todo, foi muito legal.
Chegou o internato na Sueme, escolhi o Hospital Rocha Maia.
Nessa época eu já estava achando que não era muito a minha praia. Fui para o Rocha Maia, junto com a Célia Pierantoni. e era tranquilo lá
Teve um episódio, quando eu estava lá, que eu morava no Morro da Babilônia. E aí eu fui de ambulância buscar um indivíduo no Morro da Babilônia. E era um bandido baleado. Quando eu desço da ambulância, uma mulher, a mãe grita: Mima – que é o meu apelido- salva o meu filho. O enfermeiro disse: Doutora, está morto. Vamos botar na ambulância e vamos embora.
O Solano, que era o chefe de equipe, disse Não, não pode entrar, não pode entrar, O cara já chegou morto, não pode entrar.
Mas tinha uns colegas, que eu não lembro. Que disseram: Pode entrar. Eu entrei e deixei o morto lá.
Anos depois, fui chamada na polícia. Porque num depoimento, não sei de quem, quando estavam investigando a morte do rapaz, alguém disse que tinham me dado o número da placa do carro de onde tinham partido os tiros. Se eu lembrava a placa do carro.
O internato eu fiz no Pedro Ernesto.
Chegou a residência.
A Célia Pierantoni fez o internato no Bonsucesso e eu fiz no IED.
Fui fazer residência no Bonsucesso. Eu passei na prova do IED e fui falar com Luiz César Póvoa, que era o diretor.
Falei:
– Luiz César, o que é que eu faço? Faço IED ou faço residência?
Ele respondeu que achava que residência “Vai dar mais alguma coisa pra você. Mas, se você fizer residência, no ano que vem você vai ter que repetir a prova”.
E era uma prova difícil do IED.
Bom, eu fiz residência no Bonsucesso e foi onde eu vi pela primeira vez uma hemoptise. Vi um caso de uma leucemia aguda em um paciente que, aonde você espetasse, aquele sangue não parava. Horrível, horrível. Foram coisas que marcaram.
Uma outra coisa que marcou em Bonsucesso foi uma mulher que tentou suicídio. E na hora H, a arma resvalou e a bala cruzou por baixo do couro cabeludo. Dissecou o couro cabeludo e chegou do outro lado. você não via o trajeto.
Voltei pro IED. Fiz a prova e passei melhor do que na primeira vez. Comecei a fazer o IED. Porque eu escolhi endócrino? Porque não tinha plantão.
No IED, tinha um médico chamado Luiz César Naúm, endocrinologista de Niterói, que trabalhava com a questão de crescimento, desenvolvimento e também com pessoas trans. Naquela época.
Gostei daquele negócio. de crescimento, desenvolvimento. Eu gostava muito de hipófise, de supra renal.
Chegaram as férias. Eu pensei: Poxa vida, quando eu terminei a faculdade, eu não fui pra Europa. Quando eu terminei a residência, eu não fui pra Europa. Agora eu quero ir pra Europa.
Decidi passar 15 dias na Europa. Eu ia andar na Europa. Aí, o Naúm chegou pra mim e perguntou: “Você vai ou não a Londres? Então você procura o professor Tanner. Ele trabalha com crescimento, desenvolvimento, hormônio do crescimento. Vá conhecê-lo.
Escrevemos uma carta pro professor Tanner. Pra saber se eu podia visitá-lo lá em Londres.
E ele respondeu: Tudo bem, desde que o seu inglês esteja impecável. Eu… Amarelei, né? Mas fui pra lá. Fiquei na Casa do Brasil, que era um hotel ótimo. Fui lá no Institute of Child Health, conversar com o professor Tanner. Ele me convidou pra acompanhá-lo como voluntária.
“Você conhece o nosso método de medição através dos ossos do carpo. Da idade óssea, essa coisa toda.” E fui ficando, fui ficando. Fiquei um ano lá.
No meio do ano eu fui e voltei do Brasil, e o professor me perguntou:
– “O que você sabe de estatística?
– Nada.
– Ah, que pena, porque… Vai começar um curso de estatística. Introdução a estatística. E… na… Escola de higiene. Mas as vagas acabaram.,
– Você não pode – Eu disse – Ligar pro seu colega, e dizer que eu ‘tô aqui, e que quero fazer esse curso?
Ele ligou e o cara me aceitou no curso.
Eu achei maravilhoso.
Era um curso internacional por três meses. Quando eu cheguei, recebi apostilas. Tinha tudo. Tinha bibliografia, tinha tudo ali. Eu fiz o curso de estatística. Até hoje tenho essas apostilhas.
Eu voltei, e fiz a prova para o INPS em 76.
Voltei pro IED pra fazer o mestrado. Mas era uma coisa muito chata. Era muito primário. As aulas eram na casa de uma professora. Eu entrei para o município, porque meu irmão era do município e soube que estavam abrindo vaga, tinha que ir não sei aonde, chegava lá e perguntavam: “Clínica médica, cardiologia e pediatria”. Era uma fila e você não podia demorar.
O Inamps chamou também nessa ocasião.
Quer dizer, um ano depois, e só tinha vaga em Realengo.
Eu ‘tava danada da vida porque uma outra pessoa que ‘tava na fila e que tinha tirado uma nota inferior a minha foi para os Servidores e eu fui pra Jacarepaguá.
Lá aconteceu também uma coisa. Eu ‘tava no pronto atendimento.
Que era por onde todo mundo entrava, e chegou uma moça. que tinha episódios de amenorreia. Com vinte e poucos anos. Ela sempre ia no pronto atendimento. O pessoal pedia um teste de gravidez. Vinha negativo, ela ia embora. Mas isso era uma constância. E aí, por causa da endócrino, eu comecei a conversar com ela para saber a história dela. Aí o chefe do plantão chegou e falou assim: Você conhece essa moça? Eu falei não. Então termina logo com essa consulta. Porque tem muita gente lá fora esperando.
Quer dizer… Eu não pude orientá-la. É. Isso era frequente.
Consegui sair de lá O Doutor Valdir Nacif que tinha sido da equipe do Rocha Maia e era diretor do PAM MAUÁ, que era em cima de uma boate. Quando você chegava e abriam as portas, era aquele bafo de cigarro que saia.
Eu falei com ele: – O senhor não consegue me trazer pro PAM MAUÁ?
Ele falou: – Olha, difícil. Mas se alguém quiser mudar… Eu lhe aviso.
E conseguiu. Uma pessoa quis ir pra Jacarepaguá. Eu fui pro PAM MAUÁ. Depois o PAM MAUÁ acabou. Fomos pros Servidores. Aí eu saí dos Servidores. Fui pro 13 de maio.
Eu estava no Miguel Couto, na emergência, subi para descansar e um bolsista me chamou.
Eu falei… Ok. Virei pro lado e dormi. Quando acordei… me deu um negócio.
Não quero ficar aqui. Não quero… Vou largar tudo. Porque eu achei… Não aconteceu nada com o paciente. Mas só o fato de eu ter retardado. Não ter visto.
Eu vou largar. Vou fazer economia. Porque na emergência você não acompanha o paciente. Você não tem um retorno. Você não sabe nada. É um horror.
Vou fazer economia. Vou fazer vestibular pra economia. Fui conversar com um economista.
Ele disse: – Você já tem uma graduação e pode fazer uma pós-graduação. Aproveitar e tal.
Só que para entrar numa pós-graduação, não é simples. O que fazer, né? Aí, eu fui viajar.
Fui pros Estados Unidos. Estava eu… caminhando por Miami e quando eu olho um cartaz numa agência de viagem: Cancún. Cancún. Quanto era a passagem pra Cancún? Era barato. E eu fui pra Cancún. Isso em 83.
Fui a Cancún e à cidade do México. Maravilhosa. Amei o México. Adorei o México.
Eu lembrei do Sérgio Koifman e da Rosalina. Que foram pro México.
Havia a Escola de Saúde Pública do México. Mandei uma cartinha, porque naquela época era cartinha. Que demorou, não sei o que. E eles não me respondiam. Eu insisti. Mandei outra cartinha dizendo que queria fazer o mestrado em saúde pública. Eles responderam: “Infelizmente as inscrições já terminaram, mas nós podemos oferecer o curso internacional de Planejamento e Serviços de Saúde.
Tá bom. Tá bom. Eu queria ir embora. Queria largar Miguel Couto. Fui pra lá. Fui com papai.
Fomos pra lá. e ficamos hospedados no centro da cidade, ali. A escola era um pouco afastada. O curso começava na semana seguinte. Eu fiquei e o papai foi embora. Fiz esse curso de Planejamento em 1985. Entrei, depois, pro mestrado em Saúde Pública lá mesmo.
Convenci uma colega minha do plantão para ir e ela foi. Fiz o mestrado em Saúde Pública. Um ano. Eu não queria voltar pro Brasil. Mas não consegui um trabalho no México. Entrei pro mestrado em Epidemiologia. Fiquei lá. Em 1985 teve o terremoto. Aquele baita terremoto do México. Horrível.
Horrível. Esse negócio de terremoto. Tava deitada. Eu não tinha cama, mas. colchão. Minha impressão foi que alguma coisa me empurrou pra fora do colchão. Tava dormindo. Acordei com o negócio.
Aí eu ouço a porta da cozinha bater. Levantei pra ver. Olho a cortina, janela fechada, a cortina batendo
Pensei… É um terremoto. Botei a roupa. Abri a porta. Ia descer pelas escadas. Porque lá tem aviso. Em caso de temblor não use o elevador.
A escada tava ondulando. Pô, eu tava no nono andar. Bati na porta do vizinho em frente. Ninguém no corredor. Só eu. O vizinho abriu.
Eu falei… Tudo bem. Temblor… É… Tá demorando esse pra acabar, né? Eu fui voltar pro apartamento e a chave não entrava, não porque tava ‘torta, mas porque eu tava com a chave errada. Para as pessoas desse prédio, aquilo dali não foi um problema. Tanto é que a mulher tava servindo café pra ele. Me chamaram pra um café. Senta-te , não sei o quê. E ele continuou se arrumando.
Aí acabou. Eu voltei pro apartamento. Vou ligar pra dizer que eu passei por um terremoto.
Não tinha telefone. Não tinha celular, né? Liguei a televisão.
Comecei a ver na televisão. Caiu um prédio e tal. Caiu não sei o quê.
Resolvi ir até a escola, que era próxima, a pé. E cheguei na escola. Um tumulto, aquela gente toda lá. O que é que nós vamos fazer? Fomos pro Palácio Nacional. Aí que eu vi que ninguém tá preparado com uma coisa daquela.
Nós fomos lá como médicos, pra ajudar. E, na verdade, nessa situação, você não precisa de médico. porque você tira uma pessoa de cada vez. Você não tem aquela coisa toda. Aí nós ficamos na cidade.
É um negócio horroroso. Horroroso. Uma cena que me chamou a atenção foi um prédio que parecia um doce de mil folhas. Não tinha janela. Eram só as lajes, uma em cima da outra.
Voltei pro apartamento. Quer dizer, nos ofereceram a escola, Tinha gente de tudo que era canto da América Latina. Bom, tudo bem. A escola tá avisada se precisar.
Uma colega nossa morreu nesse terremoto. Eu voltei pro apartamento. e pedi ao Pepe um colega. “Pepe, você vai dormir aqui comigo. Você vai dormir aqui comigo e tal. O Pepe dormiu lá em casa, quando ele saiu, veio outro tremor. A minha bolsa tava pronta, eu fui embora. Aqui eu não fico. Não fico, vou-me embora. Larguei tudo. Fui pra casa de uma colega que morava numa casa. Ela era da Guatemala. Fiquei lá. Só que várias pessoas foram pra lá. Fui pra casa de outro O trânsito é um horror. Passei uma noite lá, na casa do Ernesto.
Consegui depois me mudar pra uma casa. De vez em quando tinha alguma coisa, mas eu me sentia abrigada dentro de uma casa.
E você se acostumou?
Não acostumava, não acostumava. E aí, bom, na escola… Quando eu estava na escola fazendo o mestrado de epidemiologia chegou um colega da Nicaragua.
Nicaraguanista, Jorge Adolfo Tinoco. Ele era do exército sandinista, médico do exército sandinista. Foi lá fazer o mestrado. Uma novidade pra mim, né? Não conhecia ninguém da Nicaragua, e conversando com o Jorge, ele falou como é que era, como tinha sido o movimento. Essa coisa toda. Foi interessante.
A Revolução Russa já passou. Já foi, né? Já foi. A do México… A do México também foi
Aí, a russa, a do México… Eu falei, acho que no Brasil não vai ter isso.
Eu quero ir pra Nicaragua, pensei. E ele ia levar dois. Um menino mexicano. médico também e a Maria que era basca. Só que a Maria engravidou. Aí eu falei pro Jorge.
Ah, eu quero ir.
Ele me chamou assim: Você é uma chica plástica. Fresca, na verdade. Você não vai aguentar ficar lá.
Mas eu quero ir. Quero ir, quero ir, quero ir.
Ele foi embora. Levou meus papéis.
Eu tava saindo da casa e vieram para lá uns meninos da Espanha, que trabalhavam no Médico Sem Fronteiras num acampamento de refugiados salvadorenses.
Eu falei, eu vou. Eu vou. E vou me acostumando.
Fui pra Honduras. Esse acampamento era em Honduras. Chamado Mesa Grande.
O militar que tomava conta não queria deixar eu entrar no acampamento.
Ele falou:
– Não, você não vai entrar, você precisa de uma ordem lá de Tegucigalpa.
Tá bom. Fui pra Nicarágua. e meus papéis não estavam prontos.
Quer saber, vou voltar pro acampamento. Fui a Tegucigalpa. Cheguei lá no escritório do outro militar que mandava, A secretária disse que, ele não estava. Eu falei:
– Mas eu preciso de um papel pra ir pra lá.
– Quanto tempo você quer ficar lá?
– Um mês.
– Não, a gente não dá pra um mês, que não sei o quê, que não sei o quê.
– Mas por quê? O que é que tem?
Me deram um papel e voltei pro acampamento e fiquei 20 dias. Os médicos franceses, do Medicins San frontiers tudo com livros de doenças tropicais.
Lá a comida era um horror. Faltava água. Não tinha luz.
Você via muitos homens com as costas, com o sharpnel. Aquela coisa que quando… Estilhaços.
As crianças fizeram um livrinho que desenhava o rio que separava as terras deles, vermelho de sangue da mortandade que fizeram lá.
E aconteceu que eu tava perto da casa do barraco desse meu amigo e vejo uma criança com a mãozinha assim, igual ao ”moita”.
Olhei a mãozinha, umas unhas grandes:
– Posso cortar a sua unha?
Ele veio e atrás dele vieram uns 10. numa situação que eu nunca vi.
Triste, muito triste. Moravam em tendas, no calor danado.
A comida, a alimentação eram péssima. Quando passaram os 20 dias e meus papéis na Nicarágua ficaram prontos, eu pensei “Não, preciso melhorar a minha cabeça”.
Fui para o Paraíso, a ilha de Roatan, no Caribe, a coisa mais maravilhosa que tem no mundo. Passei uma semana lá e, cheia de energia, fui para a Nicarágua,
Fiquei hospedada na casa de Jorge, com a família dele, o irmão dele, Vitor Hugo Tinoco, que foi vice-chanceler da Nicarágua. O Vitor Hugo recentemente foi expulso pelo Ortega, para os Estados Unidos. O Jorge conseguiu que eu fosse para o Ministério da Saúde, no nível central, Primeiro eu fui para a cidade de Esteli para uma unidade de saúde que tinha um hospital perto. Em Esteli, aconteceu um ataque dos contras, e eu fui ao hospital. Nunca tinha visto isso. Oito mortos embrulhados, uma cena horrorosa. E era assim na Nicarágua, sem banheiro, sem água, sem luz, sem transporte, comida, não tem nada. Falei:
– Tá vendo, você dizia que eu era fresca, mas eu tô aqui.
Esteli era uma área de conflito, tinha contras, mas junto com um pessoal eu consegui entrar num lugar que tinha um certo domínio dos contras, para fazer uma campanha de vacinação. O pessoal todo, morrendo de medo, porque primeiro o exército tinha que ir na frente para pentear, como eles diziam, pentear a área, para você passar, Muita pobreza, mas o que eu aprendi com as pessoas de lá é que as pessoas iam trabalhar, entendeu, não tinha papel para escrever, não tinha calculadora, era tudo, assim.
Conheci o pai do meu filho, que era médico do exército, do Ministério do Interior, meu filho nasceu na Nicarágua, Nicaraguense. É nica, nasceu na Nicarágua e depois eu fui para o nível central, mas eu assim, grávida, pegava ônibus com o pé desse tamanho. Andei na Nicarágua trepada em ônibus não sei quantas caronas, um negócio assim. Eu fiquei lá, meu filho nasceu e quando o Ortega perdeu as eleições, eu vim para o Brasil, e cheguei uma semana depois do confisco do Collor.
Meu filho nasceu em oitenta e oito, e quando completou um ano viemos para cá. Não tinha trabalho. No Inamps deram abandono de emprego.
No Inamps eu saí com licença remunerada. eu tinha que ter voltado a Brasil depois do período, só que eu fui para a Nicarágua. E no município perderam o meu processo.
Eu querendo trabalhar. E não tinha trabalho.
No Inamps o médico que tratava deste negócio fora da UERJ, eu não sei o nome dele. Ele largou a medicina e foi fazer direito. Ele me orientou e falei que, realmente não tinha interesse em abandonar. e o município perdeu o meu processo. Não está no arquivo, não está no Miguel Couto, não está em lugar algum. Apelei para o secretário de administração que na ocasião era o Jonas Baiense de Lira, cunhado da minha cunhada:
– Jonas, eu quero voltar pro trabalho.
– Vou ver o processo.
– Jonas, não tem processo. O processo se perdeu.
Ele me deu reassunção em caráter provisório. Até eu me aposentar eu fiquei em caráter provisório. Mas me aposentei normal.
Fui pro Miguel Couto e voltei pro Bonsucesso, mas antes de Bonsucesso fui pro nível central. No nível central quem era da nossa turma que eu trabalhei junto foi a Marisa Grimmer.
Fui pra Bonsucesso quando o diretor era o Vitor Grabois, fiquei no planejamento em Bonsucesso e na emergência no município.
Eu voltei pro município, mas fui pra epidemiologia e lá fiquei, mas voltei pro Miguel Couto, Rocha Maia, aquele negócio todo em emergência. Eu não tinha mais satisfação nesse tipo de trabalho fui pro planejamento com o Vitor. “Eu quero sair, quero sair, quero sair, mas falta pouco”.
Eu detesto essa situação você não sai porque daqui a pouco você está se aposentando. Não interessa eu não estou satisfeita.
Fiquei no Rocha Maia um tempo e voltei para o Miguel Couto quando aconteceu aquela história fantástica e eu fiquei muito deprimida pois era chefe de equipe substituta, porque o chefe mesmo estava de férias.
Eu recebo o plantão e tem lá no livro do plantão uma ordem judicial para colocar aquele paciente na unidade intensiva. O município tinha que se virar para conseguir, se não colocasse ia ter uma multa. Eu fiquei muito chateada porque aquela ordem tinha chegado uma hora da manhã e o colega chefe de equipe dormiu entendeu? Botou no livro e dane-se. Eu já tinha visto esse paciente no plantão anterior, ele estava lá e ele tinha feito uma parada e estavam recuperando o paciente então era um paciente muito grave.
Bom, procurei e achei um lugar na unidade coronariana que é um CTI cardiológico e falei:
– Olha, tem uma ordem judicial para um paciente. Aí tem quatro leites três vazios. Posso trazer esse paciente para cá?
O colega concordou. Já eram quase onze horas da manhã, a minha sorte foi que eu falei para o colega escrever a hora que o paciente chegou, as condições que ele chegou, como ele chegou, escreve tudo, tudo, tudo, tudo e o colega escreveu.
Chega a irmã do paciente, desesperada e com razão.
Eu falei:
– Ele está na unidade coronariana.
Ela chegou na unidade coronariana e disse:
– Não é CTI.
– Minha senhora o que caracteriza CTI é isso, isso, isso, e é isso onde ele está. Só tem outro paciente com ele, tem um médico, tem toda uma equipe lá dentro, tem todos os recursos lá dentro e é em frente ao CTI, quer dizer, é um CTI cardiológico.
– Mas não é CTI. Está escrito unidade coronariana”
– Vamos até lá.
Ela entrou o paciente estava lá mal, super mal, e falou:
– Quero que o transfiram para o Copa d’Or.
– Minha senhora, não tem necessidade de transferir para o Copa d’Or, A ordem judicial diz que é para colocá-lo num leito intensivo Eu não vou transferir, ele está num leito intensivo eu cumpri a ordem judicial
– Mas eu quero ir para o Copa d’Or. Você vai se ver comigo
– Tá bom
Ela foi novamente no juiz e trouxe um oficial de justiça com uma ordem judicial
– A senhora tem essa ordem judicial aqui, a ordem anterior foi cumprida, mas essa é a ordem nova se não cumprir a senhora me acompanha à delegacia
Já era umas 3, 4 horas da tarde, fui para aquela delegacia que tem ali na Afrânio. Flashes e o pessoal perguntando aquela coisa toda e eu tentando dar meu depoimento. Falei tudo que tinha acontecido e tal e o delegado, que era um idiota um completo, não sabia o que fazer, porque com a mídia toda cobrando dele também né? Eu avisei meu sobrinho tenho dois sobrinhos, dois advogados, um trabalha na procuradoria do município:
-Olha, eu estou aqui presa.
Mas a minha preocupação era com meu cachorro. Meu filho nessa ocasião estava no Canadá. Aí, como é que é, como é que não é, o meu sobrinho foi lá, o delegado chegou e disse, a senhora tira o jaleco.
= Eu não vou tirar o jaleco não.
Chega o diretor do Miguel Couto, chega o secretário de saúde o Jacob Kinglerman. Ele nunca tinha me visto, mas sacou logo qual era o problema, Veio o chefe dos bombeiros o Samu que tinha que fazer o transporte. Saiu na televisão saiu em todo lugar e eu fui embora mas fiquei sabe, é muito ruim, você não tem uma assessoria específica.
Por uma semana eu fiquei sem ir ao plantão por causa daquele negócio todo.
Voltei e fui chamada na delegacia e queriam que eu pagasse mil reais para que fizessem um acordo para o promotor não apresentar queixa ao juiz.
– Eu não pago
– Mas o juiz pode lhe coordenar
– Se ele me coordenar, vai cometer um erro. Eu não pago, não vou pagar
O juiz não aceitou a denúncia
O bombeiro levou o paciente para o Copa d’Or e eu nem me lembro se ele morreu ou se sobreviveu.
Eu já tinha saído de Bonsucesso e estava no Instituto de Cardiologia. Fiquei lá no planejamento e com o faturamento. Quando veio a pandemia, eu sou hipertensa, tirei licença. Veio uma ordem do Ministério dizendo que quem trabalhava em serviço e não dava assistência poderia voltar ao trabalho, Aí pedi aposentadoria.
Agora, teve um tempo que eu fazia um ambulatório como voluntária lá em Caxias e aconteceu uma história trágica. Chegou uma mulher e disse:
– Eu preciso de receita de Rivotril, diazepan qualquer coisa assim”
– Por que a senhora precisa de uma receita de Rivotril? Conte a sua história, o que aconteceu?
Resumo da história. A mulher tinha perdido 3 filhos, que eram bandidos,
Eu falei:
– Quantas caixas?
Não perguntei mais nada entendeu?
Eu não sabia que nessa ida à Nicaragua, o Jorge tinha razão. Eu era uma pessoa daqui da elite.
Isso eu aprendi na Nicarágua aquela pessoa que mora no Xerém pega não sei quantas conduções e está aqui para trabalhar na zona sul. Essa pessoa tem todo o mérito do mundo porque eu não faria um negócio desse. Até faria porque é a necessidade que impele o indivíduo. mas é uma crueldade um negócio desse.