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CLÁUDIO BARBOSA

 

Porque você decidiu ser médico?

 

Minha decisão de cursar medicina foi por conta da figura paterna. Meu pai era 50 e poucos anos mais velho que eu. Minha irmã mais nova, quase 15 anos. Minha decisão foi tomada num grande impulso, meio na referência do meu pai, que era médico. Mas ele nunca me falou nada, nem me perguntava sobre isso. Eu dizia: Pai, vou fazer faculdade de medicina. Ele respondia: Bom, vai em frente.

 

Minha família toda é mineira. Meu pai tinha duas fazendas, Ouro Fino e Santa Rita do Sapucaí, em duas cidades próximas. Ele era oftalmologista e montou um consultório, eu diria uma saletinha, numa casa que tinha em Ouro Fino, onde atendia o pessoal. Ele tinha uma caixa de lentes austríacas – uma beleza – e alguns instrumentos cirúrgicos também.

Ele também tratava catarata na fazenda. Eu assisti ele fazendo cirurgias que levavam cinco minutos, se tanto. Fazia uma incisão lateral e, com uma pinça delicadíssima, puxava o cristalino. Depois, ele simplesmente abria a pinça e o cristalino caía numa cestinha. Eu ficava admirado.

Não tinha ponto. Detalhe: a anestesia era tópica, com colírio.  Pingava lá no olho do cara, dava umas espetadinhas assim e perguntava: Está doendo? Se sim, dizia: Vamos pingar mais. Se não, fazia a incisão e terminava a cirurgia minutos depois.  Eu achava aquilo mágico. Eu e o capiau, que saía com o olho tampado. Ele sempre operava um olho de cada vez, precisava cuidar do protocolo. Mandava o cara não fazer nada, não botar a mão e voltar uma semana depois quando o curativo era retirado. O cara se ajoelhava, agradecendo o milagre. E pagava com galinha, porco, laranja, o que tivesse. Fazia questão de pagar e o papai falava que era muito.

Fiquei com essa imagem muito forte na cabeça e resolvi fazer medicina.

 

Eu e o Miguel Montera inauguramos o primário do Colégio Santo Inácio, em 1956. E aí, fomos seguindo, sempre juntos, até chegar ao Científico, que tinha dois cursos preparatórios: um para medicina e outro para engenharia. No terceiro ano, no nosso grupo preparatório para medicina éramos 17 alunos.

Eu e Miguel passamos para a UEG. Nós dois ficamos juntos desde sempre. Miguel, um cara adorável. Fui pediatra dos filhos dele. Acompanhei o final da vida dele. O Miguel foi uma doce criatura que a gente perdeu muito cedo.

Bem no início da faculdade, tomei a decisão de me casar, o que aconteceu em 1972, com a ajuda do meu pai. Papai ia muito para Minas e, no final da carreira, estabeleceu-se por lá. Por 15 anos, morei sozinho no Rio de Janeiro e essa foi uma das razões para minha decisão de me casar. Minha sogra, uma pessoa adorável que gostava de mim, deu força e, para facilitar a vida, cedeu o apartamento em que moramos até hoje. Então, casar representava uma vantagem colossal, mas também foi meio complicado porque eu ainda estava na faculdade.

 

Minha irmã teve cinco filhos e, para facilitar a vida, comprou uma Kombi

Eu a sublocava para fazer o translado de estudantes. Começava de manhã cedinho e ia até o final do dia. Eu também trabalhei com o Paulo Roberto, nosso Volpato. Sim. Fui fiscal de presunto. Ele me arrumou um emprego. Tinha uma relação com a Seara, aquela empresa lá do Sul, quando ela se instalou no Rio e contratava estudantes. A gente ia para os mercados, ficava andando para botar algum presunto mais na frente. Era tudo no horário livre.

 

Outra atividade que faço questão de ressaltar ocorreu com o Ricardo Akstein. Ele falava inglês fluentemente, era guia de turismo e participou de mais uma de minhas fontes de dinheiro: Quando meu pai foi morar em Minas, me deu um Fusca. Eu o usava para fazer visitas turísticas com o Ricardo. Íamos nós dois e mais três, até quatro turistas no carro.

 

Mais à frente fui contratado pelo Colégio Santo Inácio, onde fora aluno. O Padre Henrique Rodrigues me ajudou para caramba, me contratou como auxiliar de serviços médicos. Eu não sei nem se existe isso hoje na CLT, mas foi o meu primeiro emprego. Fui contratado para trabalhar no “Noturnos”, colégio inaugurado em 1969 para os alunos estudarem cursos técnicos. Eu fui contratado para atender o pessoal. Fui indo até que, quando eu me formei, tornei-me médico do Colégio Santo Inácio. Trabalhei anos lá, como médico.

 

Além dessa situação, no final ali para o quarto ano, meu pai era muito amigo do professor Walter, catedrático da Federal Fluminense, chefe da pediatria da Policlínica Geral, que hoje está abandonada. Simplesmente não funciona nada, você nem entra lá. Retomando, o Walter Pérez me contratou para ser técnico de raio-X. Eu acordava às cinco e pouco da manhã e ia lá para a Policlínica radiografar as crianças internadas. Chegava lá, tinha 30 pedidos de raios-X. Eu inventei um suspensório, uma espécie de fralda com suspensório, enfiei uns ganchos dentro para poder pendurar as crianças e eles ficavam lá. Durante anos eu fui técnico de raio-X. Tudo isso para poder bancar a faculdade. Não a faculdade em si, que era grátis, mas a vida de casado, já com uma filha…

 

No terceiro ano, eu já decidi ir lá com o Rui Rocha, nosso catedrático de pediatria. Ele era do hospital Pedro Ernesto e era sensacional. E tinha uma professora, a Edna, que me ensinou muito. Resolvi fazer pediatria. Não fiz residência lá, e acabei no Hospital da Lagoa.

 

Aprendi um pouco de cirurgia com …  Deus do Céu! Daqui a um pouquinho eu me lembro o nome dele. Ele era o chefe da cirurgia pediátrica do Hospital da Lagoa e andei pensando em fazer cirurgia também. Comecei a ajudá-lo lá no hospital, nas cirurgias mais simples de pediatria. Então veio aquele concurso do INAMPS, em 1976. Eu fui chamado em 1977, logo no primeiro grupo, porque tinha muita vaga de pediatria. Fui trabalhar no PAM da Praça Seca, o que consegui, através do filho do Walter Telles, o Werther Telles. O PAM da Praça Seca era o que mais atendia no Brasil todo. Fiquei lá um bom tempo, ralando porque era barra pesada pra caramba. O Leite era o diretor de lá e trabalhava no plantão.

 

Houve o Hospital Dispensário Lourenço Jorge. Lá também aprendi pra cacete, em todos os sentidos. Estes anos foram significativos na minha formação como médico. Foi muito bom.

 

Fiquei no o PAM da Praça Seca por muito tempo até que o Werther arrumou para eu sair de lá, coisa que era muito difícil. Só se conseguia tendo alguém para me substituir. O Werther me puxou para a Direção Geral, onde eu fiquei por um bom tempo.

 

Tem algumas passagens interessantíssimas que não têm nada a ver com a medicina. Eu vou contar uma para você: Eu fazia o segundo turno que terminava às sete horas da noite e, quando saia, ia para o Santo Inácio onde eu começava a trabalhar às sete e meia. Tinha que ser rápido, porque o horário era mais ou menos justo. Fiz isso por nove anos.

 

Para chegar ao Santo Inácio eu andava até o Passeio Público, pegava o metrô até Botafogo e, de lá, andava até o colégio de Santo Inácio, na rua São Clemente. Um dia, passando pelo Passeio, ouvi um discurso do Leonel Brizola. Vinte mil pessoas! Tudo bem, você pode não concordar com o que ele pensava, mas ele era carismático para caramba.

Aquele lenço, lembra, que ele botava no pescoço? Eu continuei a andar no meio da multidão para chegar ao metrô, quando ele começou a falar. E eu parei para ouvir o Brizola! Você pode acreditar, eu parei para ouvir o Brizola. Além do carisma, o discurso dele era de uma lógica absolutamente razoável. E ele falava! Pensei: “Caraca! Estou aqui, já tem 15 minutos, tenho que ir embora, sair daqui”. Mas assistir um pedaço do discurso de Leonel de Moura Brizola, ao vivo, lá na cidade me marcou. Essa aí é uma das situações interessantes que vivenciei.

 

Sai da Direção Geral porque, naquele momento, estava sendo montada uma equipe de CTI pediátrico do Hospital dos Servidores do Estado e a Cléa Ruffier, que seria a chefe, estava juntando a equipe. Eu a conhecia, assim como o Jean Ruffier, uma sumidade que adorava neonatologia. O Jean foi sócio minoritário de uma clínica de urgências pediátricas, a URP, em que era o neonatologista. No CTIP, que ia ser inaugurado logo em seguida, ele atenderia crianças em situação crítica, a partir dos oito dias de vida. E aí fui convidado. Obviamente, aceitei. Na época, não existia nada de urgência. Quer dizer, urgência sim, mas não CTI. Nós fomos aprendendo, na verdade.

 

O Jean era um excelente médico, que conhecia muito os procedimentos. Ele e a Cléa ajudaram a formar a equipe de terapia intensiva em pediatria lá no Hospital dos Servidores de Estado, na época do Jairo Valle, que era o chefe da pediatria.

Foi um aprendizado espetacular. Depois a Cléa teve uma oportunidade na maternidade Praça XV e resolveu sair do Servidores. Ela tinha sido aprovada no concurso do INAPS de 1976, mas o Jean não foi concursado. Então, eu acabei assumindo a chefia do CETIP. Foi um período bacana.

Na época em que eu já chefiava o CETIP, houve o episódio da Cristiane. Um dia, uma pessoa do Hospital Getúlio Vargas telefonou para o CETIP contando uma história triste e pedindo uma vaga para uma menina de 8 anos. Ela estava brincando com outras crianças em frente à sua casa, na Penha, quando teve um tiroteio e uma bala transfixou seu pescoço. Ela caiu. Logo atrás, vinha um carro de um anestesiologista do Getúlio Vargas, com material de entubação. Ele a entubou e ficaram ambuzando-a enquanto ela era levada para o Getúlio Vargas. No CETIP nós tínhamos respirador. Foi um sufoco danado, porque como é que ela iria para lá? Para o hospital?  Não existiam ambulâncias com respirador, como as que existem atualmente. Então, conseguimos um helicóptero da Polícia Militar, que foi pegar essa criança lá no Getúlio Vargas. O anestesiologista que fez o primeiro atendimento acompanhou-a no voo. A Polícia Militar fez um cordão de isolamento em torno da praça ao lado do Servidores, onde o helicóptero desceu e onde nós resgatamos a menina. Ela ficou internada no CTI. Um sufoco danado, porque com lesão de C3 e C4, ela estava totalmente paralisada, inclusive da parte respiratória, e totalmente dependente do respirador.

O grande drama que nós vivíamos era a aspiração do tubo. Cristiane  estava traqueostomizada há muito tempo e, para ela, a aspiração era aterrorizante. Nós acompanhávamos a PO2 caindo e a menina arregalando os olhos

Então, num determinado dia, o Mário Eduardo Viana, nosso R3 na época,

nos procurou. Disse-nos que a médica acupunturista Melânia Sidorak talvez pudesse ajudar porque a estimulação na hora da aspiração talvez resultasse em algum movimento respiratório pelos intercostais da criança, aliviando seu sofrimento. Fomos, então, Jairo, chefe da Pediatria, e eu solicitar ao Ribas, diretor do hospital, que autorizasse o procedimento a ser executado pela dra. Melânia. O resultado foi que a Cristiane passou a fazer as aspirações sem o terror que antes era para ela. A gente conseguia desconectar o respirador, pegar a canulazinha e ir aspirando devagarinho, e ela ficava quieta. Sem medo, Cristiane conseguia permanecer sem a angústia respiratória. A PO2 dela caia, mas não a 80. Caía para 92, 91, 90, ficava ali, e ela com semblante tranquilo.

A acupuntura passou a ser feita três vezes por semana.  Montamos um box para ela no CTI. Cristiane ficou no CETIP por dois – três anos. Então, teve uma daquelas pneumonias com bactérias hospitalares e morreu.

 

Esse episódio me marcou para caramba, tanto que eu comecei a achar que a acupuntura traz algum benefício para o paciente. E passei a me interessar. Eu próprio me beneficiei da acupuntura: Eu tive uma tendinite de panturrilha, uma lesão de ligamento, de tendão, do tipo que você toma anti-inflamatório e não adianta nada. Procurei a Melânia e me beneficiei. Então, até hoje eu encaminho pacientes para a Melânia.

 

Esqueci-me de relatar a criação do PRONEP, um acrónimo “Procedimentos de Nutrição Enteral e Parenteral”.

 

O que aconteceu foi o seguinte: o Roberto Rezende, um dos nossos colegas, foi residente do CETIP e foi admitido nos Servidores após ter sido aprovado no concurso de 76. Então, quando eu fui para o CETIP, ele era da pediatria e quis fazer terapia intensiva também. Fez, portanto, parte do CETIP desde o início.

 

No CETIP, tivemos um paciente pediátrico que sofreu um acidente de automóvel grave. Ele não podia ir para casa e se tornou dependente da nutrição parenteral. Precisava dela para sobreviver. Também, nos Servidores, tinha e continua a ter uma Unidade Materno-Infantil que atende gestantes de alto risco, o que gerava uma clientela de neonatal grande, porque nascia muita criança prematura que precisava de parenteral.

Foi então que, em 1990, eu, Cléa, Jean e Roberto tivemos a idéia embrionária de criar o PRONEP. Levamos dois anos para poder desenvolver um sistema com a ajuda importantíssima da Cléa, uma estudiosa, muito dedicada e tal e que conhecia todas aquelas formulações, bota aminoácidos, bota gordura…

 

Lá nos servidores, nós fazíamos as misturas dos componentes da nutrição parenteral no centro cirúrgico, porque não tinha capela de fluxo laminar na época. Então, o lugar mais limpo possível para você misturar, misturar aminoácidos, lipídios e tal, era o centro cirúrgico. Mas era um negócio complicado.

 

Em 1992, quando encontramos um lugar para ser a sede da PRONEP, compramos uma capela de fluxo laminar da Braun, do Laboratório BBraun. Eles trouxeram da Alemanha para cá e passamos a preparar as formulações da alimentação parenteral. A PRONEP foi pioneira nisso. O Álvaro Naves, meu amigo até hoje, já estava entrando nessa área de desenvolvimento de sistema e ajudou o Jean, principalmente, e a Cléa a desenvolver um sistema de formulação de parenteral.

 

Em 1994, mudou. Enfim, o cenário foi mudando porque a gente tinha dificuldade em manter coisas em casa, fazendo, por exemplo, alimentação parenteral. A gente usava bomba de infusão, mas a família não conseguia lidar com bomba de infusão, então, a gente tinha que botar uma pessoa para mexer. Tinha que ter conhecimento de infusão. A gente recrutava e treinava os técnicos. Aí, criamos e foi a primeira empresa a formalizar o atendimento domiciliar. Muitas vezes é vantajoso tirar um paciente que está no hospital e deixá-lo ir para casa. Isso é o que vai em paralelo. Assim, criamos a PRONEP para os procedimentos de infusão parenteral e acrescentamos a palavra LAR, para identificar o novo negócio que surgia. Mas ainda não existia protocolo, não tinha nada. Até hoje, os procedimentos de home health care (que foi simplificado para home care) são inscritos na ANVISA mas não fazem parte do rol de pagamento oficial, tanto de planos de saude, quanto de seguradoras.

 

Com a PRONEP, nós fomos co-pioneiros, junto com uma empresa de São Paulo, a Home Doctors, na implantação do home care.

Sempre houve um home care, Você operava uma pessoa, ficava 10, 15 dias no hospital. Mas, com um auxiliar dedicado e juntando  mais dois ou três, você levava para casa o paciente com um rodízio acertado entre os prestadores de serviços. Mas isso era informal.

 

Outro detalhe que eu ainda não citei, mas fez parte da nossa vida, é que os colegas que fizeram pediatria, e foram alguns, como o Paulo Roberto Volpato e o próprio Luiz Genes, fizeram neonatologia.

 

Eu acho que essa é basicamente minha história, mais ou menos o resumo do meu trajeto, desde a decisão de fazer medicina, com a importância da figura do meu pai, e depois o casamento, que desencadeou uma série de outras decisões. Enfim, tudo o que eu fiz na vida.

Lembrei-me de que fiz questão de levar meus filhos e netos à nossa festa de comemoração de 50 anos de formados porque eles participaram desde muito cedo, foram decisivos na minha vida, em todos os sentidos. Me estimularam a ser pai. A pediatria me ajudou muito também, porque a pediatria dá um sentido de uma certa paternalidade ao pediatra.

 

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