LUIZ AUGUSTO BRITES VILLANO
[Luiz Lima]
O que levou você a escolher a profissão de médico?
[Luiz A B Villano]
Então, eu estava pensando nessa pergunta. Eu não tenho uma resposta muito clara com relação a isso, não. Realmente, eu resolvi, o que eu sei, que eu resolvi sair do São José e fazer a prova para o Aplicação, e nessa escolha eu optei pela área que chegaria até Medicina.
Agora, por que eu fiz essa opção, eu não tenho muito claro, não. Talvez, pelo interesse de ter contato com pessoas, Em termos da psiquiatria, a razão da escolha ficou mais clara para mim. Eu comecei na faculdade e, na parte da clínica, eu gostava muito da anamnese, de ficar conversando com os pacientes
Isso me levou a pensar em fazer psiquiatria. Dois amigos meus da turma, o Benjamim Mandelbaum, e o Carlos Alberto da Silva optaram por seguir psiquiatria e foram fazer um estágio no Engenho de Dentro, na sessão Olavo Rocha, cujo coordenador era o Osvaldo Santos, psiquiatra e psicanalista. Também fiz esse estágio no quinto ano de medicina,. Foi muito interessante, muito esclarecedor, muito instigador. Resolvi seguir a área de psiquiatria.
. No vestibular passei em segundo lugar na UERJ e em oitavo na UFRJ.
Optei pela UERJ em função do hospital universitário. Isso daí também foi claro, eu queria mesmo. O fato de ser o Pedro Ernesto foi fundamental nessa escolha.
[Luiz Lima]
Você estava na UERJ começando o curso de medicina. Como você viu esse curso?
[Luiz A B Villano]
A figura dos professores sempre foi muito importante. Eu me ligava muito na figura do professor..
Na SUSEME tive uma boa classificação e optei pelo hospital Rocha Maia,
Eu gostava quando suturava crianças. O resultado final para mim era muito interessante, mas nem por isso eu pensei em fazer alguma outra coisa que não a psiquiatria. Mas gostava.
No ano seguinte optei pelo Rocha Faria. No Rocha Maia eu aprendi a levar atropelado para o Miguel Couto. O Carlos Alberto, um dos amigos, já trabalhava lá, no Rocha Faria.
Foi outra experiência, aí sim, de saída de ambulância, de atendimento.
, Ao mesmo tempo, eu o Carlos Alberto e o Benjamin,trabalhávamos com o Osvaldo Santos, em algumas clínicas aqui no Rio de Janeiro, que tinham a proposta de dar voz ao paciente, chamada de comunidade terapêutica. Em Paracambi também havia uma comunidade terapêutica e foi uma experiência muito proveitosa, sempre trabalhando com equipe multidisciplinar, nosso trabalho era realmente comunidade terapêutica, de oficina, oficina de barro. Ia com o paciente pegar o barro. Botar a mão na massa, verdadeiramente.
Inclusive assinaram a minha carteira de trabalho como auxiliar de terapeuta ocupacional.
Não fiz formação analítica diferentemente do Carlos Alberto e do Benjamin. Eu estava muito ligado em trabalhar no HUPE.
No início da pós-graduação de Psiquiatria entrou o Portela Nunes, psicanalista, e psiquiatra também figura excepcional.
Ele ficou lá dois anos, e foi ótimo. Trouxe uma visão de psiquiatria, um trabalho de melhoria do apoio ao paciente, com o paciente e algumas atividades começaram a acontecer, à parte de psicanálise. Psicoterapia fundamentalmente
Só para você ver, eu tive supervisão de psicoterapia e curso de psiquiatria social com o Joel Birman e o Jurandir Freire Costa. Professores que o Portela havia levado e faziam parte da equipe. Na parte de pareceres psiquiátricos, o Moisés Grossman também psicanalista, A maioria, acho que toda a equipe que ele levou tinha formação psicanalítica. Eu me liguei muito nessa parte de pareceres psiquiátricos. Quando o Portela foi ser o diretor do Instituto de Psiquiatria, substituiu-o o Jorge Alberto Costa Silva,.
A gente ia a eventos que ele participava, e trouxe o lítio para o Brasil.
Ele foi diretor da área de psiquiatria da Organização Mundial de Saúde Na UERJ ele não fez uma construção como o Instituto de Psiquiatria fez, em termos de pesquisa, de equipe.
Quando entrou o Jorge Alberto, com aquela mudança toda simplesmente se esqueceram dos pareceres psiquiátricos, das enfermarias.
Não tinha ninguém para responder, um staff, nem quem ficou, nem quem entrou, ninguém.
As enfermarias, a não ser quando fosse uma situação de emergência, acionavam o plantão, para resolver ali, na hora. O trabalho clínico, diagnóstico, mudança, era secundário
[Luiz Lima]
Isso dependia, que eu me lembre, do chefe da clínica. Porque tinha uns que não davam bola para isso, mas outros davam. Na abordagem do paciente, você seguia muito a instrução que o chefe dava para você.
Quando tinha algum aspecto do paciente, que você desconfiava que tinha a ver com atitude mental, com comportamento, você ficava assim: “Pô, eu vou mandar esse cara para onde?”
Eu lembro bem, que os pacientes com úlcera péptica nós mandávamos para a psiquiatria. Porque a úlcera alegadamente era um problema de estresse, de condição de vida, não sei o quê. Até o dia que aquele médico clínico australiano, descobriu que uma bactéria, a Helicobacter pylori, provocava aquilo e o tratamento não foi mais psiquiátrico, mas clínico com antibióticos.
[Luiz A B Villano]
Mas fazia parte tentar fazer essa avaliação, mas isso eu falo pareceres de enfermaria mesmo.
E, logicamente, muitas das situações tinham a ver com o relacionamento dentro da equipe. A abordagem ao paciente, até a informação ao paciente, o paciente ficava ansioso porque não tinha informação. Então, essa era a visão do Moisés Grossman, mas até concordo que houve um certo prejuízo dessa outra parte, de identificação clínica, identificação fenomenológica, isso realmente não era o forte do Moisés Grossman
Eu quando entrei, também, não tinha essa visão. Meu foco também era mais na parte do relacionamento, mas sabia identificar quando tinha alguma coisa que suspeitava um problema de base orgânico. O famoso transtorno mental orgânico.
Mas nessa questão relacional, é que eu me interessava bastante tanto que fiz a dissertação de mestrado na medicina social sobre os pareceres psiquiátricos, o hospital geral como instituição total. Era essa a questão da equipe do paciente, da comunicação. Foi um trabalho bastante interessante.
Ainda não havia psicologia médica, nós mesmos dávamos aula de psicologia médica, fazendo as inesquecíveis seções nos sábados. O sábado continuou durante muito tempo.
Fiz dois anos de especialização. Exatamente porque eu trabalhava em Paracambi, e em outra clínica particular, optei por fazer a especialização, que não precisava de tanta carga horária, dois estágios de ambulatório, todas as manhãs.
Estando lá, então eu pedi ao Jorge Alberto: “Tem esse conjunto aqui de pareceres de enfermaria não respondidos. Pode ser que algum desses pacientes ainda esteja lá, vamos dar uma satisfação, vamos fazer uma avaliação”. Ele falou, tudo bem, pode ir, pode fazer isso.
Eu terminando o curso, eu botei os pareceres literalmente debaixo do braço e fui respondendo. No ano seguinte ele me chamou para continuar na equipe Eu continuei até hoje.
No INPS em 1976 eu fiz o concurso e tirei o primeiro lugar para psiquiatria e entrei. Aí foi a outra parte importante da minha formação e da minha vida mesmo, o plantão na emergência psiquiátrica da Avenida Venezuela.
Dali você saia para os postos de saúde, saia para as residências, ia enchendo a ambulância. Você ia enchendo a ambulância e distribuindo pelos hospitais, quando fosse o caso de indicação de internação.
Esse era o trabalho, mas foi uma experiência fenomenal. Com o chefe da equipe, com o diretor da emergência da Venezuela, do PAM Venezuela, , o Carlos Edson, outra figura muito interessante, também do Instituto de Psiquiatria..
E eram os enfermeiros que indicavam tudo, faz isso, faz aquilo, masA gente trabalhava em conjunto.
O Hésio Cordeiro, professor do Instituto de Medicina Social me chamou para trabalhar na Equipe de Saúde Mental do INMAPS do Rio de Janeiro e eu saí da emergência psiquiátrica.
Trabalhei com o Pedro Gabriel, que atualmente é o diretor do Instituto de Psiquiatria, Também fazia parte da equipe o Cândido Maceira, que também fez estágio com o Oswaldo Santos. Fiquei lá bastante tempo.
Ao mesmo tempo, eu continuava na UERJ, tinha esse trabalho de acompanhamento. No INAMPS não era um trabalho muito produtivo no sentido do resultado, mas era interessante você acompanhar o que estava acontecendo, mas não tinha muito poder de mudança dessa situação ainda só internação, sem ambulatório, sem nada.
Então eu seguia aí esse trabalho. Até quando o Hésio entrou como Presidente do INAMPS e me chamou para ser assessor de saúde mental dele
[Luiz Lima]
Isso foi já em 1985
Já existia a ideia e foi chamado de SUDS que virou posteriormente o SUS.
A deia do SUS é mais antiga, desde a conferência de 1976 da OMS em Alma Ata, sobre cuidados primários de saúde. Aqui e em todo mundo, começou-se a falar num sistema único de saúde. Isso era, na época, considerada uma proposta de esquerda, comunista, socialista, tinha este estigma.
Mas era uma proposta internacional, não era só aqui no Brasil, era no mundo todo.
O Hésio foi pra lá, com o Rafael de Almeida Magalhães. O Ministério da Saúde não estava muito entrosado e eles criaram o SUDS até se antecipando ao Ministério da Saúde, eu me lembro bem disso, porque eu estava no Ministério da Saúde, o SUDS, que era de fato o SUS, depois isso tudo se ajeitou…
[Luiz A B Villano]
Mas antes disso, teve o CONASP, né?
[Luiz Lima]
O Figueiredo teve um infarto, o Aloísio Salles tratou dele, Bom, aí tem toda uma história por trás disso que a gente ainda vai discutir um dia
[
[Luiz A B Villano]
Então, nesse caminho, já com o Hésio no INAMPS, antes mesmo ainda na equipe de saúde mental do Rio de Janeiro, , antecedeu a reforma dos hospitais psiquiátricos,
Eu cheguei a fazer parte da direção da colônia, Juliano Moreira, no trabalho de mudança, com uma equipe que fez toda a vistoria da Juliano Moreira, das enfermarias e proposta da criação de uma rede diferente de saúde mental.
[Luiz Lima]
Que era o pessoal da reforma sanitária, da desospitalização, da reforma manicomial, que tinha uma inspiração italiana, que era o Basaglia, eu não sou dessa área, mas eu lembro bem dessas histórias.
[Luiz A B Villano]
O importante era a definição das internações, de não terem essa facilidade que qualquer garoto de ambulância chegava e internava o paciente. Passou a ter os postos de urgência, de saúde mental, o Pinel, a Venezuela, e outros, e dali é que o paciente poderia ser internado. Uma coisa que foi muito interessante, com o Hésio Cordeiro, eu participei do CONFEN – Conselho Federal de Entorpecentes.
. O presidente do CONFEN foi o Técio Lins e Silva.
Todos iam à Brasília uma vez por mês, participavam das comissões, e teve um trabalho para conhecer as experiências do mundo inteiro, para aplicar aqui, ou para avaliar as propostas daqui, em cada estado que tivesse uma proposta.
Foi um trabalho muito, muito interessante. Teve a Ayhuasca.
[Luiz Lima]
Eu lembro dessa história, eu lembro dessa história muito bem. Porque essa história do Ayahuasca foi bater lá na vigilância sanitária, porque como era considerado psicotrópico, tinha que ter o parecer
[Luiz A B Villano]
Não participei do estudo de campo, não fui, foram outras pessoas, mas no final saiu a permissão para o uso ritual. Nosso parecer foi esse e foi acatado
Ao lado disso, eu continuava com o consultório, sempre foi um consultório pequeno,
Parei o consultório para fazer o doutorado na Escola Paulista de Medicina. Quando o Jorge Alberto ficou como pesquisador principal de um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde de Problemas Psicológicos em Serviços Gerais de Saúde. Eram, 18 centros de 15 países. Ele me chamou para ser o co-pesquisador principal. Foi realmente um trabalho hercúleo no sentido que não tínhamos estrutura, então, literalmente, no início levávamos na mão a mesa para o AMI para fazer a entrevista do paciente que respondia o questionário com o médico geral do AMI, depois tinha que responder outro com a gente
Utilizei os dados para fazer o doutorado,
Eu poderia fazer com o Naomar, na Bahia, ou em São Paulo…. Eu tinha que decidir se queria me transformar num epidemiologista ou continuar como psiquiatra clínico, Com o Naomar, eu vou deixar de ser médico-psiquiatra, eu vou virar epidemiologista, então vou fazer lá como o Jairi, e foi muito interessante,
Eu fiz a bolsa sanduíche na Inglaterra, no Instituto de Psiquiatria de Londres, com o David Goldberg, outra figura, figuraça, não só pelo currículo dele, mas a figura pessoal que constituía a equipe.
Foi outra experiência importante. Depois, continuei na UERJ até há pouco, até o final de janeiro, quando me aposentei, mas no ambulatório, tentando fazer o trabalho em equipe. Continuo lá com o projeto de extensão com pessoas da equipe multiprofissional.
Nós tínhamos que tocar ambulatório, enfermaria, hospital geral, uma trama Agora, co a entrada de professores novos, médicos novos, está se criando uma outra visão de pesquisa, ao lado do trabalho de ensino, de formação.
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[Luiz Lima]
Agora, uma outra coisa que surgiu nos depoimentos dos colegas, foi com relação justamente a essa questão da reforma nosocomial, de retirar, de acabar com os manicômios. Há muita controvérsia entre os psiquiatras e o pessoal da área de saúde mental sobre a adoção desse modelo e a sua continuidade até hoje. Como é que você viu essa situação?
[Luiz A B Villano]
Bom, eu que participei desse trabalho acho que da forma mais positiva possível. Lógico que tem coisas para organizar, mas o fato de você ter criado dispositivos substitutos, que são os CAPS, Centro de Atenção Psicosocial. foi definidor, porque passou-se a atender próximo da área do paciente, próximo da moradia do paciente. Tem que qualificar, tem que ter mais trabalho técnico, realmente de psiquiatria, ter garantido a equipe a continuidade maior dos psiquiatras, das equipes, mas o fato do paciente poder recorrer, ou a família, principalmente a família, todas as vezes o paciente grave é a família que vai recorrer, recorrer ao CAPS, direto, que não precisa ir pela clínica da família, para o CAPS não tem regulação, você pode ir direto ao CAPS. Então isso possibilitou o manejo do paciente internado. Antes dos CAPS, depois da internação era torcer para conseguir uma vaga no ambulatório, ou ter o empenho maior da família para conseguir, porque para conseguir tinha que chegar de madrugada para conseguir a vaga. Ainda é difícil mesmo agora, mas tem a regulação, tem a fila virtual, e o trabalho da atenção primária.
Mas há os que são contra.
Isso também foi refundador, você ter um trabalho com a atenção primária, tentar resolver muitas situações de saúde mental pela atenção primária, O neurologista na verdade atuava como médico geral, nessa experiência que eu tive na clínica particular.
[Luiz Lima]
Era muito também rotulagem, porque na clínica, você atendia o que vinha. Você pegava desde o tuberculoso ao maluco, ao cardíaco, você tinha que resolver o problema. Claro, tinha as especialidades e tudo, mas havia uma certa rotulagem.
Então, por exemplo: “Isso é com o neurologista”. Na época que nos formamos, o título de especialista não era tão exigido. Então, você tinha o clínico que também virava neurologista, virava obstetra, virava até cirurgião.
Tinha gente que tinha clínica e fazia cirurgia. Então, era mais eclético.
Então, quando dizia assim, o neurologista resolve, qualquer um podia resolver, só que você não tinha pessoal na área de saúde mental suficiente para dar conta de tudo.
[Luiz A B Villano]
Sim, sim. Mas aí também dependia do interesse. Teoricamente, tem essa tarefa, tem essa função e esse trabalho da psicologia médica é muito importante.
Até o nome é estranho, mas é matriciamento. Trabalho de matriciamento, quer dizer, você não responde um parecer, mas trabalha com a equipe de saúde primária para qualificar o atendimento, para entender, para fazer consulta conjunta. Nesse trabalho, o psiquiatra não recebe o paciente só para atender.
Quando está indicado, faz a regulação para os psiquiatras. Foi aonde eu fiquei. fazendo esse trabalho de atender em equipe, já de atenção secundária, mas aproveitando para treinar os residentes, especializando-os a trabalhar em equipe. Atendemos os pacientes que vêm da rede básica.
Então, alguns com esse trabalho em equipe, você conseguia devolver para a rede básica, outros você incluía no ambulatório. Pode vir o paciente quantas vezes quiser em retorno, mas alguns dava para você devolver para a rede básica. Outros estão no ambulatório até hoje, outros já estiveram, mas tem esse trabalho.
Nesse sentido que eu vejo essa reforma sanitária, reforma psiquiátrica, fundamental, porque possibilitou, deu esse caminho do trabalho próximo à residência com os CAPs. Em uma cidade maior possibilita o atendimento nos bairros , mas no interior, com os hospitais só na capital, ou na cidade maior, nada que possa atender ali, perto do paciente, os CAPs conseguem.
[Luiz Lima]
O intuito das entrevistas, inclusive da página, Médicos Veteranos do Rio de Janeiro, é para concentrar as histórias da cidade, que na verdade, nós somos testemunhas dos últimos 50 anos de assistência médica na cidade do Rio de Janeiro, porque nós atuamos aqui. E tem uma outra coisa que eu queria te perguntar, que é a questão do tratamento dos consumidores de drogas. Como você citou que foi do CONFEN, e eu na época na vigilância também, participei disso, e comecei a me enfronhar nessa questão dos chamados dependentes. Na literatura que eu pesquisei, da farmacologia, esse conceito de dependência é completamente diferente do que se usa normalmente no coloquial, inclusive o dito dependente químico, ou o dependente psicológico. O modelo da dependência farmacológica, é o corticoide, o álcool, a morfina e alguns alcaloides.
A dependência química, é limitada, enquanto você está usando a substância química. Depois, o cara fica ligado, o pessoal da farmacologia não trata disso não. Aí, isso vai acabar caindo no pessoal da saúde mental, porque começaram a surgir as clínicas especializadas em tratamento de dependentes químicos, até a legislação foi modificada.
Então, se o sujeito se diz dependente químico: “Eu sou dependente”, a penalização e o tratamento é diferente do outro cara que é pego com algumas gramas de entorpecente, que é também outra coisa muito doida, e vai acabar na cadeia. Então, como isso você foi do confinamento também, e a abordagem dessa questão do uso de drogas, mais recentemente, aumentou muito, e eu acho que a demanda ao pessoal da psicologia, da psiquiatria, também aumentou muito, como é que você vê isso no passado e agora?
[Luiz A B Villano]
É uma área que eu, pessoalmente, muito pouco atuei, em termos clínicos e em termos institucionais também. Não montei nenhum serviço, nem participei de serviço. Acompanhei no CONFEN essa estruturação dos centros de tratamento aqui no Brasil.
O NEPAD da UERJ, da USP, Valentim, da Bahia, NERI, de vários lugares além do Rio de Janeiro. Então, essa proposta de centros especializados foi importante, foi uma visão. Você tem que pensar sobre isso, o que é isso, porque antes não tinha nenhum local para atendimento. Internava na psiquiatria mesmo.
Já foi uma coisa importante. Na reforma psiquiátrica, tem os CAPS-AD, álcool e drogas, que é também com essa possibilidade de atuação mais próxima. E na atenção primária também com a possibilidade matriciamento, um trabalho mais específico de lidar com essas coisas.
Agora, é uma área difícil mesmo em termos teóricos, é muito difícil. Na formação do pessoal da França, é quase dizer que não existe a dependência. Existe a pessoa que encontra a droga, que a droga ali vai preencher alguma coisa, tem uma visão psicanalítica maior. Não é pela droga em si, é a pessoa.
[Luiz Lima]
Quando eu estava nessa época na Vigilância Sanitária, tive a oportunidade de conversar com um monte de gente, inclusive uns americanos, que eram do National Institute on Drug Abuse – NIDA. Na América eles têm muitas organizações públicas para tratar dessas coisas Só nesse negócio de droga eles têm uns quatro ou cinco institutos independentes, tem o Drug Enforcement Agency – DEA, , tem o FBI, tem o National Institute on Drug Abuse – NIDA , e uma pletora de órgãos federais além dos estaduais. Um médico do NIDA, veio fazer umas palestras aqui no Brasil, e trouxe uma visão completamente diferente.
Eles têm agentes que vão nas comunidades onde está o traficante, e compram as drogas. Por quê?
Porque eles levam as drogas para os laboratórios e analisam a qualidade dessa droga, é um negócio muito interessante. Então, eles dizem assim: “Porque tem a maconha boa, e a má. Eles têm uma epidemiologia muito boa. Eu lembro que aqui no Brasil, na época, não dava nem para sugerir a ideia da pesquisa sobre drogas porque era um preconceito danado.
Hoje em dia, eu não sei, eu também não trabalho mais nessa área, não sei como é que eles estão atuando com isso. Mas…
[Luiz A B Villano]
Tem essa virada aí da comunidade terapêutica, de oficializar a atual comunidade. O termo comunidade terapêutica atualmente sendo usado não mais para a reforma psiquiátrica, mas para o tratamento em geral
Não o tratamento, pela religião que fica vinculado ao templo. Eu não vejo estudos sobre isso; vejo crítica, vejo apoio, mas, realmente, de estudos, acho que deu uma parada. O Carline, que fazia isso não deixou sucessor.
[Luiz Lima]
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No âmbito legal, então, é que tem a influência religiosa. Eu não sei como é que vocês, na psiquiatria lidavam com isso, porque esse pessoal de culto e tal, eles são complicados, porque está cheio de doente mental nesses locais, E o pessoal que tem visões, quer dizer o sujeito que vai para a igreja e tem visões ouve vozes, tem visões, faz uns discursos envolve a família e ninguém está tratando dele, mas às vezes ele ganha dinheiro, porque faz isso e o pessoal paga, não vai acabar nunca isso.
[Luiz A B Villano]
Acho que é isso, eu falaria que tem dificuldades, implicações sociais, então, a maior ainda, Cracolândia, e a droga como a principal fonte de lucro de milícia no sentido amplo, de quem tomar conta de território.
[Luiz Lima]
Mas aí, isso vai acabar caindo na área da saúde mental.
[Luiz A B Villano]
Sim, lógico.
[Luiz Lima]
Já está caindo, porque a grande discussão é exatamente sobre dependência, o que faz com esses caras? Interna ou não interna, por exemplo em São Paulo, então eles estão brigando para saber o que eles vão fazer com os cracudos. Interna ou não interna, é caso psiquiátrico ou não é caso psiquiátrico, eu não sei onde é que vai parar isso.
Acho que, enfim, abordamos a tua, vamos dizer assim, a tua vida profissional até aqui. De uma forma bem elegante, inclusive, eu diria.
E eu só tinha uma curiosidade para saber, se você está fazendo caligrafia né? Porque a tua letra, desde o ginásio, era um exemplo de que você tinha que ser médico, porque já era letra de médico.
[Luiz A B Villano]
Agora me ajuda na memória. Você fez São José?
[Luiz Lima]
Sim mas no da usina da Tijuca
Você era da Barão de Mesquita, eu era da Usina.
Ok, Villano. Agradeço muito a tua paciência.