Você gostaria de falar conosco?

Como você decidiu pela profissão de médico?

 

LUIZ MAURÍCIO

Acho que desde pequeno eu tive essa ideia na cabeça. Desde que tenho memória, nunca encontrei nada interessante, fora da medicina. Nada que tivesse me atraído. Não sei por quê.

 

LUIZ LIMA

Como foi o seu começo nesse mundo da medicina?

 

LUIZ MAURÍCIO

Quando fiz o vestibular, a UERJ foi minha primeira opção.  Escolhi-a por influência de um primo da minha mãe, cirurgião, que idolatrava a UERJ, onde se formara.

No terceiro ano, quando começamos na clínica, passei a dar plantão na maternidade de Bonsucesso. Lá conheci pessoas muito legais, bons profissionais, acolhedores. Fiquei por lá durante um bom tempo. Lembro-me de um cirurgião geral que dizia que não fazia partos normais, que só intervinha em casos de cesáreas. Depois de certo tempo, passei a entrar nas cirurgias dele, como um quinto auxiliar mesmo, no campo cirúrgico. Como eu tinha um problema de vista, num determinado momento, meu oftalmologista me perguntou: “O que que você vai fazer da vida?” Não sei, respondi. Estava pensando em fazer cirurgia. “Então faz cirurgia grande. Porque na cirurgia pequena, você vai ter dificuldade de enxergar”. Compreendi que meu prognóstico era enxergar pouco. E parti para o lado da Clínica Médica.

No Pedro Ernesto, começávamos colhendo a história clínica dos pacientes. Ficávamos na beira do leito, acompanhávamos os doentes, mas você não era o médico, não era responsável por eles. Era estudante. Como eu queria vivenciar um pouco mais da vida prática de médico, fui ver como era a medicina fora da faculdade. Imagino que alguns colegas também tenham ido. Cada um para um lugar diferente.

Fiz o concurso da SUSEME. Escolhi o Hospital Carlos Chagas, no dia do plantão do Fernão e do Dino, professores de Clínica Médica da UERJ.

Na época, nos plantões da SUSEME, era clínica pura. Não tinha nenhuma tendência de especialização. Então, dei plantão na SUSEME por causa disso: estava com professores da UERJ, no emprego público deles, que me ensinavam enquanto eu atendia os doentes. Era muito legal.

Depois da SUSEME, fiz residência na UERJ, em Clínica Médica. Durante a residência, aproximei-me do professor José Manoel Jansen, da Pneumologia. Jansen dava mais atenção aos alunos e foi com quem tive maior afinidade.  Por isso, acabei ficando na Pneumologia.

O Jansen era médico do Corpo de Bombeiros. Um dia, ele me disse: “Vai ter um concurso para médicos dos Bombeiros. Você não quer fazer?” Eu estava quase terminando a residência. Tinha que tomar alguma atitude. Na UERJ, parecia não haver nenhuma possibilidade de eu ficar. No final de 1976, fiz o concurso e passei. No início de 77 já era primeiro-tenente médico do Corpo de Bombeiros, onde fiz carreira. Pouco depois, consegui um emprego de médico do Ministério da Saúde. Era colega de trabalho do Wille Oigman. Consegui, também, uma vaga para trabalhar no CTI do. IASERJ, que já foi extinto pelo governo do Estado.

Quando houve a fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio, as estruturas administrativas também se fundiram e o Corpo de Bombeiros teve que fazer o mesmo.

Houve um concurso para interiorizar os médicos bombeiros. Eu fiz esse concurso e acabei caindo em Niterói. Aproveitei para fazer o mestrado em Pneumologia na UFF.

Nessa altura, eu tinha quatro empregos e um mestrado em curso, com o professor Aluísio de Paula. Fiquei no quartel de Niterói até conseguir ser transferido para o Hospital dos Bombeiros, no Rio Comprido.

Por volta de 1980, o Corpo de Bombeiros enviou um grupo de 20 oficiais à Alemanha, numa viagem de estudo. Eu entre eles. Visitamos quarteis de várias localidades, para ver como funcionavam e eu me interessei pelas atividades voltadas para a saúde dos bombeiros, que não tinham nada a ver com o que fazíamos. Aqui no Rio, tínhamos (e temos ainda) um hospital que atendia os bombeiros e seus familiares, o que não existia por lá. Nossas ambulâncias serviam para fazer o atendimento inicial dos bombeiros machucados. Davam apoio à tropa. Era assim que funcionava. Mas lá, não. Os quartéis tinham todo um sistema de ambulâncias para atender à população, em situações de emergência e tal, que a gente não tinha. Isso foi a grande novidade que eu vi por lá. Quando voltei, fiz um relatório descrevendo como os bombeiros de lá funcionavam, relatório este que foi engavetado, como acontece com qualquer relatório.

Em 1984, eu estava em Nancy, na França, fazendo um estágio no Centro de Fisiopatologia Respiratória do Professor Sadoul, quando recebi uma carta de um dos oficiais do Corpo de Bombeiros que fora comigo na viagem à Alemanha, dizendo que os bombeiros iam montar um serviço de ambulância para atender a população, nos moldes do que tínhamos visto. Dizia também: “Vê tudo que tem por aí, além da pneumologia porque, quando você voltar, vamos montar isso aqui. É um desejo do governador. O Brizola vai montar esse negócio aqui”.

Voltei para o Rio em 1986, com toda informação que pude obter. Apresentei-me tanto no Ministério quanto ao comandante dos bombeiros, que me disse: “Olha, você vai ficar lotado aqui, no meu gabinete. Vai ser meu assessor para montar esse serviço”.

Dois médicos bombeiros, o Milton Morais e o Raimundo Oliveira, já vinham trabalhando nessa ideia e o comandante disse: “Você vai se agregar a esse grupo. Você está vindo de fora e viu tudo. Vai organizar esse brinquedo.  Vamos montar o serviço e já tem data para inaugurar. É daqui a cinco meses”. Eu perguntei o que ele já tinha e ele respondeu que não tinha nada, só a ideia.

Era preciso organizar um concurso, comprar as ambulâncias, montá-las, fazer um protocolo operacional, enfim tinha que fazer tudo. Foram seis meses só fazendo este serviço e mais nada. Eu acordava, ia lá no Ministério da Saúde e voltava para o gabinete. Ficava estudando as possibilidades, reunindo com os bombeiros, dizendo o que achava, eles colaboravam, enfim, uma negociação e aí, ao mesmo tempo, montando o concurso, comprando ambulâncias. Nós três, basicamente, tocamos tudo.

O Milton, o mais antigo, fazia a política e eu e um colega lá do hospital montamos o serviço, que foi inaugurado em junho de 1986 e se chamava Grupo de Socorro de Emergência (GSE), que começou a funcionar meio no improviso, no tapa. Minha sala ficava ao lado da sala do comandante, lá no quartel central, mas, tivemos que sair dali. Fomos, então, para um porão, no quartel da Praça da República. Aí, num sábado, o comandante nos disse: “Olha, vocês, a partir de segunda-feira,  vão trabalhar no CONCEA. “Lá vai ser bom, é grande, vai ter lugar para as ambulâncias, tem tudo lá.” Fomos Tivemos que incorporar, ao Corpo de Bombeiros, um prédio, que era uma pocilga.

O serviço começou a funcionar com uma lógica diferente da que havia até então: um serviço formado por médicos, gerenciado por médicos, mesmo sendo do Corpo de Bombeiros. Tínhamos o apoio do comandante. Todos trabalhavam com liberdade dentro do que se queria fazer.

O principal problema que tivemos foi com os hospitais da rede pública. Tanto da secretaria de saúde estadual quanto municipal, que foram contra. Isso porque os pacientes, a quem as ambulâncias dos bombeiros prestavam atendimento de emergência nas ruas, eram levados para os hospitais públicos, que passavam a ser responsáveis pela continuidade do tratamento. Na verdade, éramos um corpo estranho. Até então, os bombeiros não tinham nada a ver com a saúde, não é? Então, o GSE passou a ser um problema e não uma solução, como nos disse um diretor do hospital: “Os doentes morriam na rua. Agora, vocês os trazem para cá, doentes graves pra caramba, nos dando um trabalho do cão e enchendo o hospital. Receber três, quatro baleados por dia, é um problema!”.

Passamos a ter vários problemas, como conflitos com os plantonistas, com os chefes de plantão. Escondiam as macas para dizer que não tinham maca para receber os doentes. Diziam que não tinham leitos disponíveis…

Começou a melhorar um pouco quando passamos a fazer churrascos em que reuníamos os médicos da ambulância da 2ª. feira com os chefes dos plantões dos hospitais da 2ª. feira, e assim por diante. Eles começaram a se conhecer pessoalmente, o que é uma coisa que funciona muito no Brasil, o contato pessoal. Então, os caras começavam a se conhecer e foi sendo criado um clima de amizade, de cordialidade.

Fizemos isso por algum tempo.  Churrasco de segunda, churrasco de terça, de quarta, e por aí vai. Nos churrascos sempre rolavam discussões médicas.

Outra coisa que também ajudou foi que médicos dos bombeiros começaram a trabalhar nos hospitais de emergência. Eles recebiam os pacientes que as ambulâncias dos bombeiros levavam porque, num outro dia, seriam eles que precisariam que os pacientes que transportavam fossem aceitos. Aos poucos, a animosidade foi sendo quebrada, tornando possível a execução de um trabalho conjunto, mas no início foi bem duro.

O sistema de atendimento pré-hospitalar no Brasil começou com o GSE. Com o tempo, passamos a ter certa projeção, o que nos ajudou bastante a evoluir, a conquistar coisas que independiam da verba do Corpo de Bombeiros. Quem mais fez doações foi a esposa do governador Marcelo Alencar, que era uma incentivadora. Como ela tinha uma coisa com a Caixa Econômica – o Fundo de Apoio Social – conseguimos renovar as ambulâncias, credenciar o serviço no SUS e passamos a receber por atendimento prestado. O dinheiro que recebíamos era, obrigatoriamente, usado na saúde. Não podia ser usado pelo Corpo de Bombeiros para comprar mangueiras, por exemplo. O que a Secretaria de Saúde nos pagava era usado para equiparmos as ambulâncias. Havia também dinheiro da lotérica, aquele da raspadinha.

Conseguimos uma sede decente para o GSE, no quartei da Praça São Salvador. Lá tinha o espaço de um campo de futebol que tinha virado um estacionamento. Negociei com o comandante do quartel para ceder aquele espaço para construirmos o prédio sede do GSE, que ficou lindo.  O Marcelo Alencar foi à inauguração. O prédio era padrão internacional, tinha tudo: sala de aula, manequim de treinamento, auditório, tudo.

A coisa foi evoluindo bem até seis anos depois, quando começou o SAMU de hoje.

O SAMU foi iniciativa do governo federal do Brasil. O Rio de Janeiro, os governantes, tanto estaduais quanto municipais, não queriam o SAMU. De jeito nenhum, porque já tinham o atendimento prestado pelos bombeiros, que funcionava muito bem.

A implantação do SAMU representava uma aporrinhação. Implicava em nova logística, no gerenciamento de pessoal, de procedimentos, das ambulâncias, de processos, tudo. E ainda havia o problema policial que, no início, nos atrapalhou um pouquinho. A maioria dos atendimentos que fazíamos era de casos policiais: atropelamentos, acidentes, baleados, que geravam processos na justiça. O juiz queria saber como o cara tinha sido encontrado, que tipo de lesão sofrera. Os médicos tinham que depor. Isso criava um problema, porque o médico estava trabalhando e tinha que largar o trabalho para depor. Consegui negociar com a Justiça a substituição dos depoimentos dos médicos pelo envio dos boletins de atendimento.

 

LUIZ LIMA

Qual era a sua posição hierárquica dentro desse sistema?

 

LUIZ MAURÍCIO

Quando começou, eu era o subcomandante, o Milton era o comandante,

O início do GSE foi em 1986. Então, por vários motivos fortuitos, voltei a morar na França de 1988 a 1990. Foi nessa época que aprendi o que era a Medicina de Desastre e acabei me especializando nisso.

Eu estava no hospital, trabalhando em Paris, quando vi um cartaz da Universidade de Amiens oferecendo um curso em Medicina de Desastre.

A Medicina de Desastre implica na atuação dos profissionais que prestam socorro em casos de acidentes com múltiplas vítimas e tem uma lógica completamente diferente da atuação frente a acidente com poucas vítimas.

O curso era semipresencial e foi nele que tive aulas com um sujeito de quem sou amigo até hoje, que era o comandante médico do Corpo de Bombeiros em Paris – o Henri Julien.  Manifestei meu interesse em conhecer como funcionava o atendimento prestado pelas ambulâncias de Paris, ao que ele respondeu: “Então vá lá, eu posso hospedá-lo.”

Em Paris, descobri que os bombeiros tinham um curso chamado “Comandante de Socorro”. Era um curso para a formação dos profissionais que comandavam esse tipo de evento e oferecia duas vagas para médicos. Eu disse que queria fazer o curso, ao que ele respondeu: “Esse curso é só para quem é do Corpo de Bombeiros de Paris. É um curso interno. Não dá para você fazer, mas você pode assistir às nossas reuniões”.  

O tempo passou e então, numa sexta-feira, ele me ligou de Paris, e disse: “Olha, uma das pessoas que ia fazer o curso faleceu. Eu conversei com o general comandante dos Bombeiros de Paris (que pertence ao exército) e falei de você. Ele topou abrir uma exceção. Você pode fazer o curso, mas tem que estar aqui na segunda feira”. Foi assim

que consegui fazer o curso, que era para oficiais superiores dos Bombeiros de Paris.

Essa foi a novidade que eu trouxe quando voltei ao Brasil, no início de 1991. De minha primeira viagem eu trouxe a informação da utilização das ambulâncias. Da segunda, a estratégia do atendimento nos acidentes com múltiplas vítimas.

Começamos a discutir essa novidade no Corpo do Bombeiros e a montar, dentro do GSE, uma estratégia para atender grandes acidentes, que implicava numa outra logística, numa outra estratégia, em outro tipo de material, na integração completa com o pessoal combatente, com os policiais. Porque todo mundo trabalha junto durante esse tipo de atendimento. Havia muita coisa a ser feita. Montamos a proposta de um curso de formação voltado para o atendimento a vítimas de desastres e começamos a ministrá-lo. Com o tempo, criamos o Colégio Brasileiro de Medicina de Desastre e Catástrofes, do qual fui presidente por dois anos.

Mas, voltando à sua pergunta sobre qual era minha posição hierárquica dentro do GSE, quando voltei para o Rio, no início de 1991, um dos oficiais com quem eu viajara para a Alemanha, nos anos 80, era agora o coordenador da defesa civil do município do Rio. Ele solicitou minha liberação ao comandante do Corpo de Bombeiros e fui trabalhar, durante um ano e meio, na defesa civil do município. Nessa época, o diretor do GSE era o Provenzano, que, além de médico do Corpo de Bombeiros, era professor da UERJ.  O Provezano dizia: “Eu não quero isso aqui, cara. O Corpo de Bombeiros, para mim, é só um emprego, como um outro qualquer. Quando for promovido, vou embora”. E assim ele fez. Então, o comandante me chamou e disse: “Agora é a sua vez”.  E foi a minha vez de assumir o comando geral do GSE, no início dos anos 90.

Durante minha gestão, consegui algumas coisas para os bombeiros. Por exemplo, a construção do prédio do GSE ocorreu durante minha gestão. Outro: quando o ministro de Saúde era o Jatene, convidei-o a nos visitar, na sede do GSE, quando viesse ao Rio. Ele veio e aí eu fiz uma apresentação do serviço. Ao término, perguntou: “De que vocês estão precisando?” Eu respondi: “De um helicóptero. Nós só temos um e quando este sai, para algum atendimento, não temos nenhum”. Então vai lá em Brasília, que eu vou arranjar um para vocês”. Eu fui e ele comprou um helicóptero.

Fiquei como gestor do GSE até o início do governo do Garotinho, que mudou toda a política. Mudou todo mundo. Saí da direção do GSE, mas fiquei na assessoria do comandante do Corpo de Bombeiros por um tempo, encostado. Estava chegando ao final da minha vida profissional.

Conheci o Antônio Werneck via GSE, quando fazíamos reuniões com a prefeitura. Quando ele estava na Secretaria de Saúde do município, ajudou bastante os bombeiros. Ao assumir a direção do IVB (Instituto Vidal Brasil), convidou-me para trabalhar com ele. Na época, o Sérgio Cabral, governador do estado, tinha o discurso de querer proteger a terceira idade, coisa com que nenhum governador, até então, tinha se preocupado. Já existia um projeto de organizar um Centro de Geriatria. Quem tocava o projeto era o Calache e um professor da UERJ, de que esqueci o nome, mas o projeto não andava. Então, o Sergio Cortes, secretário estadual de saúde, decidiu atribuir ao IVB a missão de criar esse centro de geriatria. O Werneck então me chamou e disse: “O governador está querendo criar esse negócio e o único cara que tem capacidade de tocar isso aqui é você”. Respondi que, de geriatria, eu só entendia da minha, mas ele insistiu.

Fui, então, designado para o serviço de geriatria que estava sendo criado e montamos o ‘Centro de Estudo de Pesquisa do Envelhecimento’ pelo IVB, num prédio na Gávea, que fica perto da PUC, que hoje é da secretaria de saúde.

Mas, em vez de montar um serviço de ambulatório, em que sempre haveria filas para o atendimento e que não daria conta dos idosos do Rio de Janeiro, pensamos em criar um serviço piloto, em que trabalhariam diverso especialistas necessários para um bom atendimento de idosos: clínicos, geriatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, nutricionistas, todo mundo mesmo, um time só.  Os velhinhos iriam pra lá encaminhados pelas Clínicas de Família e seriam examinados por todos os profissionais. No final, eles teriam uma avaliação global, o diagnóstico do problema que os afligia. Prepararíamos, então, um relatório e devolveríamos o paciente para o médico que nos os havia encaminhado.

Eu me esqueci de falar que esse modelo de atendimento não é meu, mas sim de. duas pessoas muito importantes do grupo. Uma delas é o Jérson Laks, psiquiatra da UFRJ e da UERJ que aceitou o convite de gerenciar o serviço. A outra, a Marisa, que é uma excelente médica, que foi gestora lá do Hospital de Cardiologia. Uma infectologista de base, mas que começou a fazer gestão de processos.

Ao tomar conhecimento do modelo de atendimento proposto, quis saber onde ele já tinha sido aplicado. Descobri um serviço em Belo Horizonte, que funcionava nesses moldes. Fizemos contato e eu fui pra lá. Minha intenção era ficar um dia, mas acabei passando uma semana vendo como tudo funcionava. Exatamente nos moldes que um teórico tinha descrito, o que era maravilhoso. Voltei e montamos o serviço.

Como disse, trabalharíamos com os Médico da Família. Na época, o Daniel Soranz era o responsável. Mostrei-lhe o projeto, que disse ter gostado muito. E perguntou com quem e onde eu queria trabalhar. Eu disse que queria trabalhar com a Rocinha porque é perto da Gávea, onde ficava o ‘Centro de Estudo de Pesquisa do Envelhecimento’. O Daniel comprou a ideia e mandou o projeto para as três Clínicas da Família que existiam na Rocinha. Conversamos com os médicos, explicamos como é que ia funcionar, qual era o objetivo.

O Centro de Estudo de Pesquisa do Envelhecimento funcionou por mais ou menos dois anos e meio. Muitas coisas interessantes foram ali detectadas. Por exemplo, o problema de um determinado paciente era seu filho, que levava todo seu dinheiro. Ou que batia nele … Os pacientes contavam esse tipo de coisa para a assistente social, que conseguia tirar deles as informações que eram importantes. Para os médicos, diziam que tinha dor na perna, dor na coluna, pressão alta…

O Centro foi tomando cada vez mais corpo. Resolvemos, então, criar um curso para acompanhantes de idosos. A ideia era fazer a capacitação dos acompanhantes de nossos pacientes. Porque os velhinhos tinham um filho, uma filha que os acompanhava, mas que não sabiam nada das necessidades dos velhinhos, de como alimentá-los, como ajudá-los a se levantar da cama e tudo mais. Oferecíamos um curso básico de um dia e, quem gostasse, fazia um curso melhor. A idéia vingou a tal ponto que a Secretaria de Estado sugeriu: “Porque vocês não fazem um negócio desse aí também com as enfermeiras do estado?”.

Começamos, então, a trabalhar com a enfermagem. A sala de aula não parava. Ensinava-se a dar banho, a trocar fralda, tudo.

Como disse, funcionamos durante dois anos e meio, com o apoio do município e fomos ficando cada dia mais fortes. Apresentamos trabalhos em congressos, levando nossa experiência com esse modelo de atendimento. Até que, num determinado dia, mudou a Secretaria no Rio e assumiu um novo secretário. O Doutor Luizinho assumiu dizendo que a Secretaria gastava demais e que tinha que fazer economia. E ele resolveu que o nosso serviço era dispensável e o desmontou. Desmontou até o  prédio. O Centro de Estudo de Pesquisa do Envelhecimento tinha dois auditórios, montados com o dinheiro do tribunal. A Secretaria pedia o nosso auditório para a realização de Congressos, tal o padrão. Um dia, fui lá em Nova Iguaçu, no prédio do almoxarifado, e encontrei todas as cadeiras do auditório, novas, jogadas. Encontrei, também, a placa de inauguração do Centro. Eu a peguei e levei para casa. Está lá, guardadinha.

 

 

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