Você gostaria de falar conosco?

JORGE M B C CRUZ FILHO

Fale principalmente da sua vida profissional, a partir do momento que você entrou na faculdade.

JMBCCF
Minha família é de médicos. Tenho muitos primos médicos com quem convivia e compartilhávamos o ideal de “salvar o mundo, ajudar as pessoas”.
Eu nasci no Acre. Vim para o Rio de Janeiro com 14 anos, em 1965. O Acre tinha acabado de se tornar Estado e os territórios federais tinham asseguradas vagas no Colégio Pedro II. Assim, fui estudar na unidade de São Cristóvão e, posteriormente, na unidade do Centro. Como aluno do Pedro II, comecei a me deslumbrar com os colegas e com o Rio de Janeiro.

Cursei o pré-vestibular no Curso Miguel Couto, na mesma turma de dois futuros colegas na Faculdade de Ciências Médicas (FCM): o Bruno e o Luiz Maurício, com quem estudei muitas vezes, pois éramos vizinhos. Eu tinha uma faculdade idealizada, de maneira que houve um certo impacto quando vi a realidade, como as coisas funcionavam, mas nada que me fizesse de desistir. O resto, foi o convívio com os colegas, sempre muito bom.

Na faculdade, após cursar todas as cadeiras básicas, decidi fazer pediatria, especialidade esta que me colocaria em contato com a infância. Mas eu tinha, também, o intuito de fazer um trabalho social. Durante a faculdade, experimentei dois tipos de vivências: uma técnica, relacionada ao estudo da Medicina e à preparação para a profissão, e outra afetiva, decorrente do relacionamento com amigos, sendo Jaime, Jane, Luiz Maurício, Mourad e Sérgio Koifman os mais próximos. O Sérgio Koifman foi quem me convidou para filiar-me ao Partido Comunista, no PCP, e eu entrei na célula dele.
Lembro-me com muita nostalgia do período da faculdade, daquele companheirismo, principalmente com Mourad, Sergio Koifman e o Bacha. Tem uma história interessante. O primeiro vinho de boa qualidade que eu tomei foi na casa do Bacha. Foi um vinho verde português, Casal Garcia. Até hoje eu me lembro disso. Imagine, eu, um caipira lá do Acre. Bom, o convívio com os amigos e a filiação ao Partido Comunista me abriu muito intelectualmente. Eu gostava de ler, e tinha lido muitos romances, principalmente os clássicos russos, Dostoievsky e Tolstoi, mas comecei a ler outras coisas, a me interessar mais por essa parte política. Posso dizer que minhas vivências mais interessantes enquanto aluno da FCM foram mais ligadas a essa parte afetiva e à minha formação intelectual.
Terminada a faculdade, partimos para a residência. Cada um de nós foi, então, para um lado.

Após a conclusão do curso médico, consegui uma vaga para a residência em pediatria no Hospital Pedro Ernesto. Fui também aprovado no concurso do Ministério da Saúde e surgiu a oportunidade de trabalhar no Hospital da Usina Nuclear, recebendo um salário mais alto, a convite do chefe, o Nelson Valverde. Juntos, fundamos o Hospital da Praia Brava, que fica próximo da Usina Nuclear. O hospital começou muito pequeno, mas cresceu com o aumento da população e hoje é um hospital geral.

Na residência na pediatria do HUPE as exigências eram muitas, principalmente a dos nossos professores. Um de que eu lembro com muito carinho foi o Nicola Albano, um dos meus mentores, um cara muito importante na minha formação. Nicola era um cara brilhante, falava três línguas, inclusive francês, que era uma língua de que eu gostava. Peguei muita carona com ele para ir para o HUPE. Eu morava em Santa Tereza e descia a pé até lá embaixo, perto da Lapa, para encontrá-lo. Além da pediatria, tínhamos também um interesse extra técnico em comum. Ele gostava muito de cinema, de teatro e de literatura. Nicola foi um dos introdutores da neonatologia.

Após a residência, trabalhei no Hospital da Praia Brava como pediatra geral por cerca de quase 30 anos. Cuidava do que a gente chamava, na época, de Berçário Patológico, atendia pacientes no Ambulatório e na Emergência. O hospital fica próximo à Rio-Santos, então tínhamos alguns atendimentos de emergência.
Desse período, tenho duas lembranças muito tristes e desagradáveis. A primeira, de uma criança pequena que fora passar as férias no Condomínio do Frade com os pais e que caiu na piscina. Quando os pais chegaram, não houve mais o que fazer. Mesmo assim tentamos transferir para um hospital de referência. A outra lembrança é de um acidente ocorrido num acampamento nas praias durante o verão: um garoto de uns dois anos estava na barraca com os pais que manuseavam um fogão a gás de bujãozinho. De repente, a barraca queimou com a criança dentro. Ela foi levada para o Hospital da Praia Brava e transferida para a Hospital da Aeronáutica, mas a criança foi a óbito.
Eu parei de fazer pediatria quando comecei a fazer as salas de parto de meninas que tinham nascido comigo. Comecei a ser avô, um pediatra avô. As meninas tinham nascido comigo e quando engravidavam diziam: “o senhor também fez o meu parto” Falamos “fazer o parto”, mas na realidade eu era o pediatra numa sala de parto.
Naquele momento senti que precisava que fazer outra coisa.
Fui, então, cursar o MBA em Gerência de Saúde na Fundação Getúlio Vargas e, posteriormente, uma extensão em Auditoria Médica. Eu fiquei lá uns 3 anos e a experiência foi muito boa. Como curiosidades desse período, tive aulas com dois ex- colegas da FCM: o Alexandre Adler, no MBA e a Vânia, no curso de Auditoria Médica.
Após a conclusão dessa minha nova formação fui trabalhar durante algum tempo, cedido pelo Ministério, na Prefeitura de Angra, gerenciando a Santa Casa de Angra dos Reis. Larguei essa gerência por causa das questões políticas. Pouco depois, fui convidado, por uma ex-colega da FCM, de uma turma anterior à nossa, para trabalhar com ela no Banco de Sangue Regional. Cursei, então, uma pós-graduação em hemoterapia E fiz minha qualificação com o Amorim. e passei a gerenciar, com ela, o Hemonúcleo da Costa Verde, que engloba quatro municípios: Mangaratiba, Angra dos Reis, Parati e Rio Claro. Me encantei, porque é um… é um lugar assim, muito vigiado, muito auditado, principalmente pela Anvisa.
E aí você vê que eu não tinha menor noção, porque na faculdade você não aprende isso. São 300 grupos sanguíneos. Você vai distribuir, você vai captar.
Todos esses processos foram me encantando e eu acabei por ser o responsável técnico do Hemonúcleo porque para ser o responsável técnico tem que ser hematologista. O responsável técnico de um centro desse tamanho tem que ser hematologista. Mas era interessante, a vigilância vigiava a gente, os caras eram chatos rapaz, tinha que estar com aquele negócio ali, tudo certinho. E nunca se conseguia 100%, sempre há as cobranças, isso, isso, etc.
No Rio de Janeiro, você tem ou em outros estados, você tem o Hemonúcleo regional, mas a gente é ligado ao Hemorio. Então funciona assim, você tem o Hemonúcleo e o Hemorio e nos hospitais, as unidades transfusionais, e é uma coisa muito complexa também.
A Nilce Castro, gerente do Banco de Sangue, me convidou para gerenciar e organizar o Hemonúcleo da Costa Verde, o que implica na captação e distribuição do sangue coletado. Em Angra, a oferta de sangue é menor que a demanda, porque no Brasil ainda não temos a cultura da doação. Outro aspecto que exige cuidado é a qualificação do doador. No Brasil, ainda não temos a universalização do tratamento de esgoto e, talvez por isso, muitos possíveis doadores tiveram hepatite, detectada na entrevista ou pela sorologia.
Quando comecei, isso já estava muito azeitado. Existia uma consciência muito grande, das responsabilidades, dos cuidados que você tinha. Já estava tudo muito azeitado. A gente tinha todos as normas que eram muito rigorosas. As bolsas de sangue são da melhor qualidade, todos os testes para os doadores, o PCR são muito bem feitos.
O que a gente chama de hemovigilância, né? Quando você tem uma sorologia positiva num doador então a gente faz todo um rastreamento de todos os doadores e de todos os receptores nos hospitais para onde foi sangue.
Porque a gente tem um controle disto.

Nós nunca tivemos uma interferência política porque ninguém queria botar a mão naquele negócio complexo. Era tão vigiado que ninguém queria ir para lá. Só quem gostava.

LFML

Durante esses 30 anos de pediatria você tem alguma lembrança que tenha modificado a sua interpretação ao longo desse tempo do que é ser um médico?. Quer dizer, alguma coisa que tivesse impactado profissionalmente?

JMBCCF
Eu sempre trabalhei no serviço público. No hospital, as coisas sempre foram um tanto quanto difíceis do ponto de vista técnico. Também a demanda era muito grande, os plantões eram extremamente pesados, com carga horária semanal de 30 h. Além disso, nem sempre tínhamos os recursos necessários para prestar um bom atendimento. Essa situação foi me cansado. Cada vez menos pessoas querem fazer pediatria.
Aposentei-me do Ministério mas continuei a trabalhar no Hemonúcleo da Costa Verde. Hoje sou o responsável técnico pelo Banco de Sangue da Costa Verde e trabalho também com Medicina do Trabalho. Adoro trabalhar.
Continuo trabalhando agora no hospital, porque eu sou um CLT, o mesmo hospital que eu sempre trabalhei na Praia Brava, Angra dos Reis, lá depois da usina.

LFML
Tinha outros colegas da nossa turma que trabalharam, né?

JMBCCF
Sim. Cleber, Neide, Paulo Volpato, Luzia, Hebe. Esta teve uma experiência muito boa. Acho que que tem uma enfermaria com o nome dela.

Deixe um comentário