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OSWALDO SAIDE ADENDO

Aquela questão com o Rui Rocha, eu acabei não falando porque pra mim era um assunto totalmente superado pra mim, na verdade, ficou a lembrança dos acontecimentos que vieram a público e não os acontecimentos privados,

É ressaltar o seguinte, que na época que aconteceram os fatos, eu tinha um encargo muito pesado pra mim, e eu tinha falado pra você que o curso de medicina não foram seis anos de lazer e diversão, mas eu fiquei muito pressionado pela falta de recursos da minha família pra me manter fazendo o curso, e o que me obrigou a dar aula no artigo 99, antigo artigo 99, quase todas as noites, quatro noites por semana, e ainda por cima precisei dar aula sábado à tarde, era uma coisa muito pesada pra mim fazer o curso de medicina e trabalhar de noite pra me manter. E você tem ideia, até aquele dinheirinho que a gente pagava uma vez por ano pra faculdade, que era um dinheiro que provavelmente era duríssimo, sei lá, mil reais por ano de inscrição, todo ano eu tinha que pedir pra não pagar, porque pra mim era dinheiro.

E a maioria da turma nem enfrentava com isso.

Naquele momento, que aconteceu na aula de pediatria, eu estava assistindo e atrás de mim tinha um grupo conversando, batendo papo. Eu não sei por que o Rui Rocha olhou pra mim num determinado momento, dizendo que eu estava atrapalhando a aula com essa conversa, que eu parasse de conversar. Mas não era eu que estava conversando, era o pessoal atrás de mim, mas ele deve ter entendido que era eu.

Eu disse: “Não, não sou eu”.

Bom, o pessoal dali detrás continuou batendo papo. A bronca tinha sido comigo e continuaram batendo papo.

Nessa altura ele disse: “Não é possível, você vai continuar falando?”

Eu retruquei: “Já falei pro senhor que não sou eu que estou conversando. Porra, vai à merda”

Perdi a paciência. E nisso eu me levantei e saí da sala.

Eu realmente perdi a paciência e isso tinha uma justificativa pessoal minha, porque era esgotamento, eu estava realmente esgotado naquele momento. Era o quarto ano de medicina e havia muita pressão pra que eu resolvesse questões financeiras minhas, particulares. Ele veio atrás de mim tomar satisfação e disse que não ia ficar por isso mesmo, etc, etc. E me seguiu no corredor, a aula foi interrompida. Não aconteceu mais nada porque todo mundo entrou na jogada e impediu que ele me agredisse, porque na verdade ele estava a fim de me agredir, depois de eu o ter mandado à merda.

 

LUIZ LIMA

É, até se entende. Mas não era também uma postura de um professor.

OSWALDO

Não, nunca.

Ele poderia simplesmente mandar retirar-me da sala, mas eu já estava saindo. Ele abriu um processo contra mim, inclusive no primeiro momento ele abriu um processo lá na faculdade, pedindo a minha expulsão, foi o primeiro movimento que ele fez, eu soube disso. Eu estava muito abalado com a situação toda que eu estava vivendo,

A Jane falou que a esquerda me apoiou, mas eu não vi esquerda nenhuma me apoiando nessa situação.

LUIZ LIMA

A turma não tinha essa esquerda tão organizada assim. A nossa turma tinha uma característica, ela era completamente desorganizada.

 

OSWALDO

Totalmente desorganizada, exatamente.

O professor me chamou uns dias depois. eu recebi um recado da secretária do Rui Rocha, para comparece lá que o processo estava correndo contra mim, mas que o Rui Rocha queria falar comigo pessoalmente, antes das acusações do processo administrativo pedindo a minha expulsão.

E eu fui à secretaria da pediatria para falar com ele, assim, desavisadamente, pensei: “Ué, vamos ver o que é”. E fui.

Eu, nesse dia, entrei no escritório dele, e a primeira coisa que ele fez foi me  empurrar e me jogar contra o sofá que tinha por trás, Disse:  “Olha só, cara, eu vou quebrar tua cara. Eu te chamei aqui para quebrar tua cara, viu?”

Foi essa a conversa.  E ele começou a me xingar.

Seu viado, corno, filha da puta.”

Eu fiquei tão espantado com a situação, que ali sentado na poltrona, fiquei calado.

Depois de me xingar muito ele parou. Acho que caiu em si.

Disse: “Sai daqui, sai daqui”.

Eu saí. Terminou nosso diálogo. E eu não tinha nenhuma, prova do que tinha acontecido.

O processo estava ocorrendo, mas acho que houve alguém com bom senso, que disse: “Não, talvez não seja um caso de expulsá-lo, vamos trocar por uma suspensão. Vamos fazer uma suspensão”.

Eu estava muito abalado com tudo isso.

E realmente foi a primeira vez que eu fui lá na psiquiatria procurar uma pessoa para me atender, porque eu pensava estar ficando desequilibrado com essa situação.

Eu não tinha nada que ter xingado o professor. Inadequada a situação toda.

 

LUIZ LIMA

 

Mas a situação dele foi pior ainda.

 

 

OSWALDO

 

Foi. Eu não entendia o que estava acontecendo exatamente com ele e só viria saber anos depois.

 

O Rui Rocha teve um filho ou filha que faleceu. Estudava medicina, e parece que sofreu um acidente de carro e morreu. Então, o Rui Rocha, tanto quanto eu estávamos passando por graves problemas

Entendeu? Bom, o processo ocorreu.  A comissão da sindicância me entrevistou, entrevistou o Rui Rocha, e houve uma discussão grande naquela história toda. Nem me ocorreu chamar um advogado, mesmo porque também eu não tinha dinheiro para chamar um advogado.

Tive pessoas próximas que gostavam muito de mim, e eram na época mais próximas, como o Quintarelli, o Carlos Alberto Quintarelli, o Justino. Foram estas pessoas que me deram apoio psicológico, digamos, e disseram para mim que eu contasse esse episódio solitário. E isso foi contado na hora.

Isso causou  espécie em alguns professores que, apesar de eu não ter provas do que eu estava dizendo,  ficaram intrigados com a reação do Rui Rocha, e a partir daí resolveu-se que haveria uma suspensão durante uma semana e que constaria no meu histórico escolar. E assim se passou o quarto ano.

Me formei, comecei a fazer residência em psiquiatria. Até aí nada me atrapalhou, mas eu vi, quando pedi meu histórico escolar que constava uma suspensão por motivos disciplinares. Não gostei porque isso poderia me atrapalhar em alguma proposta de emprego.

Bom, três anos depois de formado, eu comecei a trabalhar no Engenho de Dentro, com uma bolsa no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil onde, eu fiquei responsável pelas crianças internadas que tinham paralisia cerebral. Descubro então que o pediatra de referência, era o Rui Rocha.

Hum, está certo. Tinha que tomar cuidado, havia as crianças. Ou seja, estávamos cruzando novamente as nossas vidas, sendo que todas as crianças que tinham paralisia cerebral, precisavam não só de acompanhamento psiquiátrico, como clínico pediátrico.

Eu teria que conversar com o Rui Rocha, e o Rui Rocha teria que conversar comigo.

Quando eu começo a atender as crianças e encontro o Rui Rocha, ele se mostra um doce de pessoa. Discute os casos comigo, sobre o que fazer com essa criança, o que pode ser feito nesse caso, o que ele recomendava. Ou seja, a conversa ocorre como se nada entre nós tivesse acontecido, como se fosse tudo absolutamente normal.

Então, não sei se depois de algumas três conversas absolutamente técnicas, a respeito de um caso aqui e um caso ali, eu virei para o professor e disse: “Professor, eu não tive a oportunidade, até hoje, de falar, mas eu queria lhe pedir desculpas por aquele episódio. Eu acho que não houve a oportunidade, devido a uma sequência de confusões que se seguiram”.

Aí o Rui Rocha disse assim: “É, para mim também foi uma época muito complicada, muito difícil, eu estava muito abalado”

Aí é que eu entendi e vim a saber da história do filho dele

Bom, então, eu me senti à vontade, porque o Rui Rocha, nessa época, era vice-diretor da faculdade e disse: “Senhor professor, aquele registro que tem no meu histórico escolar, eu gostaria de pedir ao senhor,  na qualidade de vice-diretor, estando nesse patamar de poder e tal, se o senhor poderia retirá-lo, e só o senhor pode pedir isto.”

Aí o Rui Rocha virou-se para mim e disse: “Sem dúvida, vamos retirar isso, vamos dar isso por esquecido”. E ele, então, entrou com uma solicitação pedindo que fosse retirado do meu histórico escolar.

Na verdade, nós tivemos um relacionamento totalmente diferente, cinco anos depois, dos acontecimentos, e mudou inteiramente a minha relação com o Rui Rocha, porque eu acho que tinha sido uma descompensação de ambas as partes.

Tanto eu havia descompensado pelos meus motivos, quanto ele pelos motivos dele. Nós dois estávamos passando por um período muito complicado e nem nós sabíamos.

Essa outra parte estou colocando agora porque embora para mim achasse o assunto encerrado descobri que isso foi um assunto que chamou a atenção da turma e entrou até na pauta dos depoimentos.

Resolvi não falar nada ali na hora, porque eu achei que ia continuar uma discussão interna e até ideológica sobre o assunto.

 

LUIZ LIMA

 

Eu acho que isso é uma distante ressonância fruto da situação política na época. Um ano antes de a gente entrar, teve aquele nosso colega estudante, o Luiz Paulo, que foi morto na porta da escola. Isso é um fato que abalou as pessoas, mesmo que não tenham percebido o quanto foram abaladas por isso, como uma onda, um tsunami

 

OSWALDO

 

Houve outra coisa também

Quando a gente chegou, pouco antes, tinham explodido o centro acadêmico, lembra?

Explodiram uma bomba, e o que a gente encontrou foi um edifício todo quebrado, que era o centro acadêmico, e eles diziam que foi a bomba. Então a gente começa o curso sendo muito aterrorizado pela ditadura,

E houve mais… Depois, em 1969, quando ocorre o sequestro do embaixador americano, entre os membros que fazem o sequestro, tem um estudante da UERJ, você sabe disso?

 

LUIZ LIMA

 

O Salgado, que era de uma turma antes da nossa, ele era de 73.

 

OSWALDO

 

Resolvi colocar essa questão do Rui Rocha, que, para mim era um assunto ultrapassado, mas as pessoas não sabem os bastidores dessa situação. Então, para elas, é uma situação viva do que eles viram, que é só o início do problema. A questão foi resolvida de maneira bem civilizada.

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