
Quando decidi cursar medicina minha motivação não foi me preparar para restaurar a saúde das pessoas, uma a uma, individualmente. Naquela época, já com alguma formação política, eu acreditava que a atuação em saúde só produziria resultados eficazes se articulada a um processo político profundo de transformação social. Tanto é que, além da medicina, eu me inscrevi em 1967 para o vestibular de economia. Fui aprovada para medicina e escolhi cursar, porque tinha grande curiosidade para conhecer o funcionamento da mente e do corpo humano.
Durante a faculdade trabalhei em laboratórios. Primeiro, por alguns meses, num laboratório privado de patologia clínica, fazendo exames de rotina. Depois, durante quase toda a graduação fui bolsista de iniciação científica da Fapesp, atuando no Departamento de Bioquímica da Escola Paulista de Medicina. O laboratório tinha uma produção muito consistente no campo das mucopolissacaridoses, que são doenças genéticas raras ligadas a erros do metabolismo. E assim foi, até o fim da graduação.
Meses depois de formada, em meados de 1975, resolvi morar no Rio de Janeiro e procurar uma tal de “saúde pública”, que naquela época era para mim algo misterioso. Insatisfeita de trabalhar apenas com doenças raras, comecei a sentir um apelo para atuar sobre as chamadas, na época, “doenças de massa”. Vim pro Rio trazendo dois telefones de contatos que poderiam ser úteis, um deles de um lugar para morar. O outro contato era o Eric Jenner Rosas, que estava fazendo a mesma trajetória que eu: saindo de uma área especializada e indo para a saúde pública. Eu vinha da bioquímica, ele vinha da gastroenterologia. Através dele, tive contato com o PCB, ao qual me filiei. Lembrando que o PCB havia perdido muitos militantes da base (célula) de médicos, que se afastaram por conta da perseguição violenta da ditadura militar aos dirigentes do Partido. Foi também através do Eric que conheci o Instituto de Medicina Social (IMS) da Uerj. Lá ganhei amigos e professores estimados pela vida toda. Lá cursei residência médica, mestrado, doutorado e pós doutorado. Lá conheci os nossos queridos líderes, os médicos sanitaristas Hésio Cordeiro e Nina Pereira Nunes, e foi lá que tive acesso às palestras mimeografadas de Michel Foucault, que havia acabado de passar pelo Brasil. O IMS é minha alma mater.
Então, conheci os médicos Carlos Gentille de Mello e Mario Victor Assis Pacheco. Figuras iluminadas, exerceram enorme influência sobre nós, recém-formados, e sobre a sociedade de uma forma geral, com suas inúmeras obras escritas além de palestras e entrevistas. Lembrar deles desafia nossa arrogância; confronta a ideia de que somos uma geração especial. Sem desconhecer o pioneirismo e a coragem dos nossos contemporâneos, é preciso enxergar os elos com o passado e reconhecer o valor do que foi feito antes. Gentille e Mario Victor foram mestres, inovadores. Até hoje, os resultados dos seus estudos, percepções e lutas são lembrados e citados, não por acaso. Afinal das contas, num período difícil eles iluminaram os caminhos dos que vieram depois.
Nos três anos seguintes, minha vida profissional entrou num turbilhão desenfreado. Fiz 4 cursos de pós graduação e me incorporei a 4 diferentes projetos de trabalho. Três dos quatro cursos foram na Uerj: Residência Médica no Hospital Pedro Ernesto, Medicina do Trabalho na Uerj e Mestrado no IMS (concluído em 1981). Fiz também o curso de Especialização em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Ensp/Fiocruz).
Dos 4 projetos de trabalho, só um deles não era do círculo da saúde pública. Era um projeto de pesquisa da PUC/Rio, coordenado por Fanny Tabak, para investigar a participação feminina nos serviços básicos de saúde, entrevistando moradoras do Vidigal.
Dos outros três trabalhos, um deles foi no IMS/Uerj, um plano de alta precoce de pacientes hospitalizados com acompanhamento domiciliar. E nesse ponto fica claro o pioneirismo da proposta, já que prenunciava os danos causados pela hospitalização prolongada. Nos anos seguintes, a possível ocorrência desses danos vai ficando cada vez mais exposta com a publicação dos estudos sobre infecção hospitalar. O outro trabalho com o qual me envolvi foi em Niterói, onde o Secretário Municipal de Saúde – o médico Hugo Tomassini, chamou um grupo de jovens para formar uma equipe multiprofissional, com a finalidade de criar e fazer funcionar uma rede de postos de atenção primária à saúde. Nossa ação era articulada com os municípios de Campinas e Londrina e se inspirava na rede de policlínicas do sistema de saúde cubano. Os fundamentos da proposta foram estabelecidos na Conferencia de Alma-Ata, patrocinada pela OMS em 1978 no Cazaquistão. Ali se estabeleceu uma consigna, transformada por nós numa espécie de mantra: atenção primária à saúde como estratégia para atingir “Saúde para todos” até o ano 2000! Nesse caso fica fácil identificar os elos com o que veio depois, as clínicas da família. Por fim, o último trabalho que me envolvi no período foi com você, Luiz Felipe, no PLUS- Plano de Localização de Unidades de Serviço. Inovador na perspectiva de planejamento com base em dados estatísticos e de contexto social, e levando em conta limites geográficos, uma equipe multiprofissional elaborava planos de localização de unidades de saúde para todas as regiões metropolitanas do País. Com a equipe que v formou, seguimos ao longo da vida profissional, cada um de nós contribuindo de forma original e em diferentes settings.
Minhas 4 experiencias no período até 1980, embora diferentes nos objetivos e nos métodos apontavam na mesma direção: o valor do trabalho coletivo; o papel da equipe profissional; e, principalmente, a ousadia de desafiar o status quo e de reagir às distorções de um sistema de saúde desigual e injusto. Essas experiencias formaram a base de todos os trabalhos que fiz depois.
A década de 1980, caminhando o País para a redemocratização, permitiu ampliar o objeto das investigações e das ações para campos inéditos. Nesse momento, participo pela primeira vez como docente avulsa num curso oferecido pelo Departamento de Administração e Planejamento da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Daps/Ensp/Fiocruz). Fui convidada pela Claudia Travassos, também médica sanitarista e amiga desde os tempos de mestrado no IMS/Uerj; Claudia contribuiu, e ainda contribui imensamente, com formulações e estudos nas diversas dimensões das políticas e da gestão do sistema de saúde. Nesse mesmo período, conheci Adolpho Horácio Chorny, que coordenou no Daps/Ensp/Fiocruz projeto sobre apuração dos custos em saúde, com metodologia original, que abria um mundo de possibilidades de estudos comparativos. Sobre o tema dos custos fiz minha dissertação de mestrado, orientada pelo próprio Chorny, que com sua inteligência aberta e aguçada fez a diferença na minha formação acadêmica.
Assim, fiquei trabalhando em docência e pesquisa no Daps até 1985. Era o fim da ditadura militar. Tudo parecia novo, renovado, recomeçado. Foi quando v me chamou para compor sua equipe como Secretário Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. Embora eu não soubesse nem do que v estava falando (vigilância sanitária? “O que diabo disso é aquilo?”) aceitei, animada, porque já tinha a experiencia positiva de trabalhar contigo, anos antes, no PLUS. Hoje digo, sem vacilar, que os dois anos de trabalho na Divisão de Medicamentos da Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (DIMED/SNVS/MS) foram os tempos mais intensos, gratificantes e definidores da minha futura trajetória profissional. Sobre os acontecimentos daquele período nem vou falar: tem uma pletora de documentos e incontáveis histórias orais que ilustram os anos 1985-87! Costumo me referir a esse período como aquele no qual pegamos a burguesia no contra pé. Só posso resumir dizendo que foi aquele tempo no qual senti, como nunca antes ou depois, que trabalhamos sem restrições ou concessões, totalmente voltados para a defesa da saúde da coletividade! Nenhum interesse de qualquer outro tipo teve o mínimo peso para a equipe que v coordenou!
Digo que o trabalho na Dimed definiu tudo o que fiz depois porque em 1987 voltei para o Daps/Ensp/Fiocruz e passei a ser profissional de outro tipo. O planejamento e a gestão ficaram para trás, dali em diante eu estaria em tempo integral dedicada à farmacovigilância e à farmacoepidemiologia. No inicio dos anos 1990 me transferi para o Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde (Demqs/ Ensp/Fiocruz). Estava convencida que a estatística e os métodos quantitativos ofereceriam as melhores ferramentas para investigar a eficácia e a segurança no uso dos fármacos; para garantir a segurança dos pacientes no uso de medicamentos; e para combater a ganância da indústria farmacêutica. Nessa fase contei com o apoio firme de outro médico sanitarista, o Paulo Buss, que também fez parte, Luiz Felipe, da sua equipe no PLUS. Ele era o Diretor da ENSP, e criava um ambiente de camaradagem e estímulo que fez a diferença no nosso cotidiano e na produtividade do trabalho.
Assim foi entre os anos 1990 e o início da década de 2020. Pesquisas, publicações, aulas, orientações de alunos, participação em eventos, contribuições esporádicas no campo da política de medicamentos. Um desagrado aqui outro ali, mas no geral, fui feliz!
Então, pergunto a mim mesma: enxergo mudanças positivas na atuação dos médicos no Rio de Janeiro e no Brasil, junto com outros profissionais de saúde, nos últimos cinquenta anos? A ação dos nossos contemporâneos produziu transformações para a melhoria da condição de saúde do nosso povo? Sim, sem dúvida, a maior delas sendo a criação do SUS. Mas há outras, desde a incorporação do iodo ao sal e a distribuição do soro de hidratação oral, nos primórdios, até a atual divulgação ampla dos danos de alimentos ultraprocessados e da importância de se evitar vida sedentária.
Entretanto, não se pode perder a perspectiva da lição que o saudoso Leandro Konder nos deixou num artigo antológico: para além do curriculum vitae temos que averiguar o curriculum mortis. Ou seja, além de listar os sucessos é preciso listar os fracassos.
Destaco o maior deles que é o avanço solerte e sistemático da privatização e da mercantilização: da prática médica e assistencial; da produção e distribuição de insumos para suporte diagnóstico e terapêutico; dos procedimentos cirúrgicos e de alta complexidade; da investigação científica, hoje em dia submetida a demandas espúrias. E, pior ainda, a defesa e a aceitação tática, por setores no interior da gestão pública, da ideia de que privatizar é preciso.
Daí vem como resultado: a) as denúncias dos efeitos danosos de procedimentos clínicos e cirúrgicos que chegam à imprensa leiga; b) o “excesso de diagnósticos” (overdiagnosis), fenômeno já investigado em pesquisas bem feitas; c) a inundação de pedidos desnecessários de testes diagnósticos; d) a redução de parâmetros biométricos, que resultam na inclusão de parcelas novas a serem submetidas a mais exames, medicamentos e procedimentos. Enfim, a medicalização da vida humana. E aqui volto ao começo da minha fala: continuo acreditando que a atuação em saúde só produzirá resultados eficazes se articulada a um processo político profundo de transformação social, anticapitalista, no qual dinheiro e lucro não determinarão a saúde das pessoas.