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MINHA VIDA MÉDICA

Não se aprende, Senhor, na fantasia, 
Sonhando, imaginando ou estudando, 
Senão vendo, tratando e pelejando. 
Luís de Camões 
(Os Lusíadas, Canto X, estância 153)

 

1ª PARTE

PREÂMBULO

Meus ascendentes paternos e maternos eram fazendeiros da zona da mata mineira, das cidades de Mar de Espanha, Leopoldina, Além Paraíba e seu distrito de Angustura. Migraram para o Rio no início do século passado, após o fim da escravidão e a decadência da cultura cafeeira. Os casamentos entre primos eram frequentes, os meus pais tinham parentesco não muito próximo. Tive dois bisavôs médicos contemporâneos do Miguel Couto e do Dr. Satamini, mas a família era mais ligada ao direito e às letras. Meu pai, Romão Côrtes de Lacerda, foi procurador geral entre 1937 e 1949, e depois desembargador, quando o Rio ainda era o DF. No biênio 1957 / 1958 foi presidente do Tribunal de Justiça. Era hipertenso e tabagista, teve um AVC em dezembro de 1964 com hemiparesia esquerda, ficou acamado.

Lembro-me das visitas do clínico Dr. Fernando Nogueira Pinto, que lhe media a pressão, invariavelmente alta, resistente ao Aldomet (metildopa) e ao Serpasol (reserpina), um dos únicos anti-hipertensivos disponíveis à época. Admirava a postura do médico, a forma como ele examinava, a conversa que tinha com minha mãe explicando a doença, as anotações que fazia a cada visita.

Três meses após o AVC, quando já caminhava com a minha ajuda meu pai teve outro, que o deixou em coma. Três dias depois morreu no Hospital dos Servidores do Estado. Tinha 63 anos, eu ainda ia fazer 15. Essa vivência contribuiu para a minha vontade de ser médico, embora eu já viesse pensando nisso, por razões a mim pouco claras.

Eu morava na Tijuca e estudava no Instituto La-Fayette, tradicional educandário fundado pelo tio do meu pai, o Professor La-Fayette Côrtes. Eu era bom aluno. Ao concluir o curso ginasial havia a opção de seguir o curso clássico ou o científico. Optei por este último pensando em me tornar médico. Gostava de física e biologia. Cursei os dois primeiros anos do Científico no La-Fayette, e fiz o pré-vestibular no Curso Miguel Couto em Copacabana, em 1968, porque a essa época já tínhamos vendido o nosso casarão na Tijuca, e morávamos em Ipanema.

O vestibular de 1968.  O ano de 1968 foi  agitado no Brasil e no mundo. Na França, em maio, estudantes e operários haviam paralisado o país, erguendo barricadas no Quartier Latin, ameaçando a estabilidade do governo de De Gaulle. Para mim esse ano de pré-vestibular foi um dos mais importantes da minha vida. Eu havia deixado a Tijuca e os meus colegas do Instituto La-Fayette, onde estudara desde o jardim de infância, e tinha grande desafio pela frente. Não só o vestibular em medicina que era considerado o mais difícil, com milhares de candidatos para poucas vagas, mas tinha que buscar novas amizades, e  receava que a minha timidez me bloquearia. A turma era enorme, mais de cem alunos, que se apertavam em cadeiras quase coladas. Os professores, quase todos, usavam microfones, e me conquistaram.

O melhor de todos, o que me marcou, era o Octacílio Ribeiro Lessa, o professor de biologia. Baixo, calvo, usava óculos para alta miopia. Se agigantava à frente do quadro negro, com uma oratória magnífica. Apaixonei-me pela genética e pela teoria da evolução. O Octacílio era ateu e marxista, e no meio das aulas, sem que a maioria entendesse, pregava suas ideias. E me tocava dizendo: “como podem pessoas tão boas que nos criaram com tanto carinho, estar erradas sobre o mundo”.

Eu já tinha abandonado o catolicismo, a crença em Deus e em vida após a morte desde antes da morte do meu pai, que era um agnóstico próximo do ateísmo. Mas que acreditava na democracia liberal capitalista e que, como toda a família, era conservador e temia a “ameaça comunista”. Meu tio materno era o Deputado Menezes Côrtes, da UDN, que tinha sido Diretor do Trânsito e Chefe de Polícia, e faleceu em um desastre aéreo em 1962, portanto antes do Golpe de 1964, que certamente teria o seu apoio. Lembro-me que a então chamada Revolução de 31 de março foi saudada com entusiasmo na minha família. E também na minha turma de 3º ginasial, onde só um colega “que era Jango”, sofreu bullying por ocasião do golpe. Acho que era um termômetro indicativo de forte apoio da classe média.

Entre 64 e 68 a situação tinha mudado. As inúmeras cassações de políticos e figuras públicas, a repressão e a censura, iam revertendo o apoio da classe média ao regime forte. O grande cronista Stanislau Ponte Preta ridicularizava a ditadura com o seu “Febeapá”. Boa parte da juventude cada vez mais se opunha ao regime, e ser um nacionalista de esquerda, ou ter uma concepção marxista da sociedade, era o que se esperava dos mais esclarecidos. Quem não pensava desta forma era “reacionário”, o termo da época para rotular quem não era nacionalista, progressista ou esquerdista. Em dezembro de 1968 veio o AI-5, com a ditadura assumindo-se como tal, dando início a uma escalada de repressão, censura, prisões. Menos de um mês depois eu e mais uma multidão estávamos sentados nas arquibancadas do Maracanã lutando por uma vaga. Posso dizer que brilhei. Fiquei em 5º lugar na UFRJ e em 11º ou 12º na Faculdade de Ciências Médicas da UEG. Visitei as duas com outros colegas e tive melhor impressão da UEG, onde não havia trote e fomos bem recebidos pelos veteranos, ao contrário da UFRJ onde os calouros eram amedrontados e tinham suas cabeças raspadas. O Octacílio também já dizia que a FCM era melhor, então não tive muita dúvida em fazer a opção, que me trazia também de volta à Zona Norte.

A Faculdade de Ciências Médicas da UEG Em março de 1969 tivemos a aula inaugural com o Prof. Américo Piquet Carneiro, então diretor da faculdade. O AI-5 tinha sido decretado em dezembro de 1968, e um ano antes um estudante do 2º ano da FCM, Luiz Paulo da Cruz Nunes, fora morto a tiros  nas dependências do Hospital Pedro Ernesto, em uma refrega com a polícia.

A repressão era grande e recomendava cautela. Talvez por isso não via colegas se posicionando politicamente, e como não tinha decidido se devia ser de direita ou de esquerda, deixei para resolver essa minha dúvida existencial mais à frente. Busquei fazer amigos e não tive dificuldades. Era um dos poucos que tinha um carro próprio, e queria dividi-lo com os colegas. Foi se formando um grupo mal saído da adolescência que gostava de beber, de farrear, de viajar, de aproveitar a vida. Como estudante eu sempre tinha ficado entre os melhores da turma, mas curiosamente sempre me vi atraído pelos colegas tidos como  ‘marginais,’ fazia boas amizades entre eles. Faz-me lembrar de uma blague de Mark Twain,   que meu pai gostava de repetir a respeito do que esperava após a morte: “Clima o do céu, companhia a do inferno”,.

Fiquei satisfeito com o ambiente da faculdade, orgulhoso em já ser um universitário. Mas os professores decepcionaram-me, davam-me saudades daqueles que me entusiasmavam no Curso Miguel Couto. As chamadas cadeiras básicas são áridas, e os professores, com poucas exceções, exibiam uma didática pobre. Desestimulado, passei a estudar pouco, o suficiente para passar, e assim peguei no segundo ano uma recuperação em Fisiologia. Penso hoje que esse estudo das cadeiras básicas deveria ser abreviado e integrado a uma vivência hospitalar mais precoce.

O João Batista Casares Teixeira, o Ganso e o Heraldo de Albuquerque Cordeiro, o Reizinho,   foram as primeiras amizades. Saíamos juntos para cervejadas e bailes. O Reizinho ganhou esse apelido pela semelhança com um personagem do Jô Soares. Era irmão do Hésio Cordeiro, professor da Medicina Social que viria a ser Presidente do INAMPS. Lembro-me da casa deles, no Méier, palco de churrascos e cervejadas, nos quais confraternizávamos com professores amigos do Hésio. O Heraldo tornou-se pneumologista, andou pelo interior de São Paulo e radicou-se em Brasília, onde veio a morrer em 2014 vítima de um infarto, . Outras amizades foram o Moita (Aluisio Leal Santos), discreto e ao mesmo tempo irreverente, o Ofélia (Alfredo Carlos da Luz Filho), de Campo Grande, e o Morcego (Marcos Tadeu Richard Ferreira), de Padre Miguel, que iam juntos de trem para a FCM. Havia também o Jahara (Antonio João), de Magé, e o Sérgio Loura (Sérgio Ignacio Wogel). Foi na casa deste, em Três Rios, que assistimos a chegada do homem à lua, em julho de 1969. A cerveja e, às vezes, uns destilados, nos uniam. Faziam-nos esquecer limites, nos tornava audazes. Outros colegas juntavam-se a nós em ocasiões especiais. Lembro-me com saudades do Sérgio Malta, o Careca, que pegou o apelido porque sofreu o trote da UFRJ antes de ser admitido na FCM. Tentou a medicina de família, a psiquiatria, mas não se encontrou na profissão médica. Deprimido, acabou pondo fim à vida poucos anos depois da nossa formatura. Recordo-me do Dionir Goiabada, de Teófilo Otoni em MGs, cuja casa frequentamos em mais de uma ocasião; do Santista (Lairton), que foi o responsável pela maioria dos apelidos da turma, e do Rolf Kreuzig e do Plinio José da Rocha, amigos inseparáveis, que tinham cursado comigo o pré-vestibular no Miguel Couto. E havia o Luiz Felipe Moreira Lima, alcunhado Imperial, pela semelhança com o radialista Carlos Imperial , depois abreviado para Império, que nos divertia com a sua erudição escondida nas suas histórias engraçadas. Alguém deu ao grupo, o nome inapropriado de A Máfia, talvez fosse mais adequado chamá-lo Clube do Bolinha, já que não havis  meninas.

O Ganso era o nosso líder, o mais vivido de todos,  muito inteligente, boa pinta. Com ele e mais o Moita e o Ofélia fizemos uma viagem à Bahia em julho de 1970, no meu fusquinha azul. Seguiram-se duas outras, memoráveis, com a adesão de vários colegas, nas férias de 1971 e 1972. E muitas viagens por sítios mais próximos ao longo desses anos. Em uma festa de calouros de medicina, no Quitandinha, em Petrópolis, em junho de 1971, conheci a Tania, que se tornaria mãe de meus dois filhos, e companheira de toda a vida. Um mês depois, em uma escapada a Magé, para a festa de casamento do irmão do Jahara, dirigindo o Corcel do pai do Moita, com ele ao meu lado, colidi em uma curva com uma Kombi. Pouco antes o Morcego tinha saído da estrada e descido um barranco com o meu Volkswagen TL. Tinha sido uma noite das arábias que poderia ter sido a última.

Estávamos no terceiro ano, tínhamos iniciado o contato com os pacientes no Hospital Pedro Ernesto, a semiologia e a clínica médica revelavam-se bem mais interessantes do que as cadeiras básicas. Mas o acidente que me deixou cicatrizes faciais atrapalhou-me os estudos por uns dois meses. Veio o 4º ano, quando se aprofunda o estudo da Clínica Médica e de suas especialidades. Gostava de alguns professores, posso citar o Eddy Benssoussan, o Sion Divan, o Fernando Bevilacqua, da Clínica do Prof. Américo Piquet Carneiro. O Aluísio Amâncio, que morreu de infarto precocemente, era uma unanimidade. Mas hoje penso que frequentava pouco o hospital, e com isso tinha pouco contato com os pacientes, esses personagens que tanto nos ensinam e que são a razão de ser da nossa profissão. No final do ano faríamos a prova da SUSEME, fundamental para se classificar em um estágio remunerado nos pronto-socorros públicos. Priorizei o estudo das apostilas em detrimento da frequência ao hospital. Dei-me mal, fui dos poucos a levar bomba, fiquei bastante decepcionado. Tinha deixado de ser o aluno brilhante dos tempos do La-Fayette e do vestibular. O Jahara também não tinha passado. Convidou-me a fazer estágio não remunerado no Hospital Getúlio Vargas, um dos hospitais do concurso. Foi uma boa experiência e a primeira vez em que me senti médico. Aprendi a fazer suturas, a passar sondas, a abordar diversas situações clínicas. Tudo de forma atabalhoada, basta dizer que estávamos no quinto ano e nos reportávamos quase sempre a um sextanista que pensava ser experiente mas não era. Os médicos clínicos e cirurgiões ficavam quase todo o tempo na sala dos médicos, só compareciam para resolver situações mais complicadas. Naquele quinto ano, no longínquo 1973, o Jahara e eu também fomos para um mês de Projeto Rondón, em Parintins, onde nosso grupo de estudantes da área da saúde participou como jurado do Festival do Boi Bumbá, onde se apresentavam os grupos dos bois Garantido e Generoso. Foi uma interessante experiência médica e de vida. Ainda no final de 1973 teve uma nova prova para a SUSEME, e dessa vez dei-me bem, conquistando uma vaga de estagiário no Hospital Miguel Couto para o ano de 1974, com plantões às terças pela manhã, quintas à tarde e sábados à noite.  O sexto ano da faculdade, em 1974, era também o ano do Internato, que funcionava como uma pré-estreia da profissão médica. Fiz o Internato e a Residência Médica no Hospital de Clínicas da FCM, o Pedro Ernesto, com passagens pelas enfermarias de Clínica Médica, Cardiologia, Pneumologia, Neurologia, Clínica Cirúrgica, Pediatria. Cada interno fazia um plantão de 24 horas durante a semana, e havia um rodízio nos finais de semana. Somando-se o plantão da SUSEME toda semana eram no mínimo dois plantões noturnos, era uma escala pesada. À noite os internos revezavam-se na cama que ficava ao lado do telefone. Recordo-me da ansiedade daquela situação, em que ficávamos à espera de uma ligação convocando o futuro médico para uma emergência em tal ou qual enfermaria. Não havia CTI nem unidade coronariana, que seriam inaugurados ainda naquele ano, e por isso havia pacientes graves nas enfermarias. Quando o interno não era capaz de resolver a emergência chamava um R1, que invocava o R2 se o caso fosse muito complexo. O chefe de plantão era um R2, não havia médicos do staff disponíveis no hospital à noite. Era uma rotina muito cansativa, mas para mim muito gratificante, porque sentia que estava aprendendo em um ritmo veloz. Hoje diria que devo ter aprendido mais naquele ano do que nos cinco precedentes. Não havia prova para a residência médica. Os internos eram selecionados conforme o seu rendimento ao longo do internato e a opinião dos R1 e R2 contavam muito nesse processo. Fiquei muito feliz quando soube que tinha conseguido uma das vagas  que aspirava na Clínica Médica. Mas antes da formatura, no dia 16 de dezembro, no Campus da UEG, eu tinha um compromisso pessoal: o meu casamento com a Tania no dia 1º de novembro, na Igreja de São Conrado, seguido da lua de mel em Porto Belo, Santa Catarina. A Residência seguia um modelo similar ao do Internato. Comecei no início de janeiro de 1975 pela Cardiologia, chefiada pelo Professor Arão Benchimol e seu fiel auxiliar, o Prof. Paulo Schlesinger. Dividi-me entre a enfermaria da Cardiologia, chefiada pelo José Maurício Cocarelli, que mais tarde viria a ser meu colega no Hospital Federal de Bonsucesso e a Unidade Coronariana, que tinha sido inaugurada no ano anterior, e era chefiada pelo Denilson Campos de Albuquerque, um pernambucano ainda bem jovem e dinâmico, que tinha feito residência no Hospital dos Servidores do Estado. Gostei da experiência, e comecei a pensar que a Cardiologia era a área da Clínica Médica que mais me atraía, por ser a que mais se aproveita da semiologia clínica, e talvez aquela em que a intervenção médica seja mais gratificante. Da Cardiologia fui para a Clínica Médica do Prof. Américo Piquet Carneiro. O velho professor às vezes aparecia lá na enfermaria 11 e discutia alguns casos mais difíceis. Tinha fala mansa e postura sóbria. A enfermaria era chefiada pelo Luiz Carlos Farias de Araújo. No meu rodízio do internato eu tinha passado três meses nessa enfermaria, e o Pardal, como era conhecido, tinha me impressionado. Era da turma de 1969, o ano do meu ingresso na faculdade, estava apenas seis anos à minha frente, mas aos meus olhos parecia ter décadas de conhecimento e experiência. Admirava a sua postura, a forma como abordava os pacientes e seus familiares, as anamneses detalhadas em uma busca incessante pelo diagnóstico. Rodei depois pela pneumologia, pela neurologia, pelo CTI, inaugurado também no ano anterior.

Em novembro daquele ano de 1975, através do meu sogro que era primo do Pericélio Tupy Vieira, superintendente do INPS, consegui o meu primeiro emprego público, como médico-perito do INSS. A partir daí, até o final do R2, a minha rotina era sair do Pedro Ernesto lá pelas 14 ou 15 horas e subir a Estrada Grajaú-Jacarepaguá até a Taquara, onde ficava o posto da perícia. Não era um trabalho fácil decidir sobre a concessão ou manutenção de um auxílio-doença, e mais difícil ainda comunicar ao segurado que o benefício lhe seria negado. Em uma ocasião, ao dar essa notícia a um indivíduo cujo diagnóstico psiquiátrico era “personalidade explosiva”, fui agredido e vi a minha mesa de trabalho ser virada sobre mim. Policiais contiveram o agressor e fomos todos para a delegacia. No segundo ano da residência os plantões que no R1 eram semanais passaram a ser em semanas alternadas, e havia um rodízio  de plantões nos finais de semana. Continuei na enfermaria 11, sob o comando do Luiz Carlos Farias de Araújo. Mas lá pelo meio do ano, as chefias da Clínica Médica resolveram que os residentes deveriam rodar em outras enfermarias, para conhecer outros professores, tendo assim contato com visões diferentes da medicina. Fiquei triste inicialmente, mas depois achei lucrativa a mudança. Já conhecia o Prof. Edino Jurado da Silva, que chefiava a enfermaria 15, mas que aparecia às vezes na enfermaria 11 para discutir casos clínicos. O contato mais próximo revelou uma pessoa muito simples e agradável, que tinha um método próprio de exercer a clínica, mais ágil e prático do que o do Luiz Carlos. A sua anamnese era objetiva e rápida, sem deixar de ser cuidadosa. Lembro que fazia anotações na papeleta como se fosse residente, tinha um caderno que recheava de anotações, e trazia casos do seu consultório para discutir com os residentes, uma prática que muitos anos depois eu adotaria no Hospital Federal de Bonsucesso. O ano de 1976 teve também, em julho, o nascimento do meu primeiro filho, o Gustavo, que 24 anos depois se tornaria médico, e que hoje trabalha comigo no consultório da Rua Haddock Lobo 369/308. Houve também no segundo semestre o concurso para médico do INAMPS / INSS, em que podíamos nos inscrever em até duas especialidades. Passei bem na Perícia Médica, em um dos primeiros lugares, e também não fui mal na Clínica Médica. Mas não o suficiente para ir para um hospital geral, o que eu almejava. No ano seguinte eu começaria a trabalhar no PAM Praça da Bandeira, mais conhecido como PAM Matoso, com o meu amigo Ganso. E ainda no final de 1976, estimulado por ele, me candidatei para o Mestrado de Cardiologia. Após ser entrevistado pelo jovem Prof. Francisco Manes Albanese, fui aprovado. O Internato e a Residência fazem ainda parte da formação médica. O exercício da medicina para valer começa depois. No meu caso começaria em 1977. É o que planejo contar mais à frente.

       FIM DA 1ª PARTE

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