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ARTUR LOURENÇO DA FONSECA

[Luiz Lima]

O que que levou você a entrar na faculdade e a continuar nela?

[Artur Fonseca]
Eu sempre gostei muito de estudar biologia. Desde criança, eu gostava de mexer com plantas, mexer com bichos, estudava.
Tinha uma coleção de livros de história natural de Julian Huxley e G. P. Wells, filho de H. G, sobre biologia que eu ganhei de presente Li os 10 volumes. Desde criança também tinha um microscópio de brinquedo onde passava muito tempo olhando de tudo e pesquisando em bibliotecas públicas, lendo aquelas enciclopédias enormes e livros de ciência em geral que era p que tinha na época.
Gostava muito também de eletrônica, na época válvulas e peças enormes soldadas em chassis de ferro.
Mas eu me preparei para fazer agronomia que era uma boa composição de biologia com engenharia e pesquisa.
Queria fazer agronomia e não medicina. Só que, chega na idade de fazer vestibular, fiquei meio chateado de ter que ir para a Universidade Rural me internar lá. E depois também de conversas com pessoas.
Achei que medicina era uma coisa economicamente mais viável e mais interessante do que me enfurnar no meio da roça, onde trabalha o agrônomo de modo geral.
Mas não tinha essa coisa que as pessoas falam de cuidar das pessoas, descobrir a cura de doenças. Eu gostava da ciência. Tanto que, na faculdade, eu entrei para fazer pesquisa.
Quer dizer, o que eu achava que ia fazer era pesquisa. Fui lá para a biofísica. Acho que a única pessoa que gostava de biofísica na faculdade era eu.
Comecei a estagiar na biofísica, depois na histologia, a fazer pesquisas de fígado e tal. Mas, ou eu não dava para aquilo, ou não tive nenhum apoio.
E aí, resolvi ser médico normal mesmo, e comecei a me interessar e a estagiar pneumologia.
Na pneumologia, vi que a clientela era de velhos ou de crianças.
Eu achei que a criança era mais interessante e decidi fazer pediatria.
Tinha um colega de consultório, clínico que trabalhou a vida inteira comigo no consultório, e ele dizia que tinha muita inveja de mim, porque os pacientes dele todos morriam, os meus não. Os meus, passavam para o clínico.
Fui fazer pediatria.
Aí eu tive, pessoas importantes na minha vida. Tive várias e foram muito importantes.
A primeira foi a Raquel Nisquier. Eu fui dar plantão na Suseme, no, Hospital Miguel Couto no plantão dela que era excelente pediatra e excelente pessoa, excelente profissional, e que além de ensinar, dava muita força. Aí eu aprendi muita pediatria e muita ética e a tratar a criança e os pais.
Fiquei dois anos, fiquei amigo da Raquel, que me ensinou muita coisa, e me deu uma chance de fazer uma coisa que eu já gostava muito.
Ela não gostava de terapia intensiva.
Então, me mandava sempre para ver os casos das crianças, que naquela época ficavam no CTI de adultos. E eu ficava lá vendo e aprendendo, me interessava por aquilo. Comecei a aprender muita coisa.
Eu não gostava da pediatria do Pedro Ernesto, me senti muito melhor lá no Miguel Couto.
Também foi a Dra Raquel que me chamou para o primeiro emprego no Hospital Salles Neto que era dirigido e reinventado por ela na quela época.
Paralelamente a isso, no quarto ano, passava pelo rodízio na pneumologia, e por coincidência foi quando foi aberto o CTI lá do Pedro Ernesto. Participei da implantação de ver doente a carregar cama e soldar fio de monitor.
Eu conhecia já um pouquinho de eletrônica, porque tinha feito um curso de eletrônica quando era adolescente. E foi muito bom, gostei muito daquele estágio do CTI e de como fazer um CTI.
Então, desde essa época, eu já conhecia, gostava dessas duas visões de CTI. O chefe na época era o Hélio que era um cara muito bom na pneumo e boa gente. E tinha um outro que eu gostava muito na pneumo o Alfredo. Ficou meu amigo até, passa as tardes vendo abreugrafias com ele e aprendendo a ver RX de tórax.
Quando a gente se formou, eu não queria ficar na residência de jeito nenhum, não gostava da pediatria de lá que na época não atendia todo mundo e praticamente só tinha casos mais raros, faltando as desidratações e desnutrições que lotavam os hospitais públicos da época.
MP final do estágio do Miguel Couto a Drs. Raquel me deu uma carta de apresentação parta residência no Hospital dos Servidores que era a melhor residência em pediatria na época

E aí, eu fui lá. Cheguei lá nos servidores, estava concorrendo com muita gente com melhores cartas de apresentação e não fui escolhido,
Essa foi a outra grande sorte que eu dei na vida. Eu não fui escolhido
. E aí, mas o chefe da pediatria me deu uma indicação para o Hospital de Bonsucesso, que ia começar a residência em pediatria naquele ano.
E foi a maior sorte porque, que lá eu encontrei duas feras,
eram o Fernando Kaplauch e o outro era um grande pediatra que tinha voltado da Alemanha, o Magalhães Gomes, que se especializou em equilíbrio hidro eletrolítico e tinha um livro, que eu comprei até na época e tenho até hoje. E esses dois caras eram os caras que estavam, assim, 20 anos na frente da pediatria.
Porque, naquela época, se fazia um monte de coisas erradas principalmente na hidratação e tratamento de algumas patologias. Essa parte da medicina, hidratação, correção de acidose e outras terapias relacionadas a líquidos e sais estava mudando.
Eles já tinham essa noção de fazer soluções hiper osmolares, hidrataçãomrápid, uso de respirador em crianças e outras coisas. Começamos lá também a fazer alimentação parenteral.
Foi um dos primeiros lugares do rio a fazer alimentação parenteral.

[Luiz Lima]
Outro parêntese. A alimentação parenteral aqui no Rio de Janeiro também começou nessa época
Você tinha que preparar tudo no centro cirúrgico. Colocar os ingredientes. Hoje em dia está tudo pronto.

[Artur Fonseca]
E era um castigo fazer aquilo.
Foi uma história de sucesso. E não tinha bomba de infusão, não tinha nada, o controle era acordado olhando.
Teve um colega, até um fato interessante, que o cara dormiu e o negócio correu pouco e o cara ficou desesperado,já tinha levado uma bronca no outro dia e então ele bebeu para não deixar vestígio.
Enfim em bonsucesso eu conheci estes dois grandes médicos que me ensinaram muito.
Lá aprendi coisa pra caramba. Zaguri, que era da nefrologia infantil.
uma equipe de cardiologia que era fantástica também.
Então estudei pra caramba, aprendi pra caramba. Pelo lado prático, eu dava plantão lá em Bonsucesso com outra pessoa importante da minha vida, que foi a Nair Campos que tinha um consultório muito grande.
Então, a Nair também gostou de mim e me chamou pra trabalhar com ela.
E o trato que ela fez comigo era o seguinte. Nas quintas-feiras, ela ficaria só no consultório, não atenderia nenhum telefone. E eu atenderia todos os telefones e faria todos os atendimentos em casa. Quinta-feira era um dia que eu saía de casa às seis da manhã e voltava meia-noite fazendo atendimento. Aí tive uma grande ajuda na minha vida financeira.
Ela nunca me cobrou o tostão pelo atendimento que eu fazia. Aí, posteriormente, já com a residência terminada, ela me passou as quintas-feiras, ficava no consultório e atendia as chamadas.
Fiquei nesse consultório até me aposentar cerca de 30 anos no consultório trabalhando neste mesmo esquema. Eu tinha minha clínica, mas atendia os doentes dela também.
E ainda tinha outra vantagem. O irmão que trabalhava no mesmo consultório em outra sala, era clínico e intensivista lá no Andaraí. Um cara muito bom um clínico muito bom. Qualquer dúvida recorria a ele.
e discutia os casos do consultório. Era quase uma sessão clínica.
Quando era uma doença mais complicada, eu o chamava. Cheguei a ver alguns pacientes dele internados também.
Enfim, foi muito bom.
Mas, enfim, na residência aprendi muito. E ainda arranjei um emprego bom e o início de um consultório.
Também graças a essa residência logo no final do primeiro ano fui chamado para trabalhar na URPE que era um ótimo pronto socorro pediátrico, lá se atendiam os pediatras mais famosos do Rio e o serviço era tão sério que os contratados como eu sempre trabalhavam com um dos donos no plantão, era um ótimo lugar para aprender e trabalhar.
Outra pessoa que me ajudou muito também foi a Tânia. A Tânia era uma obstetra com uma clínica muito grande.
Não sei se você chegou a conhecer, trabalhava no Miguel Couto. E também ficamos amigos.
Eu tinha feito na faculdade três anos de obstetrícia na Clara Basbaum. Também não existe mais.
Tinha concurso também. Fazia concurso, entrava. Aprendia muito.
Sabia fazer cesárea. Era um obstetra bom.
A Tânia também era a chefe de plantão de obstetrícia do Miguel Couto no meu plantão e do plantão na Clara Basbaum.
Então também ficamos amigos. Ela passou a me chamar para fazer as salas de parto dela.
Foi uma época boa e também nessa época, houve aquele concurso para o INAMPS.

[Luiz Lima]
Não, ainda era em INPS. Foi em 76.

[Artur Fonseca]
Bom, aí teve a prova…
Continuei nessa luta trabalhando igual um cão. Fazia a sala de parto, atendia os clientes da Nair. Já tinha acabado a residência.
Dava plantão todo domingo na URPE. E aí teve a prova do INPS e eu passei. Eu estava namorando já nessa época.
Namorando firme, já com intenções de casar. E a minha namorada, na época, morava na Tijuca. A gente ia morar na Tijuca.
Aí fiz uma má escolha. Fui para o (hospital) Andaraí. Ela também era médica pediatra e fomos nós dois para Andaraí.
Foi uma péssima escolha, porque fui muito bem colocado na prova. Podia ter ido para… Para, sei lá, outros como Bonsucesso mesmo ou servidores.
Mas fiz essa má escolha. Isso foi uma parte ruim que eu encontrei. O hospital, na época, era razoável, mas foi só evoluindo para o ruim, para o pior, para o pior, para o pior. Fique muitos anos no ambulatório, que era a parte da pediatria que menos gostava, quando houve o segundo concurso ai sim fui trabalhar na rotina da pediatria onde era responsável pelos residentes e dava plantão as quartas, ai sim passei a gostar muito de ir trabalhar. Sempre tinha um monte de estagiários no meu plantão, assim continuava mais em funções de ensino. Foram bons tempos
Cheguei a ser até chefe da pediatria por eleição.
Durante um ano. Depois tiraram o meu cargo. A força de que eleição não valia porra nenhuma.
Então eu trabalhava na URPE, trabalhava fazia parto lá pra Tânia, fazia os clientes da Nair. Enfim, trabalhava igual um doido. E na URPE eu fui crescendo, crescendo.
Fui ficando mais tempo lá. Saí do plantão domingo e fui plantão de dia de semana.
E um dia, aí fui chamado pra ir trabalhar no Gaffré. O Azor, o chefe da pediatria me chamou. Não sei também como é que ele me descobriu,
Ele internava as crianças lá na URPE, era bom pediatra, o Azor. Então a gente conversava muito, trocava ideias, se ajudava muito.
Ele foi chamado pra ser diretor da pediatria do Gaffré e me chamou pra ir pra lá. Foi eu e o Sérgio Cabral, que era um colega que também trabalhava na URPE. Era pouco mais novo que eu.
E nós ficamos amigos. Eu e o Sérgio ficamos lá trabalhando na pediatria junto com outros colegas também ótimos. E aí um dia, conversando à toa na rua, ele disse: vamos fazer um CTI, vamos fazer um CTI.
Resolvemos fazer um CTI. Chegamos lá pro diretor da URPE dissemos: “vamos fazer um CTI, tem um espaço ali. E aí juntamos um dinheirinho e com ajuda do Luís Genes, que já tinha um CTI infantil ali na própria URPE junto com um primo dele que tinha voltado de Londres onde aprendeu Terapia intensiva Neonatal.

O cara era muito bom em UTI Neonatal. E o Genes era um dos donos, e trabalhava lá.
Então o Luis Genes da nossa turma deu uma ajuda. Ele tinha um material, monitores, respiradores e outros, que não estava usando mais. Vendeu pra gente. Um preço que a gente podia comprar E começamos.
Foi o primeiro CTI particular exclusivamente pediátrico.
Porque tinha já na Lagoa um outro, mas era tudo junto. Pediátrico e neonatal.
Na URPE as equipes eram separadas. Pediátrico e neonatal. E aí foi muito bom.
Foi uma época boa em termos de aprendizado, na URPE tinha
o Dr.Fernando Clapauch, antipático, mas sabia o que fazia. Tinha um diagnóstico maravilhoso. Não tinha um bom trato com os pais mas era ótimo médico.
Mas era muito bom e o CTI foi rolando muito bem durante muitos anos. Nessa época já era anos 80.
Eu comecei a me interessar também por computador, a aprender opções, coisa e tal. Aí convenci o diretor da URPE Dr. Maurício Torós, a comprar um computador na época era um Apple. Eu tinha um amigão também que era meu vizinho lá em Tijuca que entendia de computadores que me ajudou muito. Aprendi a programar e comecei a inventar coisas. Consegui fazer a folha de pagamento automatizada, estoque e alguns programas médicos. Tudo da minha cabeça.
Fazia a folha de pagamento da Policlínica inteira no computador. Fazia controles de farmácia etc.
Aí eu já era plantonista do CT, responsável pelo CTII, plantonista da URPE e responsável pela informática.
Ia lá todo dia para discutir os casos. E ainda arrumei essa função administrativa. Resultado. Eu saía do Andaraí de manhã e ficava na URPE até 10 horas da noite. Nesse intervalo, eu falei que também estava trabalhando no Gafrée como professor. Foi a época que eu mais gostei na vida foi de ser professor.
Gostei muito. Fiquei muito amigo até da filha do Dr. Azor, que de aluna hoje é a diretora da pediatria. Aconteceu que houve uma lei que dizia que você não podia ter três empregos públicos.
Eu me ferrei porque o Gafrée não era público. E nesta mesma época, o Gafrée se tornou público.
Aí eu passei a acumular. Tive que optar por sair de um dos lugares.
Na verdade, optei por sair do Gafrée. É onde eu ganhava menos. Mas deu uma confusão.
Não importa aqui. Fui demitido de uma das minhas situações do Ministério da Saúde. Depois fui para a Justiça e ganhei de volta.
Mas tive que sair do Gafrée. Só fiquei trabalhando de manhã no Andaraí. De manhã, às vezes, ia de tarde e, no resto do tempo, ficava na URPE, onde fazia de tudo.
Ainda me meti em outras situações mais complicadas. Em 1980.
resolvi fazer aquela pós-graduação lá da COPE. Engenharia Biomédica.
Eu fui. Engenharia Biomédica. Acabei o curso.
Fiz lá o projeto. Depois não deu para trabalhar com isso porque já estava muito comprometido com a pediatria
Estava ganhando bem. Só serviu para aprimorar um pouco isso que eu já gostava. O negócio de computador.
E tudo foi caminhando muito bem até 90. Estava tudo ótimo.
Trabalhava muito mas com prazer, era enturmado nas organizações científicas, dava aulas participava de congressos, ganhei por proficiência o título de especialista em terapia intensiva e alimentação parenteral..
E em 90 foi uma catástrofe. Porque acabou a pediatria do Andaraí. Resolveram que não ia ter mais pediatria.
Aí eu fiquei lá. Pedi para sair porque na época tinha vaga no hospital da Lagoa e no Fernandes Figueira que tinham CTI pediátrico e onde conhecia todo mundo.
Mas não me liberaram de jeito nenhum. Aí me botaram no arquivo médico do Andaraí e no plantão de quarta-feira com o hospital ja bastante deteriorado, serviços acabando, maus diretores.

[Luiz Lima]
Sei. É o exílio, né?

[Artur Fonseca]
É o exílio. Porque não tinha função para mim. Eu era rotina de pediatria.
E continuei só no plantão. Eu ia lá para o arquivo médico. Dava uma cochilada.
E o pior e que na URPE onde eu achava que ia me aposentar, houve uma briga lá entre sócios. Um achava que o outro roubava.
O outro achava que não roubava. Acabou é que acabou. do dia para a noite. Acabou o CTI e a URPE.
Aí a URPE foi englobada pela Policlínica de Botafogo. Virou uma extensão do serviço público que tinha lá. Então, de uma hora para a outra, eu fiquei completamente sem emprego e sem nada que eu gostasse de fazer.
Minha pediatria acabou. Ainda me chamaram para comandar um CTI da Lagoa que tinha falido e tentou se reerguer, mas não deu faliu mesmo.
Ainda fiquei lá comandando, mas o cara era trapalhão, não pagava ninguém. Então, não deu. Não deu certo.
Fiquei lá dois anos e acabou. Aí depois me chamaram para fazer uma pediatria do Rio Mar. Eu e uma pediatra chamada Drª Penha, ótima pediatra e pessoa, mas o dono do hospital era intolerável e não deu para continuar.
[Luiz Lima]
O dono do Rio Mar é um italiano. Eu conheci esse cara. Ele não era maluco não, mas ele tinha uma história complicada.
Eu conheci a família . São todos Calabreses.

[Artur Fonseca]
O cara, aqui entre nós, era tão esquisito que um dia ele chegou para mim, e disse: “Eu queria que você visse o que interessa para você.”
Eu já estava meio puto porque a gente trabalhava no CTI que eu tinha criado, que ficou mais a Penha no geral e eu no CTI. Cada vez vinha um material diferente.
Você se acostuma com o escalpo, acostuma com a sonda, e no outro mês trocava. Aí eu fui lá ver. Imagina um hangar de avião cheio de tudo que você possa imaginar.
Ele dizia que comprava sobras das concorrências nos Estados Unidos pois você tem que mostrar que tem que você vai vender. Acontece que quem perde a concorrência fica com um estoque de material enorme, e ele comprava esse troço.
Comprava tudo que tinha, botava no avião e trazia. Cada monitor era de um tipo, de uma marca, cada respirador era de um tipo. Não dá para trabalhar assim.
Acabou não dando certo ele queria muito lucro e o que era muito para nós médicos para ele era nada.
Aí eu fiquei… Fiquei sem ter onde trabalhar. Quer dizer, dava um plantão no Andaraí ficava à toa no arquivo médico. Ainda mantinha o consultório na quinta mas aí já era o tempo domínio dos planos de saúde e como nem eu nem a Drª. Nair entramos para planos de saúde, a clientela tinha diminuído muito.
Estavai chateado com esse trabalho. E aí, numa dessas nossas festas, a Drª.Vânia de nossa turma me convidou pra ir trabalhar lá na ANS que tinha acabado de ser fundada era uma proposta boa, salário um pouco maior e como não tinha mais chance de fazer terapia intensiva já que em todo lugar que tinha para trabalhar, dono ou chefe falava aquela velha frase, não, você foi chefe de todo lugar, você é conhecido . Se eu te botar como plantonista, vai dar conflito com o responsável, que naquela época já era mais jóvem.
Enfim, eu aceitei a proposta da Vânia, fui trabalhar lá na ANS. E foi muito bom, trabalhei bem. Tive que aprender umas coisas diferentes, mas como eu já mexia bem com o computador, deu pra trabalhar.
E fiquei lá até que teve uma confusão burocrática, porque eu fui cedido com 40 horas, depois inventaram que só podia ser cedido com 20 horas aí me devolveram para o Ministério da Saúde cinco anos depois que eu já trabalhava na ANS. Eu não queria voltar pro Andaraí, então a Drª Luzia também da nossa turma, que na época tinha um cargo de chefia no Estado, me aceitou na Secretaría de estado..
Aí fui trabalhar, fiquei trabalhando com a Luzia uns tempos, que foram ótimos. Trabalhamos lá na parte de regulação das UTIs neonatais.
Que até hoje o Estado e o município faz convênios, Fiquei lá até me aposentar, então me aposentei também na ANS, lá. Já tava cansado de trabalho burocrático.
Aí fiquei três dias aposentado. Logo depois o Dr. Mário Novais que já conhecia da regulação das UTIs neonatais, já que ele tinha uma grande unidade no Hospital Daniel Lipp em Caxias me chamou para direção técnica desse hospital em Caxias. Fui pra lá, fui fazer uma coisa também que eu nunca tinha feito, que era dirigir um hospital.
Eu já tinha dirigido UTI mas não um hospital que triplicou de tamanho enquanto estive lá.
Aí fiquei dez anos lá, depois tive uns problemas de saúde, quebrei a perna, depois tive que botar stent, depois tive outros problemas , e me aposentei de vez. Há uns sete anos que estou aposentado.

[Luiz Lima]
– É, te aposentaram, né? A biologia te aposentou.

[Artur Fonseca]
– É, na verdade, eu cheguei aí a trabalhar de muleta e tal, e Caxias é brabo de ir, né? Eu comecei indo de carro, e aí comecei a ver gente sendo assaltada na minha frente, ali na entrada da linha vermelha, ali.
Por incrível que pareça, em frente ao quartel da PM, onde eles assaltavam.
Então cansei de ir. Aí comecei a ir de ônibus. Pô, mas de ônibus também dava um engarrafamento, era difícil.
Aí comecei a ir de trem. E foi a parte mais tranquila. Eu lia pra caramba, porque eu levava meu kindle, ficava lendo uma hora e meia até chegar lá, pegava o metrô aqui, ia até a central, da central pegava o trem até Caxias.
Mas aí de muleta e tal, como você diz, a biologia me aposentou. É isso. E agora faço nada.
Só fico estudando, lendo, fazendo minhas coisas de informática, e mais nada.

[Luiz Lima]
– Não, é uma questão só de inventar coisa também. – É. – Isso foi o que aconteceu comigo.
Eu me aposentei de tudo. Aí falei assim, e agora, o que eu vou fazer? Aí comecei a pensar bobagem, comecei a escrever, comecei a fazer um monte de coisas desse tipo.
Esse, por exemplo, de pegar os depoimentos, foi uma coisa que surgiu, mas que isso já estava lá atrás, porque isso tem muita história.
Você está contando uma coisa que, aparentemente, é um fato isolado, mas não é, porque você começou a citar uma série de outras pessoas, e essas outras pessoas também fazem parte da história da cidade. Então, se você pegar a história delas, daqui a pouco, isso tudo começa a se juntar, e forma um quadro, embora ainda não esteja muito claro, mas só com os 20 depoimentos que eu tenho, já deu para ver que tem uma teia aí.

[Artur Fonseca]
— E tem uma coisa interessante, que eu não falei, mas você deve ter entendido, que nessa coisa toda teve uma história que se passou. Por exemplo, quando eu fui lá para o Andaraí, você se lembrou que era INPS ainda.

[Luiz Lima]
Era o INPS.

[Artur Fonseca]
E nessa época, quando a pessoa ia ser atendida, você perguntava, mostre sua carteira de trabalho. Se não tivesse, mandava embora.

[Luiz Lima]
Exatamente. Era para o segurado, não era para todo mundo. E essa foi uma das grandes batalhas da saúde pública brasileira, Porque, de fato, nós estávamos na faculdade e a gente não sabia, mas existia um mundo inteiro na Previdência Social que atendia as pessoas. E na faculdade, a gente lidava com o paciente no ambulatório.
E não víamos esse quadro. Eu só fui perceber esse quadro quando fui trabalhar na INPS, e comecei a olhar os orçamentos da assistência médica. do INPS, :
– Mas isso é dez vezes mais do que o orçamento do Estado e da universidade. somados

Ou seja, tinha dinheiro a rodo na Previdência Social e faltava dinheiro na saúde pública para as coisas mais simples que era vacinação, cuidados primários. Essa foi uma das grandes batalhas
Isso foi em 1976. Pouco depois de a gente se formar, teve a conferência de Alma Ata lá no… Sei lá, no Cazaquistão, Uzbequistão, um lugar desse aí, em que a OMS traçou duas metas, Saúde para todos no ano 2000 e o Cuidados Primários de Saúde.
A saúde para todos no ano 2000 nunca foi atingida. Virou letra de samba.
Mas os cuidados primários para a saúde ficaram e começaram a tomar corpo. A origem da saúde da família, a origem de todas essas coisas aí, da própria estrutura do SUS, veio daí. Era a universalização da assistência médica.
O INPS só atendia o segurado,

[Artur Fonseca]
E junto com isso, a gente participou da assinatura do SUS. E, por incrível que pareça, foi assinada pelo pior ministro da saúde que já houve, aquele Alcenir Guerra.
E esse próprio Alcenir Guerra, quando eu falei que o Andaraí acabou a pediatria, ele nomeou lá para ser diretor do Andaraí um cara que ele era técnico de laboratório. O cara acabou com o hospital e resolveu acabar com a pediatria, que atendia cerca de 300 crianças por dia.

[Luiz Lima]
O Andaraí era o antigo hospital dos marítimos. E era um bom hospital. Tinha bons equipamentos, bons médicos, conheci vários médicos que foram dos marítimos.
Depois aquilo deteriorou. Agora parece que está melhorando. O Andaraí chegou a ter um centro de queimados.

[Artur Fonseca]
Tem, tem até hoje, mas está acabado.
Tinha o centro de hemorragia digestiva também, que era famoso lá. O CTE do Andaraí, a gente contava na faculdade, fazia concurso para estagiar lá,
Que todo mundo queria.
Eu até fiz e não passei nesse concurso.
Essa minha derrocada foi toda no Collor. E outra coisa que está entremeada nessa história toda, que eu nem falei, foi a mudança do atendimento no particular. Eu comecei na URPE, e era tudo pago em cash, não tinha plano.
E depois foi surgindo o plano, e a URPE foi resistindo, foi resistindo, no final não teve como resistir. Aí começou a aceitar o plano de saúde, que também foi uma mudança radical em tudo. Começou a entrar lá para ser atendido, quem não tinha como pagar.

[Luiz Lima]
Isso aí mudou até hoje, essa estrutura. Inclusive, isso é alguma coisa que ainda não foi bem escrita, bem detalhada, essa transição do SUS, que abrangeu tudo, e a questão dos planos de saúde, porque isso foi uma mudança radical..
Só que, na verdade, o plano de saúde é estatal. Ninguém presta atenção, mas ele sobrevive por causa da renúncia fiscal do governo. Ou seja, tudo que você paga para o plano de saúde, você desconta do imposto de renda. Então, na verdade, quem paga o plano de saúde é o contribuinte que tem que suprir aquela renúncia fiscal do outro.
Então, toda essa onda dos planos de saúde, no fim, vai cair na conta do governo. Não tem dúvida nenhuma.
Vai cair. Aí vem a privatização, tudo conversa fiada, porque o governo já bota dinheiro nisso tudo. Todos os planos de saúde, dos mais sofisticados até o mais pé de chinelo, todos eles vivem, sobrevivem da renúncia fiscal.
Tanto que a luta desses planos de saúde é por conseguir estruturar uma clientela que seja rentável. Aí entram outras considerações do ponto de vista epidemiológico, que, aliás, é uma coisa pouco estudada, quer dizer, não é muito utilizado no Brasil. É um conhecimento epidemiológico para você poder dizer, não atende esse grupo não, que você vai ter prejuízo.
Claro, se você for atender só velho, você vai ter prejuízo. Enfim, tem até um plano de saúde aí, que até eu faço parte, o Medisênior, que é especializado só na terceira idade. É impossível. Eu fico vendo assim, esses caras vão…

[Artur Fonseca]
Estatisticamente é impossível.

[Luiz Lima]
Pois é, eles cobram e tal, e todo esse pessoal todo desconta o imposto de renda. Por enquanto, eles estão sobrevivendo. Eu não sei até quando vai isso.
Porque é muito complicado você pegar uma população acima de 60 anos para fazer um plano de saúde só com a contribuição. Então, certamente, eles vão ser subsidiados. Bom, mas isso é uma outra conversa, claro que dentro desse projeto aí da página, a ideia é que, mais adiante, quando já tiver um número de depoimentos razoáveis, já está chegando lá, fazermos algumas mesas redondas ou podcasts abordando esses temas.
Os planos de saúde, aborto, tratamento de CTI, acidentes, essas coisas que são do cotidiano,
[Artur Fonseca]
A Vânia podia te contar essa história, que ela começou nisso, desde o início, essa história dos planos de saúde.
[Luiz Lima]
Exatamente. Antes, no passado, nem se chamava plano de saúde, nem as beneficências. Não, as beneficências, elas surgem, elas fazem parte da história.
O modelo brasileiro foi… Tem um pesquisador da Fiocruz que estudou bem isso, como que foi essa história. Tem um momento no Império em que o imperador lá, o governo tinha que decidir, pelo plano A, que era dar incentivo às Santas Casas, ou por um outro plano B, que é dar incentivo aos municípios, que era meio cuidados primários de saúde, que era uma tendência europeia.
Então, foram os sanitaristas que estudaram na Europa que vieram com essa ideia. Tem que municipalizar, tem que botar o atendimento local. E tinha um outro grupo, que era o grupo dos santacasistas.
Acabou prevalecendo das Santas Casas, que foi o modelo que ficou até o surgimento do INPS e agora no SUS. Mas isso é um assunto que nós vamos tratar quando a gente fizer essa Mesa Redonda, com os veteranos, porque boa parte dessa história, se os veteranos não estiverem lá contando, vai se perder.

[Artur Fonseca]
Eu fiz um mestrado quando eu estava lá no INS, e a minha tese foi sobre portabilidade e plano de saúde. Na época foi o primeiro que estudou isso. Mas no início dessa minha tese, eu consegui uma história muito boa dos planos de saúde.
Para chegar a dar principalmente a parte econômica, como é que a coisa funcionava. Se quiser, depois eu te mando. Até hoje, eu recebo aqui na academia, sabe o que que é, né?
Vez em quando citam o seu nome em algum trabalho. e, ainda citam essa minha tese. Que foi a primeira na época.
Aliás, foi até muito engraçado, essas coisas do destino, porque eu fiz o mestrado e por uma questão de retribuição, eu perguntei lá os diretores do INS o que eles achavam interessante eu fazer. Todos falaram, não, faz sobre portabilidade, que nós estamos estudando aqui. Aí eu fiz a tese, fui lá, passei, fui elogiado e tal.
Semana, mês depois, fizeram lá uma comissão para estudar a portabilidade. Me chamaram? Não.
Muito engraçado, né? Aí fizeram lá uma portabilidade muito ruim até, mas enfim.

[Artur Fonseca]
E tem coisas que a gente não pode nem comentar.
[Luiz Lima]
Isso já aconteceu. Teve um episódio que um colega nosso da UFRJ, que nem devolveu o depoimento até agora, porque durante a entrevista ele fez umas citações deselegantes sobre um monte de gente.
E aí ele falou, não, não, isso não. Pediu para tirar, mas ele está para tirar até agora. E teve um episódio do nosso colega, o Osvaldo, que durante o curso de graduação, teve uma briga lá na pediatria com o Rui Rocha.
Teve uma situação complicada, todo mundo comentava isso. E no depoimento dele ele cita isso, e logo em seguida ele faz um comentário no qual explica como se reconciliou com o Rui. E explica qual foi a situação, os dois estavam passando por um estresse danado, o Rui tinha perdido, acho que perdeu uma filha, uma coisa assim, e o Oswaldo também tinha, acho que a mãe dele tinha morrido.
Os dois estavam muito tensos, aí chegou ali e acabaram saindo quase no tapa. Mas, depois eles se reconciliaram e chegaram a um acordo e tudo. Teve até desdobramento, porque o Rui pedira para não darem lá um documento para o Oswaldo.
[Artur Fonseca]
O Rui exigiu, se eu não estou enganado, e depois eu vou te contar mais um desdobramento disso, o Rui pediu uma declaração dizendo que ele tinha problemas psiquiátricos.
Comigo, sabe qual foi o respingo que eu levei dessa história? Eu tinha, fazia pediatria, apesar de não gostar, mas fazia, e a minha média era sete e meio em pediatria, quer dizer, eu iria passar direto. Neste episódio, Osvaldo, fez-se uma comissão de alunos para tentar fazer as pazes e eu fazia parte.
E o Rui não gostou. Quando eu fui lá para ver minha nota final, eu tive a surpresa de ter em… Como é o nome da nota que eles davam? Pelo desempenho. Como é que chamava aquilo? Não era comportamento. Zero.
O que me botava em segunda época. Aí, fiz lá a segunda época. Fiz a prova, me lembro.
Tirei nove na prova, final. Anos depois, fiquei achando que era sacanagem. Porque, pô, era bom.
Eu queria ser pediatra. Isso podia até enfeiar a minha carreira, né? Quando eu fui pedir um currículo vitae, isso não aparece.
Ele foi só sacanagem mesmo. Estou lá em pediatria aprovado com média nove, não foi nem sete e meio.
Isso foi para me sacanear e ficar estudando nas férias.

[Luiz Lima]

Eu agradeço muito a você, a paciência da entrevista. E assim que eu transcrever, mando para você. Você lê e só me diz assim, ok. Me devolve o corrigido, ou me devolve na íntegra.
Espero que você tenha um fim de semana muito bom e um Natal muito bom também. Ok, obrigado.

 

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