Você gostaria de falar conosco?

JANE DUTRA SAYD

 

O que que levou você a escolher essa profissão de médica?

 

 

Olha só, eu não escolhi medicina exatamente, eu não queria fazer nada. Eu tinha o horror, a ideia de que eu ia ter que trabalhar, que a partir dos 18 anos eu não ia mais ter nada divertido na vida, eu ia fazer que nem meu pai e minha mãe, que era uma tragédia. Acorda, faz a mesma coisa todo dia, vai trabalhar, volta desgastado, cansado, esgotado, vê uma novela na televisão, vai dormir.

E eu tinha pavor disso, essa vida é muito triste, é uma desgraça. E eu queria ser hippie, sair pelo mundo, e não gostava muito de conversar. Eu era uma pessoa pouco falante, eu lia demais e falava pouco.

E falei, vou fazer, já que eu tenho que me encher em algum buraco, eu vou me encher no laboratório de pesquisa, ninguém vai me aborrecer. Então eu queria, eu estava preferindo bactérias e vírus a pessoas, digamos assim. Não estava querendo muito contato com gente, não.

Vou fazer biologia. E aí eu recebi conselhos unânimes, tipo, com diploma de biólogo, você não existe. Você tem que terminar a medicina e depois escolher o que você quiser, que você tem muito mais liberdade.

Falei, tá bom, então vamos nessa, diabo, medicina. Mas eu vou fazer, eu vou estudar bioquímica. Eu descobri que eu não sabia estudar e que eu passei no vestibular porque eu lia muito. Eu não sabia estudar. Quando começaram aquelas 200 páginas por semana disso, mais 200 daquilo, eu dancei.

Ia com a ideia de fazer pesquisa, mas aí eu tive uma aula com o Moisés Szklo. A primeira palavra que me veio às orelhas, que ele disse, que me pegou, foi medicina preventiva.

E eu fui para casa e li alguma coisa sobre isso porque eu tinha uma tia-avó que era diretora de escola, era erudita. Ela tinha dicionários latinos, dicionários de inglês, livros de história do Brasil e tinha um livro sobre higiene do Afrânio Peixoto, que é uma raridade. “Tratado de hijiene” com J. E lá diz uma coisa que alguém depois disse para nós, acho que deve ter sido Nelson de Moraes, o tratamento de um tetânico custa a grana suficiente para vacinar 100 mil gestantes de tétano.

Aí falei, não, eu não quero fazer essa coisa de medicina, vamos ver que diabos é essa coisa de medicina preventiva. E me interessei, numa época em que eu me interessava por política e tinha rolado o AI-5 e eu entrei para a faculdade, foi o dia mais triste da minha vida até aquele momento, porque eu entrei para a universidade. Eu ia discutir coisas ótimas, eu ia ver filmes incríveis, ia ter uma bibliotequinha de estudantes, os estudantes iam conversar comigo, eu ia ter professores maravilhosos.

Aí dou de cara com Alcântara Gomes, com a turma apavorada, só falando em apostila e estudar para a prova. Bem, em seguida entro num anatômico onde só tinha atentados à dignidade humana, aquilo não era um anatômico. Eu fiquei numa depressão.

Na verdade, a culpa era do AI-5. Meus colegas não falavam nada, só falavam em decorar para a prova e os professores não diziam nada de interessante, nem chamavam a gente para nada legal. Bom, eu fiquei muito decepcionada, mas colei no pessoal da epidemiologia, porque aquilo era interessante.

E aí o Moisés Szklo me conquistou de vez fazendo uma coisa muito boba, se você quiser pensar bem. Ele convidou a turma, alguns alunos, depois de ter terminado a aula dele, para assistir ao “Rocco e seus irmãos”, que ele ia ver pela 14ª vez. Ele era apaixonado pelo filme, mas a mulher dele estava no final da gravidez e não estava com saco de ver pela 7ª ou 8ª vez ainda.

Nós fomos ao cinema com ele de noite. Ele nos convidou e eu os encontrei. Eu o Bacha, não sei quem mais, tinha mais gente, mas o Bacha eu tenho certeza.

E aí eu virei uma sanitarista em embrião. E comecei a entrar na questão da realidade da saúde no Brasil, que era uma desgraça. Comecei a ver muitas coisas desse tipo.

E eu tirava notas ruins no básico, não gostava daquilo, as aulas eram péssimas. Eu não assistia a aula. Eu não copiava caderno.

Eu estudava pelo livro que eu conseguia. Não dava tempo, geralmente. Eu estava sempre atrasada.

Mas, faltando a aula teórica, tinha um tempinho para eu estudar de verdade. Já comecei assim, quer dizer, com uma trajetória reclamando, torta, querendo fazer, primeiro, pesquisa, e, seguindo, saúde pública. E, furiosamente, eu comecei a estudar.

Bebia cerveja. E cadê as pessoas que bebem cerveja nessa faculdade?.  Em 1968, eu estou falando do Edson Luís*, que foi assassinado, e que se formaria  em 1972, e não se formou.

 

Então, eu conhecia um bocadinho de Vila Isabel. Eu queria entrar para aquela faculdade, não para o UFRJ, porque na UFRJ, você começa na Santa Casa, mas depois você vai lá para o Hospital do Caju, não sei onde. Então, na UERJ a gente tem ônibus de porta a porta, é muito melhor.

E tem hospital-escola. A Santa Casa não é um hospital-escola. Aí eu comecei a virar uma tecnocrata nessa questão ensino-médico, medicina preventiva, medicina social.

E eu lamento por não conviver tanto quanto eu poderia com a nossa turma, que era engraçada, era legal.  Porque eu implicava com muita coisa. Na verdade, eu sou uma pessoa um pouco intolerante. Um saco, mulher chata. É isso que eu sou. Mas me grudei na medicina social, na faculdade.

Fiquei muito lá dentro. E eram as pessoas que bebiam cerveja, que iam ao bar, que iam ao cinema, que frequentavam filmes bons, que liam livros legais. Então, eu conversava com eles. fiquei um pouco no gueto. Não foi legal. Mas, no terceiro ano médico, eu que não falava com ninguém, que era chata, esquisita, mal-arrumada, mal vestida.

Eu soube, depois que eu tinha fama de desleixada e tal. Quando eu entrei no terceiro ano, todo mundo apavorado na enfermaria. Eu entrei e achei aquilo meio normal.

Não achei esquisito, não. Será que a gente tinha que acatar a história do doente? Que tinha que conseguir perguntar as coisas pra ele? Eu cheguei lá. Bom dia, seu fulano.

O meu primeiro de todos, seu Constâncio.

“- Seu Constância, bom dia. O senhor se incomoda de eu perguntar pela enésima vez, sobre sua vida, da sua história, porque o senhor está internado e tal?

– Ah, minha filha, senta aqui. É tão bom ter que conversar com alguém. Não incomoda eu contar tudo de novo, não? Acho ótimo.”

E eu descobri que eu tinha uma facilidade absurda com os pacientes. Pra mim, aquilo era café com leite, com açúcar e tudo em quantidade exata.

Era uma delícia. Foi o que aconteceu, eu me descobri com uma boa capacidade também de ver sinais e sintomas.

Eu dei um tranco no Fernando Bevilácqua , que era da minha enfermaria, do Feijó.

Eu descobri que eu tinha jeito para clínica. O Fernando Bevilácqua internou uma senhora lá, passando mal. Eu fui examinar e cheguei para o Fernando Bevilácqua e falei: – Escuta, ela está sub-ictérica, ela tem um rechaço abdominal, ela tem um… O que mais que ela tinha? Era tudo sub. Tudo pouquinho, quase nada. Ele foi lá, examinou, voltou, e me disse que era um tremendo “piti”.

Falei, não é possível, ela está sub-ictérica.

Isso é uma coisa totalmente objetiva e independente da psíquica da pessoa. Bom, 24 horas depois, eu chego lá e ela está morrendo de um abscesso hepático gigantesco. Então, eu fiz um baita diagnóstico, quase pré-clínico, na iminência da coisa.

Me senti bárbara. E, a partir daí, adquiri uma certa capacidade e percepção de que valia a pena, que dava para estudar clínica e que dava certo. E acabei sendo uma, mais ou menos, pediatra.

Agora, tudo isso, para mim, foi conflituoso. Por exemplo, aquele pateta daquele chato de galocha que era o catedrático interino da pediatria, ele tinha o apelido de um urso. Eu acho que o apelido era “Catatau”.

Era um palerma. A Edna e a Dilma morriam de pavor dele, achavam que ele era o deus na Terra.

E ele gozava com os alunos, fazia bullying, ele aprontou com o Oswaldo, horrível. Ele encheu a paciência do Oswaldo durante uns quatro meses, o primeiro período do quarto ano. Aí, pela enésima vez, o Oswaldo levantou, falou, “vai à merda”, e saiu da sala.

E fez muito bem. E ele queria expulsar o Oswaldo, e criou um caso horroroso. Queria bater no Oswaldo, a Dilma e a Edna ficaram apavoradas e foram conter o professor. Ele era muito chato. Mas eu me lembro do meu primeiro dia de aula:  O que você vai fazer? Ah, cardiologia. Ah, pediatria. Ah, não sei o quê. Vamos fazer cirurgia.

E a senhora? A senhorita?

Vou fazer saúde pública.

Ah, é? Ele ficou mobilizadão.

Ficou todo mobilizado e perguntou.

E a senhora sabe o que se deve fazer para acabar com a fome no mundo, a mortalidade infantil?

Na mortalidade infantil? Cara, eu tenho um anjo da guarda muito poderoso. Eu puxei o livreto da OMS, que eu tinha acabado de pegar lá na biblioteca.

Peguei e falei, deixa eu ver, estou aqui com o manual da Organização Mundial de Saúde, e a gente tem uma listinha para a mortalidade infantil. O que é isso? Sabe as coisas óbvias, é o esgoto, água potável, comida e tal. E vacina.

Eu dei uma amarelada nele sem querer. Eu era burra, eu só achava que era assim. Você pega se pergunta uma coisa, você responde do jeito que puder.

Então eu puxei o manual da OMS, feliz da vida. Nem deu para ficar ofendido, me encheu a paciência depois. Era eu e o Oswaldo.

Quando ele ameaçou expulsar o Oswaldo, a gente pediu uma ajuda da psiquiatria para dar um laudo de que o Oswaldo tinha estado temporariamente fora de rumo,  não era louco não, podia se formar. Tinha que ter essa ressalva. Porque uma parte da turma queria que ele saísse fora.

Ele não podia se formar porque era maluco. Porque mandou um bolinador à merda. Fez muito bem ele naquele momento.

Bom, mas em suma, eu estava sempre me implicando um pouco. E eu esqueço, séculos depois, o Pinho da Gastro me encontrou, quer dizer, me encontrou no bar do Botafogo, a gente estava almoçando, e alguém me apresentou. Você conhece o Pinho? Eu falei, é um prazer, conheço você de fama;

Jane? Quem não conhece Jane botando o dedo no nariz do Aguinaga no anfiteatro central?

Eu era muito assim, não tinha noção de política de gente. De que tem que disfarçar, não tem que botar tudo na cara, não tem que ficar respondendo assim, do pé para a mão, na hora, na altura certa, sem qualquer avaliação de circunstância. Eu meti o dedo no nariz do Aguinaga.

Eu me lembrei quando ele contou, quer dizer, eu não achei que eu estivesse botando o dedo no nariz dele, mas que foi. Ele falou:

“- A gente tem direito a fazer pesquisa com os pacientes, sim, porque eles entram aqui de graça, recebem tudo e comida e tem que deixar alguma coisa para nós”.

E eu me levantei enfurecida.

O sujeito é pobre, senão estaria em outro hospital. O sujeito está passando mal, está doente. O sujeito trabalha, provavelmente contribuiu com o imposto.

E precisa deixar alguma coisa para nós? Isso é maluquice. Pronto, eu devo ter dito alguma coisa nesse nível, maluquice, ou, “É um absurdo”. Eu era completamente inconveniente, eu era inadequada.

Depois eu soube também, pela Zezé Ximenez, que era pediatra, que quando eu escolhi fazer internato em pediatria, o pessoal ficou horrorizado. Meu Deus, aquele maluca vindo para cá, que coisa horrorosa. E que eu fui a melhor aluna do semestre, não, do ano, daquela turma de internato.

Nunca ninguém me deu a gentileza de dizer que eu estava indo direitinho, entendeu? Pô, era um ambiente muito burro, um ambiente pobre, humanamente pobre. E os alunos que trocavam muita coisa boa, eu ficava por fora. Eu não me divertia tanto quanto vocês, eu era muito boba.

Meu diagnóstico é esse, eu fui uma jovem boba. Eu era crítica demais, séria demais, ralava muito, isso aí, realmente eu estudei, fiquei um cão durante não sei quantos séculos, que eu lia Medicina Social, lia Clínica e lia Política também, a Maria da Conceição Tavares, aquelas pessoas todas, a gente leu tudo aqui. Quer dizer, eu tive uma formação um pouco, como eu digo, torta, mas na nossa turma, é uma turma que tem muita gente que trabalha para a ciência, para a saúde pública e para a pesquisa de bancada.

Nós temos uma quantidade razoável. Então, é uma turma mesmo, meio diferente mesmo. Eu sou dessa turma.

Azar da turma ter que me aguentar, eu sou dessa turma, eu sou isso.

 

Pois é. Eu fui adquirido experiência no pronto-socorro.

Eu atendia qualquer coisa. A gente tinha que atender. E eu estava num hospital muito peculiar, que era na Paulino Werneck na Ilha do Governador.

Era o meu hospital, que conseguia ser completo. Eu caí numa equipe que tinha três cirurgiões maravilhosos. A chefe da equipe era uma obstetra espetacular, uma boa ginecologista obstetra.

A gente tinha um pediatra espetacular, que o apelido era Mate Queimado. Era Mate Leão. A gente chamava ele na sala de pediatria e já vinha dar a bronca na mãe. E era cada bronca monumental. E as mulheres eram muito, muito, muito ignorantes naquele tempo. Para gente conseguir a cobertura de vacina, era uma desgraça. Bom, ele era Mate Leão, já vem queimado. Ele já chegava furioso na sala de pediatria. Mas eu aprendi.

Esses caras nos ensinaram anestesia.  O Anestesista ensinou um monte de coisas cirúrgicas. E, no Pedro Ernesto, eu tive uma paciente com uma escara de decúbito, um abcesso de pressão gigantesco.

Cabia ali quase uma bola de tênis. Era uma negra com um traseiro enorme. Então, tinha espaço para fazer um buraco enorme e ainda continuava a aparência normal

E ele… Oh, meu Deus! O marido do Itamar. Cirurgião maravilhoso.

Um homem bom. Bom, ele me ensinou a limpar aquilo direito. Debridar aquilo direito. E depois ele fez… Fechou cirurgicamente, resolveu e tal. Eu conto isso porque foram os momentos cruciais da minha vida. Não foi da minha vida profissional. Foi da minha profissão, mas foi da minha vida inteira.

Eu tinha um residente, um R2, chamado Gilberto. Era R2, era da turma 72, portanto, e  me deram uma senhora com hipertiroidismo,  doida, completamente biruta. E mal. Uma biruta, deprimida, infeliz, parada.

E eu falei, mas o que é isso? O papel de controle estava mal preenchido. Não tinha muito. Qual era o passado, mulher? Eu só soube que ela estava com hipertiroidismo sob controle. É, manter a medicação, ela está de alta, né? Não. Ela afundou.

Ela entrou em uma espécie de torpor. Totalmente… Ela estava impregnada. O que é isso? Aí eu fui ver que ela tinha um acompanhamento de um psiquiatra, que era uma porqueira de psiquiatra.

O Jaime estava fazendo psiquiatria e me disse que ele era, assim, ruim. Não tinha outro nome. Aí eu disse, o que eu posso fazer aqui para eu tirar essa medicação? Ela estava tomando Aldol.

Porque ela teve, realmente, uma piração com hipertiroidismo inicial. Eu joguei o Aldol no lixo e a mulher ficou boa em quatro dias. E o marido dela era um sapateiro de luxo.

Me deu um sapato de presente feito sob medida, uma coisa “chiquetésima”. Eu pedi um sapato branco. Eu não estava com uma vida social muito intensa durante o internato. Pedi um sapato para trabalhar. Lindo e muito chique, mano.

Mas, antes, o que me aconteceu de fundamental foi o seguinte.

Ela entrou em torpor e eu fiquei sem saber o que fazer.

Fui perguntar para os professores, para o Gilberto. Eles disseram que não sabiam. Tinha que perguntar para o Benjamin.

Eu soube que o Benjamin não sabia nada de medicina, tipo, quanto ao Aldol. E aí, estava com aquela úlcera gigante, ainda. Estava enorme.

O Gilberto disse, tem que dar alta para ela. Eu falei, mas não pode. Ela não pode ter alta com essa úlcera.

Ela não vai fechar sozinha, jamais. Tem que ter curativo diário. Ah, ela vem aqui todo dia.

Eu falei, mas isso é uma bobagem. Isso é uma fantasia. Nesse momento, não dá para fazer isso em ambulatório.

Deve, por causa da distância, por falta de dinheiro, ou algo que for, mas não dá. Ela tem que continuar aqui.

Olha, tem que dar alta.

Ela está aí a um mês, sei lá. Mas não dá. Tem que fechar isso primeiro.

Olha, você tem que assinar alta dela. Senão, você vai repetir o internato em clínica médica. Ou seja, eu não ia me formar.

Eu ia ter que terminar o semestre no ano seguinte. Tem que dar alta, senão você vai ser reprovada do internato em clínica médica. E eu fui para casa carregando o mundo nas costas.

Isso é uma maneira que os médicos fazem uns com os outros para te estragar. Você só pertence à sua corporação se você for humilhado, se você rompeu os seus vínculos de honra. Eu vou ter que fazer isso.

Mas eu não posso dar alta daquela mulher, a honra, a palavra.  Como é que eu não consigo? Olha, 24 horas, ou 18 horas, no meio-dia até o dia seguinte, tenho que assinar, mas não consigo assinar. Aí eu não fiz porra nenhuma.

Aí veio o Gilberto para cima de mim com aquela cara de “se achando”.

E aí, já assinou a alta da paciente?

O meu anjo da guarda, poderosíssimo, me iluminou naquele momento. Eu olhei para ele e falei, olha, minha assinatura, eu até assino, mas ela não vale nada.

Sem o teu carimbo, do teu CRM, essa alta não existe. Eu não sou responsável. Eu não posso, eu não tenho carimbo, não tenho CRM, portanto, a responsabilidade não é minha.   Eu não assino nada. E aí ele foi lá examinar. E aí ele não deu alta.

Depois eu ganhei o sapato do “seu’ Machado, marido dela. Mas quando aquele filho da… cretino me botou na parede com uma espada no peito, eu fui iluminada pelo anjo da guarda. Eu descobri que eu não ia assinar nada, nem que a vaca tossisse. Eu ia para o CRM, para o CFM, ia para o advogado, mas eu não ia assinar aquele negócio. Para me formar, eu faria qualquer coisa, mas não essa aí. E aprendi que a gente tem que fazer essas escolhas às vezes.

E às vezes tem uma saída se você conseguir pensar friamente. Ou ser iluminada pelo anjo da guarda, que é mais o meu caso. Com a sorte danada que eu tive. Eu comecei a ter probleminhas com a corporação. Sobre ética. Nós tínhamos um colega que tratava mal os pacientes.

Ele morreu já. E eu me lembro que a turma ficava empombada com ele. Não era só eu, não.

Muita gente olhava ele de banda. Ele era grosseiro, estúpido, fazia exames de uma maneira ruim. Não era legal aquilo, não.

E muita gente achava horroroso. Hoje em dia não se percebe mais isso. Sumiu esse negócio.

O que eu sei é que eu acho que desde esse momento o anjo da guarda me iluminou para eu dizer para o Gilberto não se meter comigo. Porque eu tenho um anjo da guarda muito forte. E eu comecei a pensar em termos de ética e de formação.

E, na verdade, o que aconteceu foi que eu saí dali, fui para Austin. Eu fiz mestrado em saúde coletiva. Saúde pública, não era? Não.

O nome era Medicina Social. Isso. Era Medicina Social.

Pois é. Onde eu aprendi matemática com a Célia Landmann, uma super professora.

Ela se apaixonou pelo Jaime.

Ela e a professora de didática se apaixonaram pelo Jaime.

Eu sei que a turma inteira se matou de rir na hora. Em que ela olhou para a turma, assim, estava apaixonada pelo Jaime, todo mundo já tinha percebido. E deu umas palmadinhas, assim, na mesa do lado dela e falou assim, Jaime, vem cá que eu quero ver o seu feedback.

Todo mundo quase morreu de muito rir.  Inesquecível. Inesquecível.

 

Eu fiz a residência em Medicina Social contigo.

 

Isso. Os cinco. Sérgio, Rosa, eu, você, o Antônio Augusto, o Tales também. Tales estava conosco. Uma turma grande.

Mas, bom, eu sei que eu fiz uma porção de trabalho durante essa residência, fiz muita coisa no hospital durante a residência de Medicina Social

Aprendi muito estudando o hospital. Os casos do hospital. Por exemplo, os casos do hospital de renais crônicos, de uma distribuição por sexo e uma série de outras coisas.

E desde a população de defuntos, de óbitos por insuficiência renal. Não tinha nada a ver com a população normal. Quer dizer, entrou no hospital, já está, já virou defunto, na época, pré-hemodiálise. Tinha diálise peritonial que a pessoa aguentava duas ou três vezes só e, bom, era aquilo.

O que eu sei que aconteceu como profissional é que, em primeiro lugar, eu tive uma dificuldade muito grande com a coisa da ética. Então, eu me formei sabendo, por exemplo, fazer curativo e cirurgia.

Graças aos meus aprendizados lá … com a senhora Machado. Esqueci o primeiro nome dela. E aí veio uma mulher com abscesso de parede.

Mulher do zelador do prédio vizinho lá na Tijuca. Com abscesso de parede pós-cesariana. Tinha estado no hospital, tinham costurado e voltou.

Aí eu falei, tá bom. Fecho isso em casa. Fechou.

Tranquilo. Rapidinho.  Eu chamo de medicina de rua. Você está na praia, passa a garota linda rebolando e você olha as costas daquele manchão de hanseníase bem evidente escrito. Sou Hansênica.

Estou fazendo taichi no Museu da República com um amigo meu, o Marcos Moreira, que você conhece. Então o meu sócio de taichi aqui do lado olhando, me deu a impressão, uma erisipela danada, com o edema linfático daqueles bravos.

– Ô, seu Onézio, o senhor está tratando isso aí?

– Ah, diz que vai passar sozinho porque o médico pediu um doppler e ele disse que não é trombose.

Eu falei¨-, Ah, está legal, mas eu vou fazer uma injeção que vai resolver.

Fique dando bezentacil nos dias de taichi, duas bezentacil. Ficou bom, mas com um certo edema linfático.

Eu pensei:” Bom, eu faço medicina de rua. É isso que eu faço”.

Eu estava na Arena da Glória e entra um grupo de executivos no restaurante, paletó, gravatas, um jaguar, um negócio qualquer desse tipo, saltou os caras lá.

Daí uma hora, mais ou menos, estou eu tomando a minha cervejinha, sai de lá de dentro um sujeito obviamente em choque, cinza, suor, choque. Esse homem está sem pulso, eu olhei de longe, esse cara está sem pulso. Aí fui lá ver o que era.

Os fregueses estavam apavorados, começaram a passar mal. Eu falei, mas ele bebeu? Está de porre? Ah, não sabemos. Mas estava sem pulso.

Falei, ó, já para o pronto o socorro agora. Provavelmente é o pileque, mas pode ser um infarto. Horas depois, eu ganhei um maço gigante de flores.

Ainda estava bebendo a cerveja na mesma mesa. Porque os caras voltaram lá para me agradecer muitíssimo que quando o sujeito saiu do carro deles e foram amparando o cara para entrar no pró-cardíaco, o pró-cardíaco inteiro foi na rua segurar o cara. Já estavam espetando ele de tudo que era jeito, porque estava com… Estou enfartando, estava escrito.

Mas não era não, era porre. Era um encrenca alcoólica. Mas me deram um maço enorme de flores.

Eu falei, essa profissão de medicina de rua remunera mal. Mas era gigante. Porque eu fui me afastando. Eu tive primeiro uma trajetória assim muito legal.

 

Fui ser chefe do posto de saúde de Austin. Eu era jovem demais. Conclusão, eu me estressei demais, eu não dormia, vivia apavorada com tudo.

Ao mesmo tempo, eu tinha, a gente tinha, nós tínhamos, éramos 23 funcionários, o primeiro serviço médico na vida de muita gente que morava ali, que não era considerada área rural. Que era o seguinte, você era todo poderoso, de paciente, com varizes, sintomas, coisa boba, mas que atrapalha completamente a vida de uma mulher, de uma dona de casa. Eu falei, a senhora tem que fazer meia hora, todo dia depois do almoço, tem que se deitar e levantar o pé.

E tem que conseguir fazer isso. Não vem dizer que não tem tempo, porque tem. Porque se a senhora for esperta, se a senhora dá um jeitinho, só meia horinha com a perna pra cima, já vai fazer uma diferencinha pequena, mas vai ajudar um pouco.

A pessoa dava um jeito e fazia, e melhorava. Aí veio um sujeito morrendo, com enfisema brabo, e eu falei, o senhor fuma muito? Ah, fumo. Duas a três carteiras por dia.

Falei, olha, se o senhor parar agora, a coisa melhora muito. Se o senhor não parar, o senhor vai ficar sem pulmão. Não vai mais conseguir respirar.

Não vai dar certo. Então, o senhor deve tentar parar de fumar a qualquer preço. Vai mudar muito.

Semana seguinte, o sujeito me chega no posto de saúde assobiando, caminhando. Doutora, larguei naquela hora a carteira na mão do meu cunhado, não encostei mais em cigarro e sou outro homem. Sete dias depois,

A gente fazia milagre.

É a tal eficácia simbólica do Miguel, que você assistiu, elevada a uma equipe completa. Todo mundo fazia milagre. Porque as pessoas acatavam qualquer coisa que você dissesse.

E você tentava quebrar o galho dessas maneira. Nem pensar em tentar operar, medicações, vai levantar o pé, porque isso é o que vai ser possível. Aí vinha uma mulher com uma pressão 25 por 18, crente, terceira gravidez, tinha perdido a terceira, era a quarta, o terceiro filho.

Porque naquela época, era Aldomet, uma eficácia muito discutível que ninguém usava em grávida. Ela ia morrer. E eu falei, mamãe, não pode, esse é o último neném, pelo amor de Deus, não é possível fazer isso.

A senhora, a sua pressão não aguenta. A senhora já perdeu um. E se a senhora quiser levar essa gravidez até o fim, a senhora vai passar a gravidez inteira sem fazer nada.

Vai virar uma inútil. Tem condição? Ah, vou ver com o meu marido. Eu falei, e se não? Não vai dar certo.

Aí, na semana seguinte, me vem o marido dizendo que vai apoiar a mulher assim, que ele arrumou um emprego de vigilante noturno para poder ficar com as crianças durante o dia, e que ela não vai mais fazer nem comida, nem lavar louça, nem varrerr à casa. Falei, então, pode ser que dê certo. E ela não come sal, o que era possível fazer na época.

E a mulher teve um bebê de três quilos, conseguiu. Conclusão, três, quatro meses, outra gravidez. A senhora… Pois é. E eu chamei o marido.

Falei, olha aqui. Novamente, ela não pode fazer nada, e você está botando ela em risco, a vida dela em risco. Da mãe dos seus atuais, quatro filhos, já.

Agora, a senhora pode deixar. Na semana seguinte, falei, deixa ela vir aqui duas vezes por mês para a gente acompanhar, etc., etc. Daí, aos 15 dias, aparece ele, com os filhos, o bebê no colo, antes não pegava no colo, só para amamentar.

Os meninos engomados. O informe do colégio era engomado. E o homem era vigilante noturno.

Ele engomava a roupa das crianças. Era um crente insuportável, porque ele era verdadeiro. Então, ele ia matar a mulher dele por causa da gravidez, porque não podia fazer controle da natalidade.

Conclusão, eu fui super desonesta. Falei que ela ia ter parto no Pedro Ernesto, que era mais prudente, adiantar um pouco o final da gravidez, com aquela pressão tal, e fosse cesariana. E eu já estava de conluio lá com o Nigri.

E aí, ligaram as trompas dela. Fizeram a laqueadura de trompas escondida, ilegal e dane-se. Ela não teve mais neném e sobreviveu.

Eu espero que o marido dela tenha voltado a trabalhar normalmente. Quer dizer, eu tinha uma experiência lá em Austin que era extremamente positiva.

Tudo que se dissesse funcionava. Aí, bom, o Chagas Freitas entrou lá dizendo que tinha uma epidemia de pólio, que não teve, não tinha um caso. E tinha a Kombi do Pedro Ernesto, que era uma Kombi da UERJ, que eu botava duas técnicas meio malandras que conheciam a população, sabiam quem era bicheiro da área, estava muito bem, era ótimo para o posto, isso.

E com isopor na mão. Tinha fila de distribuição de ração, os pobres ganhavam ração de gado, lembra? Da LBA. Desnutrição que campeava solta.

Pois é, tinha fila da LBA, tinha fila do supermercado, às vezes. Tinha fila, olha, vários tipos de fila. As pessoas iam lá, nossa Kombi, olha lá, com isopor na mão e, plim, plim, plim, plim, vacinava todo mundo.

Não, as férias reforçam, é bom. E, tac, tac, dane-se, a gente entiava pólio. Eu tinha pânico, imagina um caso de pólio na região com a posição de UCSF.

Mas o Chagas foi dizer que tinha um caso lá.

Não tinha caso nenhum. Eu estava de licença de gravidez quando isso aconteceu. Lá fui eu, desaforada, sem bom senso, perdendo tempo à toa, gastando energia.

Marquei uma agenda com o secretário de saúde que eu fui lá exigir que ele se desdissesse na Globo, que ele tinha dito que tinha um caso, que parecia que tinha um caso de pólio em Austin.

Mas eu me lembro que eu tive um ataque histérico. Eu tinha tido neném, estava no final da licença de gravidez. Não tinha acabado ainda.

E ali eu comecei a ficar tensa, super estressada mesmo. Falando, mas o senhor tem que se retratar. Não há caso de poliomielite em Austin.

E quando eu evolucionei muito, aconteceu o que acontece muito frequentemente com puérperas. Começou a sair leite pra tudo que era lado em cima da mesa do homem. Foi o maior vexame que eu já paguei na minha vida.

Mas eu acho que também ele foi muito humilhado sem querer por essa minha reação fisiológica absurda. Doida. Bom, eu desisti, fui embora.

E é evidente que ficou por isso mesmo. Eu pedi demissão. Eu estava com o bebê.

Austin só teria médico quando alguém de Austin estudasse medicina e continuasse morando lá, não tinha outro jeito. O que tinha era outra coisa. Era uma prova que o nosso modelo era do cão.

Saúde da família comum. Com auxiliar de saúde. A gente tinha auxiliar de saúde que eram pessoas que a gente meio que pescou na população. Com certa tradição já de um certo cuidado com quem está em volta. Um certo cursinho aqui e ali. Umas coisas assim. Essas mulheres resolviam 60% da demanda que chegava na época. É claro que a demanda que chegava na época era uma demanda de total miséria. Era ascaris, era ferida, era escabiose. Isso tudo elas resolviam. A gente não precisava gastar tempo com consulta com isso.

A gente tinha uma eficácia muito grande para dar os dados que a gente tinha, com essas atendentes, essas auxiliares, que não deixavam a gente perder tempo. Agora, tinha as histórias assim que eu presenciava, meu Deus do céu. Chega uma criança com dois quilos, menos de dois quilos, ictérica, pitadinha de sepses, no colo da mãe, para o pediatra atender.

Falei, mamãe, o neném tem que estar no hospital. Está muito pequeno. Acho que está ictérico.

Ah, minha filha, tirei de lá. Vai morrer, vai morrer na minha mão. Porque o Prontonil… Já sei como é que é o Prontonil.

Não discutia mais. Mas botava a mulher dando leite de conta-gotas, leite dela, materno, de conta-gotas para o bebê, duas em duas horas, durante não sei quantas semanas. As mulheres acatavam, e elas não perdiam os bebês.

Eles não faziam parada. Quando a gente fazia milagre mesmo. E eu falei, já sei que funciona.

Estou de alta. Tchau. Porque eu não aguento mais.

Eu não aguento mais o Chagas Freitas nas minhas costas e estar indo 50 quilômetros todo dia para lá e para cá. E vendo o meu filho mais velho, que estava com seis anos. E eu quse não o estava vendo.

Só no fim de semana. De tardinha. Eu ficava no sofá, meio empastelada, olhando para ele, porque eu estava exausta.

Em suma, eu desisti. Foi uma das desistências da minha vida. Mas o Chagas Freitas desistiu do programa também.

Ferrou tudo. Estragou tudo que era muito legal.

Assim como o propósito de intervenção em saúde é um PSF inteligente. Foi. E aquelas coisas de ganhar cesta de verdura.

Ovo de pata. Quando eu fiquei grávida.

Ela é muito magrinha. Será que ela vai segurar a gravidez? Eu era saúde em pessoa, meu Deus. E aí me veio uma senhora. Duas, três vezes por semana.

Assim. Bom dia, doutora. Eu trouxe para a senhora um ovo de pata.

Que é muito mais forte que o de galinha. A senhora precisa disso para a gravidez. A senhora pense bem, que é ovo de pata.

Porque ninguém fala ovo de pato. Ninguém fala ovo de galo. Então é ovo de pata. Dá trabalho de achar, porque ela põe escondido. E aí me entregaram o ovo de pata. E realmente ele tem uma albumina muito mais densa, assim.

Muito mais grossa. E no final do ano, teve uma espécie de cerimônia. Que eu, rígida fui contra, sou muito rígida com médicos. E crianças mal educadas, em geral. Mas tinha uma mulher que queria vender pastel na porta do posto de saúde.

Eu deixei. Falei, olha, a senhora não fica na porta do posto, não fica bem, eu não posso admitir. A senhora está fora da lei. Eu estou falando, está para o meio do muro do vizinho. Aí era fácil.

Eu podia fingir que ela não existia. Mas no final do ano, é claro que eu comprava um pastel ou outro. E no final do ano, eu chego lá, e tem um certo, assim, um aglomerado de umas 15 pessoas, talvez até 20, na porta do posto, e falei, meu Deus do céu.

O que está acontecendo lá dentro? Não está acontecendo nada, não. Quando eu entrei, viu um zum, zum, zum, naquele aglomerado na porta. Eram oito horas ainda, estava abrindo.

Acho que ela tinha que me dizer o que foi isso. A moça da recepção, a técnica de enfermagem da recepção, ela era atendente. É porque dona fulana, esqueci, do pastel quer falar com a senhora.

Será que é bom?. Aí, ela vem vindo, sai da multidão com uma lata na mão, me dando um presente que juntou gente por causa disso.

Ela matou o carneiro para o Natal, e para me dar de presente, fez a iguaria especialíssima de um bucho recheado, numa lata de banha.

E aquilo era uma iguaria. Estava todo mundo assistindo a entrega do presente. Isso é mesmo uma homenagem.

Jaime, você gostaria de um bucho recheado de… Buchada de bode? Ele é de família nordestina.

Um bucho de carneiro recheado. Cara, ele achou uma delícia. Ele disse que estava muitíssimo bem feito, maravilhoso, espetacular.

Eu não consigo comer essas coisas. A gente era homenageado o tempo todo. Era muito gratificante.

Era um absurdo de gratificante. Os 50 quilômetros quase valiam a pena. E a gente tinha um salário da Secretaria, que não existia, três salários mínimos, mais uma complementação da Fundação Kellogg, que era financeiramente razoável.

Então era uma remuneração mínima, decente. Mas a coisa dos pacientes, o que parou de fumar, porque se recomendou, se explicou, apavorou, sei lá. Os nenéns que sobreviviam em casa.

A dona, da  buchada de bode.

Eu tinha três pacientes, Maria, Francisca e Pinheiro, acredita? Os três com o mesmo nome. Não, duas eram só a Francisca e uma Maria Francisca, as três de Pinheiro. Um com que eu acho que deva ter sido uma hepatite c, alguma coisa qualquer desse tipo, e duas daquelas hipertensas.

Tinha, não é? 18 por 22, 16 por 22. Era mulher gorda, negra. Lá vem ela.

E era todo mundo me dando ovo de pata, coisas da roça, horta, bucho recheado. Eu era tratada como uma rainha.

E a minha eficácia era o poder divino da cura dos reis mesmo. A gente, a pediatra, eu, o dentista, o Péricles, que você conheceu, o Peco, da ABRASCO  curava tudo também. Era um clínico que curava qualquer coisa.

Falando. Eficácia simbólica. Realmente, a gente tinha medicação.

Sim, mas não era nada espantoso. E a gente teve um parto, meu Deus do céu. Ela entrou, última semana do último, última visita do pré-natal antes do parto, uma semana para a data provável, ela subiu na balança e a rompeu a bolsa Dez minutos depois de aquele parto, assim, abençoado completamente, com tudo maravilhoso, a mulher teve quatro ou cinco contrações e o neném saiu, feliz aos berros, já nasceu reclamando. Uma maravilha. Tanto que a minha experiência clínica real foi essa.

Ah, criança, outra coisa, maltrato em criança. Socorro. E vêm dois gêmeos, René e Renan, esses eu nunca esqueci o nome, com uma chaga no joelho, uma necrose gigante.

Botaram um ferro de passar roupa no joelho dos dois meninos, idêntico. Só pode ter sido… O que foi isso?

Ah, a gente caiu no espinheiro.

Falei, tá bom, não vamos dizer.

Mas eu queria que o pai passasse uma noite apanhando na delegacia, ou lá quem fosse. Mas eu chamei as auxiliares de saúde que levaram pra mim o caso, os dois garotos. Eu ensinei elas a fazer, eu debridei a gente que tinha que fazer isso a frio.  Eu nem me lembro como é que a gente conseguiu. Sei que eu tirei tudo que estava verde e preto, deixei uma ferida rosada pra elas verem se conseguiam fechar, explicando e tal, um detalhezinho. Fecharam.

E eu falei, gente, tem que tentar investigar que diabo de família é essa. Que não, a gente já sabe, é assim mesmo. Só que se eu tirar eles de lá, eles vão pra lugares piores.

Então a gente não fala nada. Tá bom. Quer dizer, a gente… Foi uma experiência de vida.

Do que é bom, do que é ruim. Da sensação de pertencimento, de gratidão. Ter que comer feijoada gorda demais.

Cheio de aqueles… Chispe, orelha, lugares gordos. Era um inferno aquilo. E eu tinha que aceitar e tinha que beber a cerveja.

Tinha que comer razoavelmente. Era terrível. Ao mesmo tempo, eu conheci essas pessoas, assim.

Pessoas de… Gente de verdade. Anos depois, eu estava num bar, um cara falou assim,

Você conhece gente!

Falei, claro que eu conheço gente. Aí eu olhei em volta e vi o que ele estava querendo dizer com isso.

Aqueles donos do O Veleiro ali. Não eram gente. Aquilo não é gente, não. é outra coisa. Gente, gente, Brasil mesmo. É outro lance. São os marinheiros da marina, no caso. Eu tratava todas as sarnas. O que aparecia de sarna!

Falei, bom, você não anda dormindo no meu barco, escondido não, pelo amor de Deus. Eram um monte de sarnas que eu cuidava. Quer dizer, eu tenho uma experiência de clínica que foi uma experiência meio fora de prumo, né? Não, é essa medicina de rua que eu chamo. Inclui os marinheiros da marina quando eu comprei o barco. E… Ah, um amigo na feira também, que eu gosto de lembrar. Todo torto carregando uma sacola na Urca onde eu morava, meu vizinho.

Eu falei, Thomas, o que aconteceu com você? Ele falou, eu dei um mau jeito, eu não sei, eu acordei péssimo, com uma dor nas costas horrível. E saiu andando. Meu Deus do céu.

O Thomas está com Tabes , ele está com marcha neurológica, isso não é mau jeito nas costas, coisa nenhuma. Falei, oh, tu tens que ir no neurologista, você está com marcha neurológica. Ele é de uma família judaica, então eles eram amigos do Abraham Ackerman, que era um grande neurologista

E no dia seguinte, de tardinha, eu chego, de Austin, e encontro a irmã do cara. A Shani.  O Ackerman perguntou quem é você, porque ele está com uma… ela sabe tudo. Pior que eu não sei nada, não estudo mais há um tempão.

Eu era muito boa dessa coisa de ver sinal, sabe? Tanto assim que eu dei a minha a pernada no Bevilacqua, foi uma coisa disso. Mas eu tinha isso. A vizinha, a mãe da vizinha passando mal, falei, meu Deus do céu, não é possível, será que é meningite? E, olha, pronto, socorro, porque tem uma remota chance que seja meningite. Mas era meningite. A mulher vomitou, sujou a parede com o vômito dela. Ela estava com febre. Não é um diagnóstico tão difícil, só é surpreendente, uma senhora de 75 anos, sei lá, numa família que ninguém está com nada, aparecer com meningite. Mas foi. Meningite.

Acabou que eu tive uma vida clínica mais ou menos acontecida. Eu fiz clínica. Porém, eu saí de Austin e pensei, anos depois, ah, eu vou abrir um consultório e, afinal de contas, eu tenho capacidade de olhar as pessoas.

Eu tenho que estudar, né? Tem que ter a garantia de que eu estou estudando quando eu encontro cada paciente, conforme o caso. E abri o consultório. E aí eu vi.

Eu vim aqui porque eu quero uma chapa de raio-x.  Eu vim aqui porque eu quero um remédio para prisão de ventre, mas eu só como batata frita. Eu vim aqui porque meu filho está obeso com prisão de ventre, mas não vai.

Ah, não. Sem açúcar. Eu não posso imaginar meu filho sem comer um doce.

E aí eu saí daquela onipotência que eu tinha de experiência de medicina de rua em Austin por uma pessoa que estava sendo tratada como uma pateta. Eu tinha que cumprir ordens de pessoas ignorantes a respeito de sua própria saúde. Se eu quisesse ter um consultório.

Eu fiquei mal. Desisti. Tinha um ano de consultório e fechei.

Larguei para lá. E aí eu virei 40 horas na UERJ, vendi meu barco. Antes de virar 40 horas na UERJ.

Uma coisa não dava para a outra. Passei a ganhar dinheiro melhor e comecei a trabalhar muito. Eu trabalhava só 24 horas por semana.

. Eu estava bastante de saco cheio da nossa sociedade e dos médicos, pelo amor de Deus. Tinha muita gente… E eu tinha experiência assim dessa coisa da ética.

Tão triste, sabe? Isso me fez muito mal. Eu tentei dar plantão na Fernão Magalhães. Era impossível.

A Fernão de Magalhães era um campo de concentração. Eu não sei como aqueles meus colegas estudantes ficavam lá dando plantão num campo de concentração sem falar nada. Os malucos, os cúmplices passivos.

Meu Deus do céu, nós não somos amorfos assim. O que é isso? Primeiro plantão que eu estou, vou lá na sala dos médicos, ó, tem uma mulher que vai ter neném em pé,  as salas de parto estão todas ocupadas, tem que ir lá. O cara estava com a palavra cruzada e falou, peraí que eu já vou.

E a criança nasceu e morreu com um circular de cordão na cama, cama comum, E era o meu primeiro plantão. Eu assisti só.

Assisti um crime, uma monstruosidade. Assisti adultos. Tentava assistir uma cesariana, lá fui eu.

Encapotei todo, entrei lá. O bebê estava morto, porque o anestesista deu a anestesia enquanto o cirurgião estava jantando. Quando o cirurgião chegou, a mulher estava anestesiada, tipo, 25 minutos, meia hora e o neném já tinha, por breve, um tempo.

Nasceu  em completa anoxia 100%. Aí eu dei plantão lá mais três ou quatro vezes e desisti, falei, mas isso não é possível. Não é possível que a gente seja obrigado a passar por isso pra virar médica.

Eu sempre tinha essa fantasia. As pessoas acham que isso é obrigatório, não é não.

 

 

Depois eu tive outra experiência. Eu saí de lá porque eu não aguentava, mas a minha pergunta procede, nesses nossos tempos de neonazismo, procede muito. Como os meus colegas, os seus colegas, nossos colegas, passaram por isso tão passivamente, aceitaram assistir cenas de abandono explícito, sadismo, loucura?

 Nem todo mundo, Jane. Na verdade, não é todo mundo. É que as pessoas evitam falar sobre isso.

Então é uma mistura isso tudo. Ah não, essas dificuldades são, em primeiro lugar, uma coisa que eu consegui entender depois de um certo tempo é a seguinte, a profissão, o diploma médio, atrai psicopata. Se eu fosse psicopata, eu acharia muito útil ter o diploma de médico.

Se eu fosse um molestador sexual, se eu tivesse prazer imenso em controlar a vida alheia, eu seria médico. Por que não? Então eu acho que a gente tem uma quantidade de colegas nossos que, a priori, já chegaram ali com objetivos um pouco distantes, do tal do juramento de Hipócrates. E a academia não devia topar a convivência dessas pessoas.

E aí… A gente sempre se surpreende quando acontece um coisa ruim dessas. Sim. Eu não espero surpreender ninguém, simplesmente.

Eu fechei consultório, desisti.

Aí, quando eu não tinha mais Austín nem consultório isso foi no final de 1985. escrevi uns dois ou três artigos em seguida sobre o que eu estava vendo da faculdade, dos estudantes, sobre os estudantes, perfil dos estudantes.

Eu fiz um estudo que eu achei legal, porque durante o internato, uma coisa que me impressiona muito, na UTI neonatal, morria-se como mosca. Os prematuros, naquela época, não aguentavam grande coisa, a gente não tinha grandess recursos. E eu me lembro de pegar prematuros, assim, 900 gramas, ictérico, totalmente cheio de petéquias, de septicemia, óbvio, já tinha feito três ou quatro paradas cardíacas, tinha sido reanimados e estavam indo muito mal.

A septicemia não estava sendo vencida. E aí, a parada cardíaca. Ah, eu não tenho coragem de desligar.

Gente, me dá isso aqui. Um, dois, três, pronto, acabou. Parou o sofrimento dessa pessoa, seja ela quem for, que nível de consciência tivesse.

Isso que a gente está fazendo aqui é uma maldade em nome de uma  hipocrisia. Dei um sabão na turma do internato, que eram residentes, eu era interna ainda. Meu Deus do céu! Estou eu dando sabão.

E aí eu descobri que eu sabia o que era a morte. Eu admitia, faz parte, está incluído no próprio pacote. E os médicos, naquela época, não conseguiam ver que chegou um momento inevitável que você não tem que fingir nada, não, vai morrer, está morrendo, vamos deixar morrer.

Vamos dar beijo, vamos dar abraço, sei lá.  Vamos ficar espetando, vamos ficar reanimando uma pessoa que já está, obviamente, com uma enorme lesão cerebral, muito grande, que não tem chance de sobrevivência, no caso dos nenéns? Então, eu pensei, mas por que isso, o tabu da morte? E eu estudei na época, olha, eu consegui, assim, cobrir o campo todo. Maluco, amigo, 500 milhões de linhas.

Porque no mundo tudo isso estava sendo discutido. Engraçado, a gente pega aquelas antenas, assim, roupa que está na moda, você simula qual é tal roupa e, de repente, está todo mundo vestindo aquilo.

Você estava na moda sem saber. E o tabu da morte me pegou um pouco, no momento que estava, na verdade, eu descobri que tinha milhões de pessoas no mundo todo discutindo isso. O problema da negação da morte na nossa cultura e o papelão que os médicos estavam fazendo, porque, na verdade, eles são os encarregados da morte que não conseguiam assumir.

E as pessoas morriam. Estava havendo uma… Eu acho que estão chamando agora de dissonância cognitiva. O médico tinha a obrigação de dominar o assunto da morte.

Na medida em que a gente consegue fazer isso, pode até ser muito pouco. Mas as pessoas olham para nós esperando que saibamos o que é a morte. E não que a gente evite a morte até o último, dos últimos, dos impensáveis, dos passados, do além de todos.

Isso não vai acontecer. As pessoas vão morrer. Vão morrer machucadas, agulhadas, espetadas, entubadas.

Como é que é? Tinha 10 tubos, 15 tubos, sei lá. Não. Tira essa atrapalhada toda.

Aí, injeta um monte de morfina, um monte de oxigênio e deixa a pessoa, e tal. Não. Naquela época, isso não existia.

Eu me lembro, quando eu fiz o curso sobre a morte, teve uma semana no hospital, eu pensei, ah, eu vou cuspir essa bibliografia que eu estou até aqui, da química, desse assunto. Enfim, fiz uma pesquisa entre os estudantes para saber qual é a concepção de morte que eles tinham sem falar a palavra morte. A entrevista era, por que você resolveu fazer medicina? E ele, conta o que fez de trajetória aí.

No primeiro ano, correspondia, metade da turma, porque eu quero combater a morte, porque eu sempre fui doente, convivi com a morte há muito tempo, conheço ela, Segundo ano, porque eu quero vencer a morte, era por metade, mais ou menos, 50 alunos. Terceiro ano, porque eu quero ser cardiologista, porque eu quero ser clínico, porque eu quero ser cirurgião, porque eu quero ser cientista, tinha.

Quarto ano, bom, a palavra morte desaparece das motivações dos alunos para fazerem medicina. Ninguém mais diz que quis fazer medicina porque queria vencer a morte, lutar contra a morte, ou entender a morte, ou como disse um deles inesquecível, porque eu sempre estive perto da morte, eu era muito doente, nem sei que doença era. Talvez fosse asma, né? Por aí.

E, fiz um curso sobre o tabu da morte na nossa cultura. Caramba, todo mundo ficou furioso, veio toda aquela tropa de cretinos. O que é isso? Sempre é um problema da morte que merece um curso.

Não merece um curso, é nada, a morte chegou, acabou, pronto. Morte é morte, todo mundo sabe o que é. Bom, conclusão, tive uma plateia lotada de estudantes de enfermagem, nutrição e filosofia. Não teve nenhum médico inscrito.

E o curso foi legal. Mas ali eu já estava muito mais empombada com o que é que médico tem na cabeça? Por que a faculdade está ruim? Os alunos entram melhores do que saem como pessoas, o que é essa estragação? E a gente sabe que tem, né? Medicina é a única profissão que tem. Associação para discutir o ensino, reforma de currículo, cada escola propõe uma por ano.

E por que o currículo é inamovível? Quando você tem uma experiência fantástica na USP, que é do Marcondes, ele chegou em uma turma de calouros da Medicina e falou:   Quem quer participar de um curso experimental?

A metade da turma levantou que iria. Eles fizeram dois cursos, o experimental e o tradicional, durante seis anos. O curso experimental foi bombardeado como um problema, uma porcaria, um negócio todo equivocado, uma droga.

Sumiu. Três, quatro anos depois, à medida que os professores da USP tradicional iam se aposentando, todos os ex-alunos do curso experimental viraram professores por concurso. O curso experimental era melhor do que o tradicional, segundo avaliação da própria academia.

Mas isso não interessa. O curso voltou ao que era antes. É que nem uma maré alta.

Faz assim, numa zona qualquer na calçada, bagunça, joga uma areia aqui, outra ali, depois recolhe e some. Só daí um ano ou dois que vai ter outra ressaca igual. Todo mundo discute.

Tem revista. Nós temos a ABEM, Associação Brasileira de Educação Médica. Tem revista também.

Tem revista americana de prestígio. Tudo sobre… Que é um mistério. Porque é um currículo inamovível do século XIX, digamos assim, de certa forma.

Você pode mudar o conteúdo, mas a maneira como você passa até alguns anos atrás, bioquímica, fisiologia, é idêntica. Aquele anatômico é totalmente desnecessário no plano cognitivo. Aquilo não ensina nada para ninguém.

É só um rito antropológico de passagem. Para você se sentir médico, você tem que participar da dissecção de algum cadáver. E isso é pseudo-familiaridade com a morte.

Está ali. Ah, não. Você passou pelo anatômico, dissecou uma, sei lá, uma femoral.

Você está apto. Você já é médico. Pode abrir um consultório quase.

E isso não te deu conhecimento de espécie alguma sobre coisa nenhuma na área clínica de atendimento ao paciente. Zero. E na hora de dissecar a veia de uma pessoa, você não enxerga nada do que você viu na dissecção.

Porque é tudo cor-de-rosa e está sangrando. O ensino médico é extremamente bom. Isso me deixou encucada

Estudei tudo o que podia sobre isso, inclusive os alunos da faculdade, essa coisa da morte, outros estudos, sobre terapêutica também. Não tem. Ninguém aprende terapêutica na faculdade.

Aprende no pronto-socorro. Isso. Agora, hoje em dia, que tem protocolo, deve ser todo mundo aprendendo na faculdade.

É o protocolo. Mas antes, quando tinha ausência de protocolo, você não aprendia nada direito. Eu tive livro sobre antibiótico, percebi que ninguém sabia nada daquilo que eu tinha estudado no livro.

Nada. Zero.

Qual era a diferença entre furosemida e qual era o outro que já tinha? Sei lá, já tinha um outro mais moderno qualquer. Eu tinha que saber a diferença. Eu achava que eu tinha, mas, afinal de contas, ficavam os pacientes perdendo essa maluca lá.

Ninguém sabia, não. Ah, não tem Lasix para vender? Compre o outro. É a mesma coisa? Não é exatamente a mesma coisa.

E as pessoas não sabiam. Eu tive uma experiência ainda lá como residente. Eu fazia ambulatório.

Eu sou uma médica que faz esses diagnósticos. Olha a tuberculose andando ali na esquina.

Eu não conseguia fazer o diagnóstico como eles faziam. Eu tinha que pesquisar mais, estudar mais, enfim. Agora, as minhas consultas no início duravam uma hora.

No final do ano eram 25 minutos, meia hora.

 

Bom, aí vem um, esse caso aqui é melhor, é eritromicina, sei lá. Peguei um caso de coqueluche uma vez. O que se usava? É eritromicina, mas eu fui vendo o livro, eu não sabia. Eu nunca tinha visto uma coqueluche. E o paciente não se incomodou, não. Era um ambulatório de caridade, a gente trabalhava e ganhava um dinheirinho.

Eu e o Jaime, para sobreviver. Mas a gente ia com livro. Sem livro, a gente não se garantia, não. Pois é, hoje em dia é mais fácil, porque você tem a internet. Que você vê tudo e tem essa coisa dos protocolos. Você pode ter até impresso um receituário para o cara. O caso do coquetel da AIDS é típico, assim. Mas, bom, eu sei que eu larguei a clínica e comecei a examinar médico.

Porque fazem tanta besteira? Por que a faculdade é tão ruim? Por que os professores dizem coisas tão horríveis, às vezes? Quem é um bom professor? E aí eu comecei a estudar História da Medicina. Foi assim que eu fui para a História da Medicina.

Eu… Alguém… Um americano escreveu um artigo falando que o ensino médico desde que apareceu há 200 e poucos anos atrás, segundo ele, eu estou falando da década de 80 ainda, tinha, assim, a cada 200 anos, uma revolução. Uma abordagem ao paciente e, portanto, o ensino médico. Então, teve uma revolução lá para 1790, por aí.

Outra que foi o relatório Flexner. Nós estamos agora em vias de fazer uma nova revolução.

Aí lembraram que eu estava há mais tempo do que todos os dois, embora eu não fosse muito simpática em nenhum dos dois grupos, porque eu já tinha mestrado, o Péricles não tinha, eu já tinha, que nem a Ana, mas a Ana também, estava que nem eu, sem a tese defendida, em suma, eu estava melhor qualificada, então a maneira de resolver a briga era me fazer virar professora. Eu nasci para ser tértius.

Houve uma brigalhada lá sobre quem seria o próximo diretor, acabou virando eu, com o Regazzi. que não queria mais nada agora do Brasil. O trabalho foi tão maluco. Achei a coisa mais cansativa e desgastante que existe no mundo, ser o tal do gestor de qualquer negócio.

Eu acho chato gerir até a minha própria casa. Só que eu funcionei bem. Eu sabia descobrir os lugares certos para as pessoas que estavam dando problema, sabia botar para fora, consegui roubar computador de professor vaidoso que não aparecia, não usava computador, mas tinha que ter um na sala dele, e o secretário estava com o computador enguiçado, então eu ia lá e metia a mão delicadamente.

Descobri que eu servia para esse troço, só que assim que eu pude, me aposentei, desespero total, estava completamente exaurida. A tal da direção da UERJ você é acossada pela reitoria, pelo conselho universitário, por grupos idiotas que querem propostas imbecis,… Teve uns blackblock que pararam a UERJ recentemente? Você viu, né?. Pois é, nessa linha toda eu acabava de me afastar quase completamente da medicina, hein?

 

Foi logo depois que a Gulnar assumiu.

 

É, e eu acho que ela não tinha saída a não ser fazer o que fez. Tirar os caras na base da… Pois é. …nossa autonomia universitária.

Eu virei uma pró UERJ, fanática, e a medicina foi completamente pro 15º plano.

Aí eu vim dar aula. Eu me afirmei como uma professora. Eu dou aula de qualquer coisa.  É só estudar antes. Bom, e conseguir entender o assunto, né? Nem sempre isso vai ser verdade. Mas aqui tem um grupinho que se juntou para fazer um preparatório para o Enem. e eu estou terminando a minha carreira dando aula no Enem. Primeiro falei, isso não vai ter aula de biologia nesse negócio, que não é tão comum. Me ofereci. Tive que estudar biologia, meu Deus do céu. Estudei feito uma maluca porque o avanço foi uma coisa estratosférica, gigante, monumental, nas coisas mais básicas. Fiquei em DNA.

Como é que é a síntese de proteína? E eu sabia tudo. Você tem que saber tudo E olhar os detalhes, coisas mais… E eu acho biologia uma coisa mágica.

Aquilo é completamente maravilhoso o processo biológico como um todo. Então eu comecei a dar aula para adolescente. Realmente a aula para adolescente é uma coisa muito divertida. Eles são vivos, motivados. E nesse caso é um curso que só vão voluntários. É um curso fora do currículo.

Então quem aparecer lá está motivado. É muito divertido. Então eu estou assim velha e divertida dando aula de vez em quando.

Não é muito, é pouco. Tive que estudar biologia. Agora eu sou suplente de geografia.

Porque é muito superficial, qualquer pessoa de nossa geração sabe arrumar o caso de geografia. E história também possivelmente.

Eu sim, história tranquila. Estudei com o Camilo, como eu tinha dito mais cedo. Eu praticamente fiz uma graduação de história.

Com medo do pessoal da Casa de Oswaldo Cruz. E acabei escrevendo aqueles livros porque eu gostei de escrever.

Hoje eu acho que eu teria escrito um pouco menos. Eu fui muito metida, muito cara de pau. Mas por outro lado, ah, o que que eu tenho a perder? Na verdade, eu fui para a segunda edição e está acabando. Então eu estou feliz, o livro existe, faz sentido. Tem o que dizer. De modo que eu fui assim, eu tive uma carreira torta.

Mas apesar de tudo, eu me sinto médica. Menos do que professora, eu sou professora. Mas eu sou médica. E tem uma ligação. Eu fiquei muito surpreendida com a nossa festa no Piraquê. Como eu gosto de uma porrada de gente.

Adorei. Tem uma que eu gosto muito e que não podia e que está doente. É a Helena Evangelho. Uma pessoa discreta. Meio quieta, muito engraçada. Tem um humor sarcástico, escondido.

Ela está com… Acabou a memória dela.

Ali no Piraquê tinha bastante gente. Não tinha toda a turma, mas tinha muita gente, muita gente. E foi muito legal.

 

 

 

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